A mão esquerda de Maradona e o Deus criacionista

“A Argentina do Século passado deixou à América, Che Guevara e Evita. Agora ambos estão fundidos num corpo inerte, que expele luzes de bravura. A graça da certeza e a habilidade – fluente nos verdes campos maquiados do futebol mundial – faz-se hoje memória e reverência. Tudo é rebeldia que não renega as suas origens na pobreza que o cercou na infância e que lhe deu autoridade para dizer que a sua mão – numa fraude esportiva histórica – é a “mão de Deus”. Será? Pode ser.

Maradona com Fidel Castro

Por Tarso Genro

Quinta, 26 de novembro. 2020. Desde cedo da manhã na Casa Rosada, em Buenos Aires, uma multidão comovida desfila perante o esquife de Maradona: futebol, espetáculo, política e religião, frustração de uma nação; desejo de glória e comunhão -no seu leito de repouso- agora é perda. A perda do herói, do atleta perfeito, do Deus encorpado num feixe de músculos que revestem um homem comum. Ele brigou para equilibrar-se com vida, sobreviver à droga, aos excessos que a fama lhe permitiu, à admiração incondicional do seu povo.

Sua morte agora se faz como reencontro no mito, que foge do cotidiano – ora modelo, ora espanto –  instala-se no inconsciente do Século para todo o sempre. No restos mortais de Maradona, o homem do povo que venceu as barreiras do mundo e concebeu a ideia de uma meritocracia  da gente espoliada que quer vencer, por qualquer meio. E de qualquer forma, inclusive pela mão de Deus..

A Argentina do Século passado deixou à América, Che Guevara e Evita. Agora ambos estão fundidos num corpo inerte, que expele luzes de bravura. A graça da certeza e a habilidade – fluente nos verdes campos maquiados do futebol mundial – faz-se hoje memória e reverência. Tudo é rebeldia que não renega as suas origens na pobreza que o cercou na infância e que lhe deu autoridade para dizer que a sua mão – numa fraude esportiva histórica – é a “mão de Deus”. Será? Pode ser.

Não há nenhum abuso na metáfora, afinal o Deus criacionista gerou o Homem, a mulher subordinada a uma costela, deixou o mundo humano a sua própria sorte: ao livre arbítrio dos que podem exercer o arbítrio! O Deus, criacionista – por coerência – bem que poderia permitir o uso daquela mão num gol decisivo, para o brio argentino. Afinal este mesmo Deus também permitiu que genocidas – como Bolsonaro e Videla no poder – fossem demônios abstratos da política, para se tornarem gestores concretos da nossa vida e da nossa morte. Repousa em paz Maradona! Mereces. Que os anjos sujos e puros dos tristes arrabaldes da miséria portenha te recebam com carinho e paz.

Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil.

Publicado originalmente no portal Sul21. Acesse:https://www.sul21.com.br/

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog Traço de União.

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Curiosidades esportivas – sobre a primeira copa do mundo

A Primeira Copa do Mundo de Futebol foi realizada no Uruguai, entre os dias 13 e 30 de julho de 1930. Para esta competição não houve eliminatórias e os países participantes foram convidados. Houve a participação das seleções de 13 países.

Dados da Copa do Mundo de Futebol de 1930

Seleções participantes: Argentina, Bélgica, Bolívia, Brasil, Chile, Estados Unidos, França, Iugoslávia, México, Paraguai, Peru, Romênia e Uruguai.

Estádios onde ocorreram as partidas (todos na capital Montevidéu): Estádio Centenário (construído para esta Copa), Estádio Parque Central e Estádio Pocitos.

Jogo da Final: Uruguai 4 x 2 Argentina (Estádio Centenário em 30 de julho).

Campeão da Copa de 30: Uruguai

Vice: Argentina

Colocação do Brasil: 6º lugar

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Árvore – Manoel de Barros

Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve pra poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,
envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros
E tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com muitas borboletas.

Manoel de Barros

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“Me beija e me chama de centro”, diz direita brasileira

“O que acontece em São Paulo sinaliza rumos para o Brasil. Não justifica nenhum maremoto de otimismo, mas aponta que existem brechas e que aqueles que aprenderam a resistir seguem avançando por elas. Se é verdade que o antipresidente fracassou como cabo eleitoral, é também muito cedo para dar Bolsonaro e, principalmente, o bolsonarismo, por derrotado.”

Foto divulgação

No Brasil, o “moderado” que se apresenta para “unir o país” é o novo velho malandro da crônica política

Por ELIANE BRUM

Mais importante que o mau desempenho nas urnas dos candidatos que Bolsonaro apoiou formalmente são os dois grandes marcos desta eleição: um novo líder se consolida no campo da esquerda no Brasil; e a disputa do legislativo aconteceu com um número inédito de candidatos negros, de indígenas e de pessoas transexuais, algumas delas as mais votadas de seus municípios. Também o número de mulheres cresceu. É pouco, diante do domínio de alguns dos partidos mais viciados e fisiológicos, mas é bastante em um dos países que mais mata negros e faz vítimas por transfobia do mundo, além de ostentar um número assombroso de estupros e feminicídios. A ampliação da diversidade na política institucional acontece exatamente no momento em que o país é governado por um presidente declaradamente racista, misógino e homofóbico. O avanço dessas forças e o risco de Bolsonaro fracassar em seguir representando os interesses das elites econômicas faz a direita iniciar um curioso processo de mudança de identidade. “Me abraça, me beija e me chama de centro” poderia ser o título do mais recente capítulo da crônica política brasileira.

A eleição de domingo mostrou que toda a violência e o autoritarismo de Bolsonaro não foram capazes de interromper o crescente protagonismo dos grupos periféricos da sociedade― negros, indígenas, mulheres e LGBTQIA+― que reivindicam o centro político. Mostrou também que, depois de passar os últimos anos dando voltas em torno do próprio rabo, devido ao controverso legado de Luiz Inácio Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores, o campo da esquerda começa a se mover. Guilherme Boulos, do PSol de Marielle Franco, é líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, uma das principais organizações populares de luta por moradia do país. O fato de disputar o segundo turno para a prefeitura de São Paulo, maior e mais rica cidade brasileira, é a maior notícia desta eleição. Que o PSDB de Bruno Covas saia na frente, com toda a máquina de governo e o tempo de propaganda eleitoral a seu favor, é o óbvio. Boulos é o corte.

O que acontece em São Paulo sinaliza rumos para o Brasil. Não justifica nenhum maremoto de otimismo, mas aponta que existem brechas e que aqueles que aprenderam a resistir seguem avançando por elas. Se é verdade que o antipresidente fracassou como cabo eleitoral, é também muito cedo para dar Bolsonaro e, principalmente, o bolsonarismo, por derrotado. Em pequenas e médias cidades, abrigados nos mais variados partidos, há muitos prefeitos bolsonaristas de alma e também de coldre, e a violência nos interiores do Brasil, tanto quanto nas periferias urbanas, é da ordem do massacre. Como, por exemplo, em municípios do Arco do Desmatamento, na Amazônia.

Os sinais de que Bolsonaro pode se enfraquecer para disputar a reeleição em 2022, porém, já levou a direita a buscar um rearranjo estratégico nas últimas semanas. Figuras que até pouco tempo atrás dançavam de rosto colado com o antipresidente, como o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o ex-ministro da Justiça Sergio Moro, começaram a costurar uma aliança para 2022 junto com Luciano Huck, popular apresentador da TV Globo, que já fez efusivas carícias públicas em Bolsonaro. Doria quis tanto se grudar em Bolsonaro em 2018 que literalmente colou o nome dos dois na propaganda eleitoral: “BolsoDoria”. No caso do herói decaído da Operação Lava Jato, até sua mulher, Rosângela Moro, insuspeita, portanto, já afirmou que via o juiz justiceiro e o Governo Bolsonaro “como uma coisa só”. Huck, na eleição de 2018, chegou a declarar que Bolsonaro tinha “uma chance de ouro de ressignificar a política”.

