“O Trocador de Sonhos” – crônica de Gabriel Chalita

“No alto da rua que ficava perto da rua da minha infância, já não sei mais quem mora. Sonhei, um dia desses, que moravam sementes escondidas que ainda não nasceram. Pedi, então, para trocar de sonho. E imaginei uma chuva delas amanhecendo amanhã um mundo melhor.”

O TROCADOR DE SONHOS

Por Gabriel Chalita

No alto da rua que ficava perto da rua da minha infância, morava um distribuidor de bondades. Não sei precisar a idade que tinha o tal José Alegria. Nem conseguiria desenhar, hoje em dia, um rosto tão pleno de vida.

Eu era menino e acreditava em sonhos.

José Alegria tinha a profissão peculiar de ajudar as pessoas. Histórias eram ditas sobre ele. Sorrisos brotavam nos que o encontravam pelo caminho. O que ele tinha de especial? Era ele um trocador de sonhos.

“Como assim?”, perguntei ao meu pai que, sereno, me devolveu.
“Filho, você nunca quis trocar um sonho?

Naquela noite, os meus sonhos eram tantos que teriam que fazer fila se quisessem ser sonhados. Eu tinha tanto futuro em mim, tanta vontade de iluminar o mundo. De ajudar os que, caídos ou perdidos, acenavam com as mãos.

Acordei pensando. O que sonha quem não tem um amor? O que sonha quem não tem o que comer? O que sonha quem está sofrendo uma injustiça? O que sonha quem está doente? E, quando a doença se vai, ele troca o sonho que tinha? E os sonhos impossíveis?

Quando meu pai morreu, a casa, vazia dele, ficou em silêncio. E, então, eu sonhei com ele menino. Sem doenças nem dores. Menino na horta, menino na escola. Menino querendo encontrar um amor. Foi quando eu tomei meu pai menino, em meu colo, e disse o que haveria de nascer. Quando, em meu sonho, falei de minha mãe, ele, menino, sorriu ressabiado.

Desinteressado do meu sonho lindo, o sol nasceu. E eu, que já não era mais menino nem encontrava com o José Alegria, chorei a saudade do meu pai. Meu pai menino em meu colo. Nos almoços grandes de domingo, era o contrário. Era em seu colo que eu crescia.

O enterro de José Alegria movimentou a pequena cidade. E agora? O que iria acontecer com os que, por ele, eram ajudados? E quem quisesse trocar de sonhos? Sonhei, muitas vezes, com ele. E, confesso que, tanto tempo depois, já não sei o que é sonho e o que é desânimo. Alguns dias, vivo um dilúvio de sentimentos ruins em meu peito e uma babel de confusas conclusões em minha mente.

O que houve com os sonhos? Ouço gritos. Ouço cinismos barulhentos. Ouço mentiras que se oferecem como chuva para uma terra seca. E os sonhos? É possível trocar os sonhos de quem não tem nenhum?

A doença vai rasgando a terra onde se esperava fruto e flor. Em meu sonho, a esperança nunca deixou de estar. Nem quando teve que ficar apertada, convivendo com as dores das despedidas e das desilusões.
Ontem, eu via o dia criança. Hoje, envelheço quando ouço os meus companheiros e me calo. Queria convidar cada um deles a visitar a casa das palavras e, em silêncio, compreender antes de escolher. E só depois oferecer uma a uma ao mundo.

O José Alegria cultivava o amor como quem conhece a vida. No dia em que ele se foi, aprendi que uma história só merece aplauso se for uma história de amor.

No alto da rua que ficava perto da rua da minha infância, já não sei mais quem mora. Sonhei, um dia desses, que moravam sementes escondidas que ainda não nasceram. Pedi, então, para trocar de sonho. E imaginei uma chuva delas amanhecendo amanhã um mundo melhor.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

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A VIDA E O AMANHÃ

Ontem, um pouco antes do adormecer, eu conversei com o meu futuro.