Antecipando-se ao risco de que a esquerda possa se unir para disputar a sucessão de Bolsonaro, como acontecerá no segundo turno de São Paulo, a direita tira do bolso truques manjados, mas que ainda podem funcionar. Como fizeram com Lula quando o então líder sindical se iniciou na política, as urnas nem tinham terminado de ser apuradas no domingo e já começaram a estampar em Boulos o carimbo de “radical”, na tentativa de amedrontar o eleitor num momento de intenso desamparo por conta do desemprego e da pandemia. Ao colocar “radical” como palavrão, a direita revela seu profundo preconceito contra os movimentos sociais. Tratar como radical a luta por moradia num país em que há mais casas sem gente do que gente sem casa revela mais da direita que se finge de centro do que da esquerda que Boulos representa.

O fato é que a esquerda finalmente começa a dar sinais de que há vida depois do lulismo ―e o legislativo vai ficando mais preto e mais trans. Dez prefeitos indígenas e mais de 50 vereadores quilombolas também foram eleitos, desbranqueando prefeituras e câmaras, embora ainda não suficientemente. Nas ruínas do Brasil, é necessário olhar para onde está a resistência que teima em criar vida mesmo nos escombros.

Assustada, a velha direita tenta vestir a máscara de moderação de Joe Biden. O problema é que Joe Biden foi eleito porque teve o apoio da esquerda progressista do Partido Democrata, na qual a maior parte dos expoentes nasceu justamente de lutas contra o racismo e o preconceito. A direita que agora se finge de centro e pretende nunca ter apoiado um defensor de tortura, quer justamente fazer o contrário: esmagar toda a potência emergente que primeiro Michel Temer (MDB) e depois Bolsonaro golpearam, mas fracassaram em parar. Não há máscara grande o suficiente para conter o topete laranja que salta bem no meio da testa destes malandros.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora de Brasil, Construtor de Ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago). Site: elianebrum.comEmail: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter, Instagram e Facebook: @brumelianebrum

Publicado originalmente no El País. Acesse: https://brasil.elpais.com/

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog Traço de União

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Carrefour e o Brasil de antigamente! Casa-Grande?

“Hoje em dia os mais humildes, pobres e principalmente “não caucasianos” (permitam-me o alto grau de sarcasmo) correm sério risco de vida nos shoppings chiques e nos grandes supermercados. Está sempre na encruzilhada (outra dose de sarcasmo) entre apanhar, ser humilhado ou até morrer.”

Por Lenio Streck

Poderia ser assim o comercial do Brasil de antigamente. Peguemos, como exemplo, o café, “coisa bem brasileira”.

O cenário: uma antiga fazenda de café. Algo do tipo Casa-Grande, compreendem? Os personagens: dois recém-casados, caucasianos, que, ao acordarem, encaminham-se ao café da manhã (servido por uma empregada doméstica não caucasiana).

Corta! Cena 2: A câmera mostra os “colaboradores” da “casa-grande” se encaminhando para a plantação, com ferramentas rudimentares (típicas “daqueles tempos”).

Corta. Cena 3: O lindo sol raia no horizonte enquanto os campesinos se afastam e o belo casal, vestindo roupas brancas (assepsia, é claro!) senta-se à mesa, ornada com toalha rendada e com xícaras de fino porcelanato.

Corta. Cena 4. Os patuleus já estão na plantação.

Corta. Cena 5, final. O café sendo servido. Fumegante, denso (quase ontológico!), saboroso… e uma voz vigorosa, meio rouca, em off anunciando, algo como “Café Marca Tal: os bons tempos estão de volta!” Fim. Palmas. Prêmio melhor propaganda.

Há nessa peça de ficção acima a representação de um imaginário que (ainda) permeia as relações de trabalho em Pindorama. Reflexos de uma cultura escravagista e segregadora que se manifesta, ora sutilmente, ora explicitamente.

Substituamos Café por Carrefour. E, pronto. A voz em off, gutural, dirá: “Carrefour do Brasil: os bons tempos estão de volta”.

O que falta? Falta alguém perguntar: bons para quem, cara pálida?

Pois o episódio da morte do cidadão no Carrefour em Porto Alegre é apenas mais um capítulo desse longo enredo. Só que não é ficção. É pura realidade.

Há algo nisso tudo algo que lembra o Brasil de antigamente. De um Brasil velho que teima em não morrer e o novo Brasil que não consegue nascer.

O Carrefour já é reincidente (aqui). Despiciendo falar algo a mais, a não ser que está madura uma ação de dano moral coletivo, como falei aqui. Claro que o fato da morte no Carrefour-Passo da Areia (Porto Alegre) transcende (e como transcende) a um caso individual. Digamos que pode se tratar da abertura de um importante precedente judicial. Um caso de “carteirinha”! De cair em concurso público.

Fico pensando como as pessoas de fora veem o Brasil. Inclusive os franceses do Carrefour. Como aqui é uma terra “selvagem”, há que cuidar e proteger bem os bens da Casa-Grande. Afinal, tem gente no Brasil “que não sabe o seu lugar”. Algo como espalhar a “notícia” de que “manga com leite faz mal, para impedir o furto de mangas…”! Contrata-se firmas de segurança meia-boca e, pronto. E uma senhora vestida de branco para filmar (aliás, qual é o papel da filmadora?)

O CEO da empresa (ou o gerente ou o subgerente ou o sub-subgerente, com delegação) deve dizer: “- Façam o que for necessário para proteger a empresa. Mas, por favor, não me contem nada. Não quero saber como farão”. Mais ou menos como nos filmes, quando um mafioso diz: “- Resolvam aquele problema com aqueles senhores do bairro tal”. O segurança, para ser agradável, diz: “Chefe, vou…”, e é interrompido bruscamente:” – Não me diga nada, já falei. Não quero saber”.

Isso se chama hiperterceirização. Nestes tempos de uberização, basta um computador para montar uma empresa de segurança. Essa hiperterceirização pós-moderna, além de tirar empregos, ocorre quando não somente se terceiriza o trabalho, mas também a avaliação moral, ética, humanitária. Às favas a dignidade da pessoa. Abra-se licitação para contratar a empresa de segurança “Patadas, Socos & Picaretas Ltda”, que é mais barata.

Para além do que ocorreu (mais de uma vez) no Carrefour (e não só no Carrefour), precisamos falar sobre empresas de (in)segurança, Kevin (se me entendem a ironia a partir de Lionel Schriver, quem escreveu o famoso livro “Precisamos falar sobre o Kevin”, menino que matou a metade dos seus coleguinhas de escola com arco e flecha).

Hoje em dia os mais humildes, pobres e principalmente “não caucasianos” (permitam-me o alto grau de sarcasmo) correm sério risco de vida nos shoppings chiques e nos grandes supermercados. Está sempre na encruzilhada (outra dose de sarcasmo) entre apanhar, ser humilhado ou até morrer.

Não me admira que alguma empresa seguradora, para aproveitar o momento, venda seguros para empresas como Carrefour, para cobrir despesas de indenizações por espancamentos, humilhações e quejandos.

Por isso, um dano moral coletivo pesado é necessário. Não há impedimento legal. A lei tem, também, o caráter de prevenção geral.

Vejam um bom exemplo: quantas conduções coercitivas houve depois de o STF julgar inconstitucional essa excrecência? Nenhuma. Por que, será? Está aí a lei do abuso.

Porque a lei (também) interdita. Pelo menos em um Estado de Direito. Ou fundamentalmente delimita a fronteira – enfim, qual o caminho a ser tomado quando estivermos na encruzilhada – entre civilização e barbárie.

Numa palavra final: continuo extremamente intrigado com o papel (função) da senhora que filmou a barbárie. O que ela estaria dizendo para os dois assassinos? Mistérios da hiper-realidade. Será que ela queria postar no seu face?

Ainda: dados do Ibovespa mostram que o CEO do Carrefour recebe 360 vezes o salário de um funcionário médio da empresa. Nesse valor devem estar os lucros da precária terceirização, pois não? Claro: menos gastos com terceirização, mais lucro, mais bônus.

Precisamos falar sobre racismo, violência, terceirização, dignidade… Não pode haver aí um ponto surdo do discurso, para usar um conceito do psicanalista Mauro Mendes Dias.

Afinal, não dá para “voltar aos bons tempos” ou a um “Brasil de antigamente”, pois não?

Agora é um caminho de não retorno!

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Lenio Streck é jurista, professor de Direito Constitucional e pós-doutor em Direito pela Universidade de Lisboa. Membro catedrático da Academia Brasileira de Direito Constitucional (ABDConst) e membro da comissão permanente de Direito Constitucional do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), é sócio do escritório Streck e Trindade Advogados Associados. Veja todos os posts de Lenio Streck.

Artigo publicado originalmente no Consultor Jurídico. Compartilhe

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog Traço de União

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Conservadorismo nosso de cada eleição – uma Análise de Ana Paula Lemes de Souza

“O capital político de Bolsonaro não serviu sequer para eleger a maior parte dos candidatos, simultaneamente cínicos e azarados, e isso deve ser comemorado. Seu índice de rejeição aumentou especialmente nas grandes capitais, como Rio de Janeiro e São Paulo, como indicado por pesquisa de opinião pública desse mês de novembro, do instituto Datafolha. Em São Paulo, 50% do eleitorado rejeita Bolsonaro, enquanto, no Rio de Janeiro, 42%. Em Recife, a rejeição é de 45% enquanto, em Belo Horizonte, a rejeição é de 45%.”

Por Ana Paula Lemes de Souza

Na eleições municipais de 2020, o bolsonarismo sofreu uma derrota. Candidatos indicados pelo Bolsonaro para as prefeituras e câmaras de vereadores tiveram resultados desastrosos nas urnas. O fracasso foi tamanho que o próprio Bolsonaro apagou o seu Tweet com as indicações dos nomes, o que só foi salvo graças a printagens feitas por seguidores antenados. Seu filho, Carlos Bolsonaro, apesar de todos os holofotes e de ter sido reeleito vereador na cidade do Rio de Janeiro, despencou em número de votos, comparativamente às eleições de 2016.

Se é certo que alguns reveses importantes marcaram as urnas nas eleições municipais de 2020, sinalizando que as mudanças virão dos municípios, onde a vida acontece, por outro lado, não se pode olvidar que as marcas mais profundas, como do conservadorismo, do machismo e do racismo, continuam presentes.

O capital político de Bolsonaro não serviu sequer para eleger a maior parte dos candidatos, simultaneamente cínicos e azarados, e isso deve ser comemorado. Seu índice de rejeição aumentou especialmente nas grandes capitais, como Rio de Janeiro e São Paulo, como indicado por pesquisa de opinião pública desse mês de novembro, do instituto Datafolha. Em São Paulo, 50% do eleitorado rejeita Bolsonaro, enquanto, no Rio de Janeiro, 42%. Em Recife, a rejeição é de 45% enquanto, em Belo Horizonte, a rejeição é de 45%.

Por outro lado, partidos de direita ou centro direita avançam em números nas prefeituras dos 5.570 municípios brasileiros, fazendo parte de espectros que, embora não representem diretamente o bolsonarismo, compartilham das mesmas pautas conservadoras. São exemplos o PSL, que triplicou o número de prefeituras, passando de 30 (trinta) para 90 (noventa); o Republicanos, que dobrou, de 104 (cento e quatro) para 208 (duzentos e oito); o Avante, que passou de 15 (quinze) para 80 (oitenta) prefeituras; e o DEM, que passou de 265 (duzentos e sessenta e cinco) para 465 (quatrocentos e sessenta e cinco) representantes nos executivos municipais.

Do lado da esquerda, o PT, PSB, PDT e PCdoB sofreram recuos, com exceção do PSOL, que dobrou o número de prefeituras, passado de 2 (duas) para 4 (quatro). Boulos com Erundina disputam o segundo turno na maior capital do país, pelo PSOL, enquanto Manuela D’Ávila com Miguel Rossetto disputam o segundo turno em Porto Alegre, pelo PCdoB. A COVID-19 beneficiou os candidatos à reeleição, independentemente de espectros políticos. Outrossim, houve a maior abstenção dos últimos 20 (vinte) anos, com 23,10%.

No caso das mulheres, o aumento de eleitas foi tímido, de 11,7% para 12%, apesar do aumento do número de candidatas, que representaram 33,6% no pleito de 2020, o maior percentual das últimas três eleições. Sendo assim, apenas 1 (uma) de cada 10 (dez) prefeituras será liderada por mulheres, repetindo a baixa representatividade feminina no poder executivo. Hoje, dos 26 (vinte e seis) estados brasileiros, há apenas 1 (uma) governadora, Fátima Bezerra (PT), do Rio Grande do Norte. A sub-representação não deu indícios de ser resolvida nas eleições 2020.

Não por acaso, o feminicídio cresce no Brasil: uma mulher é morta a cada nove horas e, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o 5º país com maior número de casos de feminicídio, perdendo apenas para Colômbia, Guatemala, El Salvador e Federação Russa. Não estranha que casos jurídicos como de Mariana Ferrer, com o machismo escancarado e torções da lei, inventando a figura do “estupro culposo”, sejam comuns nos corredores da justiça brasileira. Isso sem considerar os casos das mulheres trans e travestis, considerando que o Brasil é recordista mundial em transfeminicídio.

Quanto ao racismo estrutural, houve um aumento que, embora maior que no caso das mulheres, ainda é tímido: 32% dos prefeitos eleitos são negros sendo, em 2016, 29,2%. Cresce número de quilombolas e indígenas eleitos. A cidade de Pesqueira, do Pernambuco, elegeu, sob judice, o seu primeiro prefeito da etnia Xukuru, o Cacique Maruqinhos Xukuru (Republicamos).

Diante desse cenário, em que o bolsonarismo perde, mas o conservadorismo nem tanto, devem ser aguçados os olhares. Com a perda de Trump nos EUA e o isolamento de Bolsonaro “entre a saliva e a pólvora”, no cenário político internacional e interno, restam aos conservadores, apenas, trocar de roupas. A nós, cabe identificá-los em cada um de seus figurinos

Ana Paula Lemes de Souza
ANA PAULA LEMES DE SOUZA Doutoranda em Direito na FND/UFRJ. Pesquisadora, escritora, ensaísta, professora e advogada.

Publicado originalmente no portal Carta Capital. Acesse: https://www.cartacapital.com.br/

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog Traço de União

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A morte de João Alberto e a banalização do ódio que vem do Golpe e do fascismo – texto da Tarso Genro

“…estas eleições foram estimulantes e inovadoras. Estimulantes, pela possibilidade de emergência de uma esquerda plural, que se revela induzida principalmente de “baixo para cima”; e foram inovadoras porque mostram o surgimento de lideranças novas, que superaram as fronteiras apertadas pelas burocracias dos seus próprios partidos e expandiram o seu potencial eleitoral, muito além das suas siglas originárias.”

Ato em frente ao Carrefour pediu justiça por Beto, assassinado no estabelecimento. Foto: Luiza Castro/Sul21

Por Tarso Genro

Se a mídia tradicional usasse os mesmos critérios que usou para tentar exterminar o PT,  condenar Lula e promover a deposição da presidenta Dilma, para noticiar a morte do homem negro assassinado dentro do Carrefour em Porto Alegre, seu relato seria diferente. Diria, em primeiro lugar, que o assassinato de João Alberto não começou na quinta-feira trágica, que os diretores do Carrefour tinham o “domínio do fato”, que o clima de ódio e o fortalecimento do racismo, no País, têm autores bem conhecidos: fazem “arminhas”, medem filhos de ex-escravos em “arrobas”, acham que progresso é incendiar florestas e tratam os indígenas como mercadores de Coca-Cola, que entregam a preço vil a biodiversidade da Amazônia.

O jornalismo, porém, predominantemente devotado ao “singular” — a notícia não é o cachorro que mordeu o homem, mas o homem que mordeu o cachorro –, quando transita para o reino “universal” da política (a partir dos olhos de quem vê, de onde a pessoa está), pode fracassar. É quando a mídia, sustentada pelos tentáculos do mercado, precisa manipular seu próprios conceitos  para não se chocar com os seus “assinantes”, transformando em fato “singular”, o que já é um sintoma universal da sociedade adoecida pelo fascismo: se o assassinato de negros jovens “deixou” de ser um fato isolado (que nunca foi, na verdade), em nosso País, mas passou ser um fato político, isso precisa ser contado pela metade, para não agredir os donos reais do poder. O clima histórico, então, se desliga do assassinato e ele aparece apenas como um “excesso”, não como uma doença política que evidencia o fascismo.

A ansiedade  destrutiva de maior parte da mídia tradicional, com seus “especialistas” — internos e externos –, anunciando mais uma vez a decadência do PT, mais uma vez vai fracassar. Independentemente dos resultados finais deste domingo, o que já fica evidente é o fracasso do bolsonarismo (como opção democrática eleitoral), o enfraquecimento das religiões do dinheiro, a estabilidade do PT — como partido de esquerda capaz de fazer alianças — e a emergência, em determinados espaços políticos, de um frentismo democrático e social de esquerda.

Este neo frentismo traz o fortalecimento de líderes progressistas — da esquerda e da centro -esquerda –, em que pese os seus dissensos em outras regiões, que poderá se expandir nas lutas que vão se radicalizar contra o fascismo e  o ultraliberalismo. Se ambos — fascismo e ultraliberalismo — estivessem inscritos no grupo dos Cavaleiros do Apocalipse, não relutaria em apontá-los como signos de dois destes emissários do inferno: a morte e a peste.

A morte violenta é o atrativo mais forte do fascismo, para as mentes doentias e os corpos desesperados pela miséria; a peste, que vem da fome e do vírus, é a palavra que revela o Estado liberal, ausente para assistir os mais débeis, no momento em que o capitalismo expressa toda a sua vocação necrófila e escolhe, para liderar – na crise das suas crises -, tipos como Trump, Mussolini, Hitler e Bolsonaro.

As eleições municipais, ainda informadas pela campanha da “extinção da política”, tratada com esmero e carinho pela mídia tradicional, com a maioria dos seus jornalistas, mostra contudo que existem caminhos possíveis. E estes já têm representação em pessoas e partidos, frações de partidos, movimentos orgânicos e espontâneos, que vem “de baixo para cima”, a orientar a nova unidade política para o futuro.

Já muda — neste momento — o significado de líderes populares como Lula, Boulos, Ciro, Haddad, Manoela, Dino, Freixo, Requião e Marina, originários de um vasto campo de representação política, que precisa se unir para salvar o Brasil. Todos já foram unidos — espontaneamente ou não —  numa das mais espetaculares reviravoltas políticas depois do Golpe, capitaneada pela candidatura de Guilherme Boulos, em São Paulo, que foi para o segundo turno num Estado vigiado pela direita mais cavalar, sempre orientada pela vitrines da FIESP, na “elegante” Avenida Paulista.

Nas eleições do Rio, falece a pior liderança do evangelismo do dinheiro e, em Porto Alegre, a esquerda se alça — de novo — ao segundo turno, com brilho; no Recife surge uma estrela, em Fortaleza a unidade difícil emerge como unidade possível contra a extrema-direita, com o PT tendo uma grande influência em “tudo isso”. E o “tudo isso” é,  sem dúvida, a derrota eleitoral imposta a este governo primário e fascistóide, que a mídia tradicional ajudou a eleger e ainda não desistiu de salvá-lo.

Dados colhidos pelo cientista político Jairo Nicolau nas trinta e oito maiores cidades do País com mais de 500 mil habitantes indicam qual foi o partido mais votado para as Câmaras de Vereadores, nas referidas comunidades. Foi o PMDB, o DEM, os “Republicanos”? Não! Foi o PT. Não foi o carcomido “Novo” ou o PTB. O que — por si só — demonstra que, se o Partido dos Trabalhadores não está mais na sua “era de ouro” eleitoral (o que não vai mais ocorrer na situação de  uma hegemonia compartilhada dentro da esquerda), o PT ficou mais forte nas cidades politicamente mais influentes do país.

Para quem quer o crescimento da esquerda como conjunto e busca também a ampliação de um polo democrático contra o fascismo bolsonarista — apelidado de “comunismo de direita” pelo original General Santos Cruz –, estas eleições foram estimulantes e inovadoras. Estimulantes, pela possibilidade de emergência de uma esquerda plural, que se revela induzida principalmente de “baixo para cima”; e foram inovadoras porque mostram o surgimento de lideranças novas, que superaram as fronteiras apertadas pelas burocracias dos seus próprios partidos e expandiram o seu potencial eleitoral, muito além das suas siglas originárias.

Tenho assistido, porém, algumas manifestações de jornais de referência, como a Folha de São Paulo,  que destacou a necessidade de eliminar o bolsonarismo e a esquerda, para defender um “centro democrático”, e de  jornalistas de direita/extrema direita — sempre predominantes na mídia tradicional –, que começam a fazer um novo jogo, semelhante à mistificação que elegeu Bolsonaro em nome do combate aos “dois extremos”, que seriam, à época, Haddad e Bolsonaro.

Temos que observá-los com cuidado, pois fazem um jogo que trata de opor, de um lado, a esquerda social e partidária, a um falso e novo “centro” que, ao se livrar dos símbolos mais perversos do bolsonarismo protofascista, poderia garantir as reformas ultra radicais da direita econômica, ora brecadas pela rusticidade política do “guia” que elegeram em 2018.

Para esta estratégia dar certo, todavia,  precisam convencer o povo que a direita nova e a tradicional são este “novo centro”  (Huck, Rodrigo Maia, Eduardo Leite, Dória) e que Bolsonaro não “deu certo” em função do seu “temperamento” incontrolável, não do ódio irracional e golpista que sempre exalou por todos os seus poros, contra tudo que é democrático e libertário. A criatura, porém, agora pode se rebelar contra os seus criadores porque estes, de uma parte, já se preocupam com o mau prestígio do Brasil no exterior, que pode prejudicar seus negócios e, de outra, porque Bolsonaro já promete ser um fracasso eleitoral nas eleições presidenciais.

A seguir, o bloco golpista ultraliberal precisa reafirmar a estratégia que desenvolveu no Golpe, “que bastaria tirar o PT para o Brasil dar certo”, substituindo-a por uma outra mais sofisticada: “as  reformas que salvarão o Brasil só poderão ser feitas pelo centro”, que, na verdade, é a velha direita que deu o Golpe e carece de forças para administrá-lo, unida ao velho Centrão — “sempre ao seu dispor”!

E, assim, os 10 milhões de empregos prometidos pela reforma trabalhista desaparecerão no horizonte colorido dos comentaristas medievais, que ajudaram a forjar a “escolha difícil” (Onde estão?). Esta farsa, às vezes se apresenta como simples mentira repetida, outras como despolitização da História.

Quando as omissões do tempo histórico ocorrem para encobrir mortes como a de João Alberto, o poder já necessita de mentiras permanentes para sobreviver. E as mentiras permanentes são, não só a essência do fascismo, mas também a caracterização dos seus cúmplices, dentro e fora do Estado.

Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil.

Publicado originalmente no portal Sul21. Acesse: https://www.sul21.com.br/

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog Traço de União

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Os neonazistas saíram das sombras – texto de Adércia Bezerra Hostin dos Santos e José Isaías Venera

“No Brasil, o culto a origens europeias, em especial a germânica, parece ocupar, no imaginário social, o que os objetos de fetiche funcionam nas relações sexuais. Como falta um passado de glória, inventa-se um. O problema não é a fabricação de um passado, mas o ódio que gera a tudo o que pode colocar em xeque a veracidade dessa fantasia, tornando-se também objeto de ódio.”

Foto divulgação

Professora negra eleita vereadora pelo PT em Joinville é ameaçada de morte

Por Adércia Bezerra Hostin dos Santos e José Isaías Venera

Em Os irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski, encontramos a passagem: “Em todo homem, é claro, habita um demônio oculto: […] o demônio do prazer voluptuoso frente aos gritos da vítima torturada”. Podemos traduzir esse prazer voluptuoso pela expressão gozo, na qual há um “prazer” com sofrimento alheio. No sadismo, há o gozo em submeter o outro à dor. Quando deslocamos essa estrutura psíquica (perversa) para o plano social, o gozo sádico se expressa no ataque a grupos de pessoas no qual o prazer está em fazê-las sofrer. Os sujeitos submetidos ao gozo dos sádicos são destituídos de sua humanidade, naturalizando a barbárie. É como se os sádicos tivessem uma carta branca que os autorizassem nas suas ações.

Quem dá carta branca para a crescente onda neonazista?

Em Sigmund Freud encontramos dois afetos de ligação dos laços sociais: o amor e a agressividade (ódio). De um lado, o amor à figura do líder, e, de outro, o ódio àqueles identificados como ameaça ao amo. Na cena brasileira, o presidente Jair Bolsonaro funciona na posição de líder de um grupo ao qual negros, índios, LGBTQIA+ e mulheres empoderadas são apenas algumas das personas de ameaça.

Por essa via, podemos entender os ataques à primeira vereadora negra eleita, no dia 15, em Joinville, SC, a petista Ana Lúcia Martins. Ainda no domingo, antes da divulgação dos resultados da eleição, Ana passou a sofrer ataques. Entre eles, de um perfil falso do Twitter com referência a “Juventude Hitlerista” e que defendia sua morte, para que, com isso, seu suplente, branco, assumisse a cadeira na Câmara de Vereadores. Perfis falsos propagando o terror têm sido corriqueiros nesse Brasil de milicianos. O problema maior neste lamentável episódio é que se integra aos discursos de ódio um radialista local que atua na rádio Jovem Pan (rádio que transmite as lives semanais do presidente Jair Bolsonaro, ao qual são recorrentes falsas notícias, além de discursos de ódio).

É preciso dar um passo atrás

O filósofo esloveno Slavoj Žižek nos mostra uma importante lição no livro Violência, de que é preciso da um passo atrás para “desembaraçar-nos do engodo fascinante da violência ‘subjetiva’, claramente visível”, como essa acometida à vereadora recém-eleita. Tanto o perfil anônimo quanto o discurso do radialista (poderíamos citar também a governadora interina de Santa Catarina, Daniela Reinehr — sem partido —, que não condenou o nazismo em sua primeira coletiva no cargo, após ser questionada sobre seu pai, José Altair Reinehr, que já defendeu Hitler e negou o holocausto) são apenas as materialidades visíveis de um fundo adjacente que deve manter-se imperceptível. A violência subjetiva é também simbólica na medida que uma injúria racial existe a partir da linguagem, e a linguagem como constituidora do sujeito, neste caso, do sujeito racista. Mas Žižek nos adverte para a violência objetiva, responsável por naturalizar o sentido das coisas.

Enquanto se combate a violência subjetiva, é dado como natural que Joinville, e boa parte do Sul do país, tem identidade germânica, segregando outros grupos da partilha da cidade, como os negros. Outro exemplo é quando se naturaliza o binarismo de gênero, segrega-se as outras formas de construção da sexualidade, abrindo espaço para a violência subjetiva que insulta grupos LGBTQIA+.

A naturalização da superioridade é um fetiche

Quando Freud publicou Psicologia das massas e análise do eu, em 1.922, o antissemitismo, oriundo do século 19 com base em preconceito e notícias falsas, já dava sinais de que chegaria às instâncias máximas de poder, implantando, assim, sua política de segregação e de morte, como na experiência nazista (1933-1945).

No Brasil, o culto a origens europeias, em especial a germânica, parece ocupar, no imaginário social, o que os objetos de fetiche funcionam nas relações sexuais. Como falta um passado de glória, inventa-se um. O problema não é a fabricação de um passado, mas o ódio que gera a tudo o que pode colocar em xeque a veracidade dessa fantasia, tornando-se também objeto de ódio.

Assim, em muitas cidades do Sul do Brasil, ser negro já o classifica como uma persona que coloca em suspenso a veracidade dessa fantasia, resultando em discursos e práticas de ódio. A segregação afirma-se neste espaço de naturalização, como no campo religioso, passando ao largo a presença e contribuição dos negros na história da cidade nos conteúdos escolares sobre a cidade, ou nas festas comemorativas, assim como a presença das religiões afro-brasileiras, sobretudo os terreiros de umbanda e candomblé.

Neonazistas no Sul

Em novembro de 1995, chegava às bancas a primeira edição da revista Atenção!, com a manchete de capa, “Neonazistas do Brasil: eles crescem nas sombras”. De lá para cá, poderíamos dizer que eles saíram das sombras, ocupam bancada de rádios, estão nas redes digitais e em esferas políticas. O editorial poderia ser publicado hoje que representaria bem nossos dias, ao qual podemos ler: “A capa desta edição anuncia uma reportagem sobre os objetivos, os ritos e o crescimento dos neonazistas no Brasil, particularmente entre jovens. Seus ancestrais ideológicos foram os campões da discriminação racial e religiosa, e em certo memento histórico comandaram milhões para a guerra, a destruição e o genocídio”.

Na reportagem de Clarinha Glock, na Atenção!, a primeira fonte é Wandercy Publiese, que “reforça a imagem de líder da nova geração nazista”. Em 2014 voltaria a ser notícia quando a tripulação de um helicóptero da polícia flagrou a imagem de uma suástica ao fundo de uma piscina, na residência em Pomerode do professor Wander, como é conhecido. Neste ano, ao se lançar candidato a vereador pelo Partido Liberal (PL), voltou a ser notícia, o que o levou à desistência da candidatura.

A naturalização do discurso fascista

Para além desses grupos organizados, a naturalização da superioridade faz funcionar a violência objetiva ao qual Žižek de chama a atenção. Quando o radialista da Jovem Pan diz que “a eleita voltará a colocar as pautas na esquerda em ação […], virá com o feminismo ideológico […], o PT não deveria existir mais”, evoca um conjunto de vozes na esteira da ordem discursiva da segregação. Entre as manifestações, a do perfil falso do Twitter: “Agora só falta a gente m4t4r el4 e entra o suplente que é branco”.

O radialista não fez injúria racial, mas fez um discurso fascista que não aceita a existência do que difere do seu ponto de vista. Falas cada vez mais recorrentes, que naturalizam práticas discursivas de ódio e incitam a violência como caminho para a efetivação da exclusão. Como profissional da comunicação, ele sabe sobre a responsabilidade do que comunica, mesmo que não tenha consciência sobre esse traço fascista de seu discurso. O debate não pode se reduzir a um grupo organizado, ou a falas que se propagam pela imprensa, mas deve se voltar à violência objetiva, cuja função é naturalizar a realidade e tornar “aceitável” que alguns possam ser matáveis.

Adércia Bezerra Hostin dos Santos é pedagoga, mestranda em Sociologia e Ciências Políticas na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), presidente do Sindicato dos Professores de Itajaí e Região/SC, coordenadora da Secretaria de Assuntos Educacionais da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee) e membro da diretoria do Fórum Nacional de Educação (FNPE).

José Isaías Venera é jornalista, doutor em Ciência da Linguagem pela Unisul e professor dos cursos de comunicação da Univille e Univali, em Santa Catarina. Site: http://www.joseisaiasvenera.com

Publicado originalmente no portal Carta Capital Acesse: https://www.cartacapital.com.br/

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog Traço de União

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O compasso da dança – por Mimila K Rocha

Quando danço o prazer invade minha alma.

Nada me detém!

No compasso do som – embriagado pelo prazer rítmico – sigo de cabeça erguida…

Tempos fortes e tempos fracos se alternam ditando a dinâmica do meu corpo.

Os intervalos regulares da música ditam o compasso de minha interpretação – minha interação…

A cadência é o meu diálogo com auditório.

Na minha frente, olhares atentos, silêncio absoluto e músculos relaxados como se quisesse penetrar na minha dança…

Emoção, reciprocidade, interação.

Tudo é permitido enquanto ali estou…

É a sequência harmônica que me faz tomar conta do espaço,

Corpo em atividade, músculos enrijecido ou relaxados conduzem meu corpo a um conjunto fluente no tempo – Naquele espaço meu corpo parece falar.

Elasticidade, asas, ar, sons, passos, rítimo – literalmente o mundo aos meus pés.

Movimento o meu corpo de maneira graciosa, com leveza…

E se há intermitência: é para melhor sincronizar os meus passos.

Danço para estimular emoções.

Mimila K Rocha

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Temos uma democracia cheia de esparadrapos, mas democracia assim mesmo

A política nunca foi, nem aqui, nem na China, isenta de truculência e ignorância. Mas, nas democracias, a civilidade é a regra. Ela prevaleceu entre nós por bastante tempo.

As urnas encontraram opções, à esquerda e à direita, adeptas da etiqueta democrática

Por Ângela Alonso

O mundo era outro, mas a eleição era a mesma, municipal. A candidata do PC do B amparou concorrente que desfalecia, em meio a debate. Era a disputa pela Prefeitura do Rio de Janeiro, e foi ao vivo que Flávio Bolsonaro passou mal. Boa tampouco foi a recepção à solidariedade da médica. O pai do moço disse que comunista não tocava em filho seu. Um gesto miúdo de civilidade rechaçado.

Bolsonaro nunca assimilou a etiqueta do respeito ao adversário. Mas sua postura era incomum. Frequentes eram ações como a de Jandira Feghali. Lula confortou Fernando Henrique Cardoso, quando da morte da esposa, ato retribuído anos adiante. Circula por aí foto de José Serra vacinando Lula, nos tempos em que a credibilidade do conhecimento científico era ponto pacífico. Quando do acidente de Eduardo Campos, políticos de todos os matizes prestaram homenagens.

A política nunca foi, nem aqui, nem na China, isenta de truculência e ignorância. Mas, nas democracias, a civilidade é a regra. Ela prevaleceu entre nós por bastante tempo.

O bolsonarismo é um barbarismo, mas não uma revolução. O mundo da polidez política foi indo abaixo antes dele, de grão em grão. Aécio Neves questionou no TSE a lisura da reeleição de Dilma. As urnas, acusadas de resultado desagradável, viram-se desclassificadas como porta-vozes da democracia.

Acabaram trocadas, no quesito legitimidade, pelo martelo dos homens de toga, nos quais ninguém vota. O lavajatismo começou caçando os petistas, mas seu movimento de purificação respingou em todos os escolhidos por eleitores. O Congresso, no impeachment da presidente, ratificou o soterramento das urnas. Nesse dia, Bolsonaro exprimiu, em alto e bom som, sua aversão às regras da democracia, da cortesia e da gramática.

Não foi Bolsonaro quem produziu a terra arrasada, foi o desmoronamento da etiqueta democrática que lhe abriu o espaço. Muitos dos civilizados brasileiros que, nos últimos dois anos, vivem o luto da política regida pela polidez, contribuíram com sua pá de cal para que ela fosse para o brejo.

As mudanças não foram abruptas. Foram pequenos sismos sucessivos. O choque cada vez menos educado entre forças contrárias foi empurrando o país para o poço sem fundo.

Apesar dos gulosos por novidades, que, desde domingo (15), festejam uma estação de “renovação” e “virada”, os votos não desarranjaram placas tectônicas. Elegeram-se líderes indígenas, é certo, mas também os que não reconhecem seus direitos. Despontam negros e mulheres, mas ainda bem poucos, enquanto cresceu a representação de policiais militares. Chegaram transgêneros, mas voltaram pastores antiaborto. Há vereadores e prefeitos jovens, como provectos. Gente de esquerda, centro e direita, os de primeira viagem e os velhos de guerra. O PT não morreu, tampouco seus inimigos produziram a terra arrasada. Nem o bolsonarismo foi enxurrada a varrer o resto, nem foi alagado pela enchente de promessas. A política segue equilibrando tendências e contratendências. Houve remexer de terreno, não um terremoto.

A boa notícia é que não faz falta candidato antissistema, no estilo Huck. As urnas encontraram opções, à esquerda e à direita, dentro dos partidos. E opções adeptas da etiqueta democrática. Pelo menos em São Paulo, ganhe quem ganhar, o próximo prefeito será pessoa civilizada.

Saliente foi a abstenção relativamente baixa, considerando-se a pandemia. De máscara e álcool gel, a maioria dos brasileiros reiterou que seu partido é o voto. Se há vitória evidente é a da urna eletrônica. As instituições, que, nos últimos anos, sofreram trancos e escorregaram por barrancos, não se esborracharam. Temos uma democracia cheia de esparadrapos, mas democracia assim mesmo.

Angela AlonsoProfessora de sociologia da USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

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A Máquina do Mundo – Carlos Drummond de Andrade

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas.

(Trecho de A Máquina do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade).

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A derrota de Bolsonaro e uma esquerda ampliada – “A direita fascista afundou e a direita moderada avançou”, escreve o jornalista Rodrivo Vianna

Em São Paulo, Russomano (Rep) terminou humilhado. No Recife, delegada Patricia (Pode) e Mendocinha (DEM) usaram a imagem do presidente e se arrebentaram. Em Porto Alegre, ninguém se apresentou para carregar o caixão bolsonarista.

Por Rodrigo Viana

Fechadas as urnas, o balanço das eleições municipais aponta algumas tendências claras…

1 – O PT se recupera parcialmente do desastre de 2016. Disputará segundo turno em duas capitais (Recife e Vitória), além de ter avançado em cidades de médio porte Brasil afora (Santarém, Juiz de Fora, Contagem, Feira de Santana, Guarulhos, Diadema, São Gonçalo, Caxias do Sul).

A imprensa conservadora, pela enésima vez, cantou o fim do PT, que não veio. Parece até o samba de Nelson Sargento: “agoniza mas não morre, alguém sempre te socorre…” No entanto, no balanço numérico de prefeituras e  vereadores eleitos, o partido recuou mais um pouco.

:: Raio-x eleitoral: onde a esquerda cresceu, onde a direita liberal manteve hegemonia ::

Ainda assim, é ao PT e sua rede de militantes nas periferias que Boulos poderá recorrer no segundo turno, para equlibrar o jogo com a máquina do PSDB.

Importante anotar, para não brigar com sua excelência, o fato, que o PT colheu dura derrota na capital paulista. O balanço dos métodos que levaram ao resultado ruim de Jilmar Tatto será decisivo para o futuro do partido.

Feitas as contas, Boulos e Tatto, juntos, conseguiram quase a mesma quantidade de votos que o PSDB. A esquerda voltou a fazer a disputa de projetos na maior cidade brasileira, e isso se deve tanto à memória das administrações petistas (defendida por Tatto), quanto à atualização de linguagem política representada por Boulos.

PT e PSOL parecem ser complementares (e não concorrentes) para enfrentar a direita no Brasil. Pode sair das urnas uma esquerda ampliada, com rostos novos e outras siglas dividindo o tabuleiro com os petistas.

Manuela (PCdoB) em Porto Alegre, e Edmilson (PSOL) em Belém são exemplos de que é possível construir uma aliança de esquerda que inclua as conquistas e o patrimônio político do Partido dos Trabalhadores, mas que olhe para o futuro, incorporando novas demandas. Importante observar que Edmilson e Manuela têm petistas como vices. 

O caminho parece indicar o seguinte arranjo: “com o PT, mas para além do PT”, formula sugerida pelo governador Flávio Dino.

Lula segue a ser o jogador que dita o ritmo no meio de campo, ainda que não precise fazer todos os gols: tem gente mais nova para receber o lançamento lá na frente, tanto no PT (Haddad, Rui Costa, Marília Arraes), quanto em outras legendas de esquerda. 

2 – Ainda na esquerda, o PSOL mudou de patamar em 2016. Não só porque pode ganhar a primeira capital, em Belém, e porque criou o grande fato político desta eleição com Boulos em São Paulo. Mas pelo fato de que, em algumas cidades importantes, aceitou costurar alianças amplas.

O PSOL ficou mais maduro e deixou de ser coadjuvante menor. Mas não tem capilaridade nacional.

Importante ressaltar que o PSOL (e também PT e PCdoB) ajudaram a levar para as Câmaras Municipais uma turma nova de mulheres feministas, negras, militantes LGBT, jovens anti-racistas. Em São Paulo, fica clara uma diferença entre as bancadas eleitas do PT (com candidaturas de esquerda “tradicionais”) e o PSOL (com uma bancada que dialoga com novas demandas). 

::Acompanhe a cobertura das Eleições 2020 do Brasil de Fato::

Uma certa decepção vem do Rio, onde Marcelo Freixo parece ter errado feio ao evitar entrar na disputa. Deixou o caminho livre para a direita tradicional disputar o jogo com os destroços do bolsonarismo.

3 – O campo PDT-PSB sai mais fraco. Vai disputar pra valer no Recife e em Fortaleza, ou seja: não consegue ampliar horizontes para além dos tradicionais redutos dos dois partidos (Ceará cirista; e Pernambuco dos socialistas, desde Arraes).

Ciro perdeu força no jogo para 2022, apesar de ter a vice na chapa vitoriosa de ACM Neto em Salvador. O pedetista não tem espaço pra ser protagonista na centro direita. 

Importante notar que não só p PT perdeu prefeituras e vereadores. O mesmo ocorreu com PCdoB, Rede, PDT e PSB. Este último, aliás, foi o que mais perdeu.

4 – Os candidatos outsiders, de “fora da política”, que pegaram carona no bolsonarismo em 2018, minguaram agora. O desastre de Witzel no Rio, do bombeiro Moisés em Santa Catarina, e o oportunismo deslavado de personagens como Joyce, Kim et caterva reduziram o alcance dos cacarecos de extrema direita.

:: Com 17 candidatos no 2º turno, PT e PSOL ganham terreno nas 100 maiores cidades ::

5 – O bolsonarismo também perdeu força. Não conseguiu criar um partido próprio, apoiou candidatos em várias capitais que encolheram justamente ao levar a imagem de Bolsonaro para a TV.

Em São Paulo, Russomano (Rep) terminou humilhado. No Recife, delegada Patricia (Pode) e Mendocinha (DEM) usaram a imagem do presidente e se arrebentaram. Em Porto Alegre, ninguém se apresentou para carregar o caixão bolsonarista.

Mas o desastre poderia ser pior. Bolsonaro e sua tropa conseguiram empurrar o rejeitado Crivella ao segundo turno no Rio. Em Fortaleza e em Belém, candidatos vinculados a forças policiais vão disputar o segundo turno.

6 – A direita tradicional tentará cantar vitória, e tem bons trunfos para isso. O balanço numérico e político favorece a narrativa repetida à exaustão pela Globo News.

Mas atenção: o PSDB vai suar para manter São Paulo e, ao lado do MDB, viu cair substancialmente o números de vereadores eleitos Brasil afora. É cada vez mais um partido paulista, com conquistas menos importantes fora do território de Dória.

O DEM de Rodrigo Maia, registre-se, sai mais forte do que os tucanos. Em torno de Maia, Paes e ACM Neto, com auxílio da Globo, deve-se decidir o futuro da candidatura de Huck/Moro/Doria.

:: Vereadoras negras e trans estão entre as candidaturas mais votadas em 13 capitais :: 

Os grandes vencedores do dia 15 foram PP/DEM/PSD (a nova/velha ARENA da época da ditadura): todos explodiram em número de vereadores eleitos. É nesse cipoal de “delegados”, “capitães”, “sargentos”, “zés da farmácia” e pequenos líderes regionais que se ancora a força do conservadorismo.

Curiosamente (ou nem tanto) é esse conservadorismo que deve fornecer a base partidária para Huck se apresentar como o salvador em 2022, após o desastre bolsonariano na economia e na saúde.

Por fim, quem estuda a fundo eleição diz que pleito municipal não condiciona de forma absoluta a eleição presidencial seguinte. Mas aponta pistas. 

Esse é o resumo de 2020, goste-se ou não: a direita fascista afundou, a direita moderada avançou, e a esquerda ficou no mesmo lugar – com derrota nos números gerais, mas algumas vitórias políticas que apontam na direção de se construir unidade e um programa atualizado para os novos tempos.

Sem motivos para euforia nem depressão, a batalha está no meio.

Rodrigo Vianna é jornalista e mestre em História Social pela USP

Publicado originalmente no Brasil 247

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do

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Democracia sob ataque – As instituições precisam agir para coibir as ameaças aos atores e ao espaço cívico

Estão colocando pessoas em risco, extrapolando seu papel constitucional e minando a democracia por dentro. Estamos reagindo, mas precisamos de reforço.

O presidente do TSE, Ministro Luis Roberto Barroso, durante coletiva de imprensa para falar sobre o atraso na divulgação do resultado do 1º turno das eleições – Pedro Ladeira – 16.nov.2020/Folhapress

Por Ilona Szabó de Carvalho

As eleições municipais foram mais um alvo da guerra de desinformação orquestrada pela extrema direita para minar a democracia. E dessa vez a retórica falsa das redes foi reforçada por ações no mundo real.

Tribunal Superior Eleitoral sofreu ataques de hacker contra os seus servidores e teve vazados dados desatualizados de seus funcionários capturados em uma investida anterior, em outubro.

Como apontado pela organização de defesa dos direitos humanos na internet SaferNet, houve uma operação coordenada e planejada para o dia das eleições com o objetivo de desacreditar a Justiça Eleitoral.

Para completar, os ataques ocorreram em conjunto com um problema técnico real na apuração dos votos pelo tribunal.

Formou-se então a tempestade perfeita para a disseminação de teorias conspiratórias sobre a validade das eleições.

Rastrear as origens dos ataques e suas possíveis conexões com os propagadores de notícias falsassobre as eleições nas redes não é tarefa fácil.

Porém, mapear e expor as relações entre as estratégias retóricas de desinformação e intimidação e as ações executadas no mundo real se faz cada vez mais vital.

Os ataques às eleições ocorreram em um momento onde o nível de ameaças à atuação de atores do espaço cívico aumentou, e se materializa na perseguição de pessoas que fazem oposição ao governo por agentes do Estado e seus grupos organizados.

Representantes do aparato de segurança pública e Justiça criminal do Estado têm perpetrado de forma mais frequente ações que reforçam as estratégias de fechar o espaço cívico usadas por lideranças populistas-autoritárias do Executivo federal.

A mais comum é a intimidação deturpando instrumentos legais, com o intuito de calar, destruir a imagem e desestabilizar emocionalmente aqueles que se manifestam contra as propostas e 
ações da atual administração.

Os exemplos recentes são inúmeros, como o caso de Felipe Neto, que foi indiciado por um delegado por corrupção de menores, sob alegação de que divulgava material impróprio para menores de idade.

O processo em questão foi descrito por distintos juristas como uma aberração. Chama atenção também o episódio de um procurador federal que na semana passada anunciou que processaria a agência de checagem de fatos Aos Fatos, por fazer seu trabalho, e ainda publicou em suas redes uma espécie de incentivo para que outros fizessem o mesmo.

A tática sugerida pelo procurador tem resultado em orquestração de processos em juizados especiais de todo país por grupos de apoio ao presidente da República, como os evangélicos e os CAC (caçadores, atiradores e colecionadores de armas) contra jornalistas e formadores de opinião que manifestam posições contrárias.

Nesses casos, os alvos dos processos precisam responder a dezenas de ações em distintas cidades e estados do país.

Muitas vezes as audiências são marcadas para a mesma data, o que torna impossível o comparecimento, e traz custos financeiros e psicológicos de grande dimensão.

As instituições da República têm agido para coibir o mau uso das redes sociais e punir os que as manipulam e as usam como máquinas de ameaças. Precisam, no entanto agir com o mesmo senso de urgência para proteger os atores cívicos e o espaço em que atuam. 

Sem controle, e com incentivos e diretrizes erradas, membros isolados de aparatos de repressão do Estado têm usado instrumentos legais de forma ilegítima para fins de perseguição política.

Estão colocando pessoas em risco, extrapolando seu papel constitucional e minando a democracia por dentro. Estamos reagindo, mas precisamos de reforço.

Ilona Szabó de CarvalhoEmpreendedora cívica, mestre em estudos internacionais pela Universidade de Uppsala (Suécia). É autora de “Segurança Pública para Virar o Jogo”.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog.

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Vida e arte de Giuseppe Pellizza da Volpedo – o polêmico, porém talentoso pintor italiano.

Giuseppe Pellizza da Volpedo

Giuseppe Pellizza da Volpedo: um pintor italiano pontilhista e social-realista. Filho de agricultores, frequentou a escola técnica em Castelnuovo Scrivia, onde aprendeu os rudimentos do desenho. Estudou na Academia de Belas Artes de Brera, com Francesco Hayez e Giuseppe Bertini. Teve aulas particulares com o pintor Giuseppe Puricelli e mais tarde tornou-se um estudante de Pio Sanquirico. Expôs pela primeira vez em Brera em 1885. Após completar seus estudos em Milão, Pellizza decidiu prosseguir o estágio indo para Roma, à Accademia di San Luca e em seguida à Academia Francesa na Villa Medici.

Il sole o Il sole nascente

Frustrado, contudo, fugiu de Roma para Florença, onde frequentou a \’ Academia de Belas Artes tendo Giovanni Fattori como professor. No final do ano letivo de volta a Volpedo, dedica-se ao estudo e à pintura da natureza. Insatisfeito novamente, vai a Bergamo, à Accademia Carrara, onde teve aulas particulares de Heel Cesare.

família de Emigrantes

Em 1889 visitou Paris, por ocasião da Feira Mundial. Participou da Academia Lígure de Gênova. No final deste estágio, retornou à terra natal, onde se casou com Teresa Bin, em 1892. A partir desse ano, passou a assinar “Volpedo”. Em 1898, participou da Exposição Geral de Turim. Passa gradualmente ao pontilhismo, como fizeram Giovanni Segantini, Angelo Morbelli, Plinio Nomellini, Emilio Longoni e, em parte, Gaetano Previati.

Em 1891 expôs na Trienal de Milão, tornando-se conhecido do público em geral. Ele continuou a se apresentar pela Itália (Exposição Italo-Colombiana de Gênova em 1892, e novamente em Miçao em 1894) e voltou à Florença em 1893. Visitou em seguida Roma e Nápoles. Em 1900 expôs em Paris.

Em 1901 completou Il Quarto Stato, ao qual dedicou dez anos de estudo e empenho. O trabalho, exibido no ano seguinte na Quadrienal de Turim, não obteve o reconhecimento esperado, mas provocou polêmica e confusão entre muitos de seus amigos.

O Quarto Estado

Desapontado, ele acabou rompendo relações com muitos escritores e artistas da época. Após a morte de sua esposa, em 1907, entrou em depressão profunda e em 14 de junho, antes dos quarenta anos de idade, enforcou-se em seu ateliê em Volpedo.

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Reflexões iniciais sobre os resultados das eleições municipais 2020 – texto de Luís Felipe Miguel

Mas Bolsonaro obviamente não é um bom perdedor. O ataque cibernético ao TSE, articulado à campanha de fake news para deslegitimar os resultados, mostram a disposição para levar a tática trumpista às últimas consequências. Bolsonaro dá indícios de que deseja permanecer no poder na lei ou na marra.

Por Luis Felipe Miguel

(1) Bolsonaro foi o grande perdedor. Em muitas das maiores cidades, seus candidatos tiveram votação pífia. Mesmo onde foram melhor, em geral foi bem abaixo do esperado. Sofreu ainda pequenas humilhações – Carluxo perdeu um terço dos votos em relação a 2016 e a famosa funcionária fantasma Wal do Açaí, com apenas 266 votos, não conseguiu uma vaga na Câmara de Angra dos Reis.

(2) A situação é particularmente dramática para o bolsonarismo na cidade de São Paulo. Bolsonaro intui, corretamente, que precisa impedir que Dória surja como aglutinador natural daquela direita cheirosa que fica com ele quando a premência aperta, mas não o ama com sinceridade. A derrota de Bruno Covas na capital paulista é, portanto, estratégica para ele. Por outro lado, é claro que uma vitória de Boulos é um péssimo negócio para a direita como um todo, pelo impulso que pode dar à reativação da luta popular.

(3) Mas Bolsonaro obviamente não é um bom perdedor. O ataque cibernético ao TSE, articulado à campanha de fake news para deslegitimar os resultados, mostram a disposição para levar a tática trumpista às últimas consequências. Bolsonaro dá indícios de que deseja permanecer no poder na lei ou na marra.

(4) A direita tradicional foi a maior vencedora da eleição, mas sua situação não é inteiramente confortável. Afinal, a esquerda também retomou algum fôlego – e essa direita tradicional só consegue se emancipar do bolsonarismo se tiver certeza de que a esquerda está nas cordas.

(5) A mídia tenta vender, além do fortalecimento do “Centro” (sic), a ideia de que o PT foi o grande derrotado. Um exemplo é o texto publicado hoje por Igor Gielow, um daqueles colunistas da Folha, que diz que o PT “nesta eleição municipal virou linha auxiliar da sigla radical saída de sua costela em 2004”. Numa mesma jogada estigmatiza o PSOL como “radical”, em perfeito alinhamento com o discurso do PSDB, e joga o PT na irrelevância. Mas o PT parece ter recuperado espaço nos municípios médios e chega ao segundo turno com chances de vitória em cidades como Juiz de Fora, Contagem, Caxias do Sul, Pelotas, Diadema, São Gonçalo, Anápolis, Cariacica, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Santarém – além do Recife e de Vitória. Mesmo em São Paulo capital, Tatto teve um desempenho razoável, dadas as condições adversas, e o PT fez a maior bancada na Câmara de Vereadores (empatado com o PSDB).

(6) Tudo indica que o PT não recupera a hegemonia que um dia teve no campo da esquerda, mas que o PSOL tampouco o substitui. A esquerda brasileira será pluricêntrica. Isso não é ruim, mas exige maior capacidade de articulação e diálogo.

(7) O grande fato da eleição é a chegada de Boulos ao segundo turno, com grande distância em relação a França e Russomano e muito mais próximo de Bruno Covas do que as pesquisas previam. A campanha para o segundo turno é curta e o PSDB conta com muito mais recursos. Mas Boulos é um candidato muito melhor, com capacidade de potencializar a janela de exposição da qual desfrutará agora. E o resultado do primeiro turno anima a militância da esquerda. Em suma, é permitido sonhar com uma vitória na maior cidade do país.

(8) A situação é mais difícil em Porto Alegre e Belém, em que Manuela e Edmilson chegam ao segundo turno com adversários mais fortes do que o esperado. Pelo simples somatório dos votos dos candidatos derrotados de acordo com suas posições políticas, o favoritismo está com o “centrista” Sebastão Melo, em Porto Alegre, e com o fascistoide Eguchi, em Belém. Felizmente não é tão simples assim. Mas, se fosse para apostar, eu depositaria mais esperanças em Marília Arraes e em Guilherme Boulos, que chegam ao segundo turno com viés de alta.

(9) Aparentemente, houve um crescimento das bancadas de vereadores da esquerda pelo Brasil afora. É uma notícia que merece comemoração. Quem quer que tenha acompanhado a política brasileira nos municípios nesses últimos anos sabe que cada mandato de esquerda faz diferença – para derrotar retrocessos, para denunciá-los, para articular a resistência com os movimentos sociais.

(10) Não falei nada da eleição no Rio de Janeiro, minha cidade natal. A eleição lá foi uma comédia de erros. Que o Rio descanse em Paes.

Luis Felipe Miguel (Rio de Janeiro, 1967) é doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasilia (UnB), onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê). Entre os livros de sua autoria estão Mito e discurso político (Editora Unicamp, 2000), Política e mídia no Brasil: episódios da história recente (Plano, 2002), O nascimento da política moderna (Editora UnB, 2007), Caleidoscópio convexo: mulheres, política e mídia (com Flavia Biroli, Editora Unesp, 2011), Feminismo e política: uma introdução (com Flavia Biroli, Boitempo, 2014), Democracia e representação: territórios em disputa (Editora Unesp, 2014) e Consenso e conflito na democracia contemporânea (Editora Unesp, 2017).

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog.

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