Pensava no meu amanhecer e no tempo que segue substituindo o meu presente…

Os fatos de ontem continuam vivos em minha memória

e eu, olhando as complexidades da vida, torcendo pela sorte, projetei nos meus sonhos as incertezas,
já que as certezas são confirmação do já feito.

Sigo no compasso do tempo moldando meus passos para ajustar a minha chegada.

Destino?

Sorte?

Futuro?

Será que vou conseguir confirmar em objetivos pragmáticos a sucessão de acontecimentos que cruzarão minha trajetória?

De uma coisa eu tenho certeza: no meu amanhã o antes não será tudo!

A vida é assim mesmo:
na “escuridão” do tempo projetamos nossos passos,
e no espaço que se coloca construímos o nosso viver.

Quanto ao meu destino, Nada temo. Sou responsável pelas minhas decisões!

Mimila K Rocha

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A morte e a política – O atual governo não flerta com a morte; ele a beija à força


“Estamos diante de uma verdadeira “regressão antropológica”, uma espécie de retorno a condição pré-política, em que os rituais que preparam a vida e anunciam a morte nos foram extirpados. É um governo em que só se pensa em armas…”

A Criação de Adão é um fresco de 280 cm x 570 cm, pintado por Michelangelo Buonarotti por volta de 1511, que fica no teto da Capela Sistina. A cena representa um episódio do Livro do Gênesis no qual Deus cria o primeiro homem: Adão.

Por Silvio Almeida

A morte é um tema tradicional da filosofia. Dos clássicos da Antiguidade, passando pelos medievais como Santo Agostinho, até contemporâneos como Schopenhauer, Arendt e Sartre, apenas para citar alguns exemplos, a morte sempre ocupou posição importante no pensamento filosófico.

Na verdade, diriam alguns, a filosofia só existe diante da perspectiva da morte. E faz sentido, se considerarmos que é a partir desta sombra implacável que nos lançamos na aventura do pensamento, que indagamos acerca de nossa singularidade diante do todo da natureza. A filosofia, com efeito, ao nos desafiar a refletir sobre a morte, a finitude e a incompletude, invariavelmente leva-nos a significar a vida e, com isso, estabelecer a condição humana.

A relação inextrincável entre os sentidos da vida e da morte é um dos pontos centrais da filosofia política. É na polis —que mais do que “cidade-estado” é o lugar da realização do humano— que se torna possível uma existência não resumida à mera reprodução biológica. Sob a política —que Aristóteles denominou de “ciência arquitetônica”— o ser humano revela-se na arte, na ética e na ciência. Na polis também surgem paixões e contradições, mas é onde também o amor se manifesta. A política é o modo de enfrentamento de nossa fragilidade diante da natureza e da inevitabilidade da morte.

A filosofia —destaco aqui a filosofia política— constitui-se como um processo de atribuição de significado para a vida e também para a morte. Há aqueles que consideram que apenas a vida de alguns importa. Já outros acreditam que toda vida tem valor. Desse modo, o valor que se dá à vida é medido pelo modo com que se trata politicamente a morte. Símbolos, gestos, funerais e luto, rituais, portanto, mais do que dignificar quem morre, sinalizam para os vivos que suas existências são importantes e que toda ausência será sentida pela comunidade. Ao mesmo tempo em que a morte nos coloca diante de nossa própria finitude e incompletude, o luto, o abraço nos que choram e a preservação da memória ancestral nos conectam e nos lembram que todos fazemos parte do exercício de tentar construir algo em comum, algo chamado humanidade.

A banalização da morte e o descaso com o sofrimento alheio que observamos por parte do presidente da República e seus apoiadores é mais do que “autoritarismo” ou “decadência civilizatória”.

Estamos diante de uma verdadeira “regressão antropológica”, uma espécie de retorno a condição pré-política, em que os rituais que preparam a vida e anunciam a morte nos foram extirpados. É um governo em que só se pensa em armas, que impõe restrições orçamentárias enquanto muitos passam fome e que nada faz para conter uma grave doença. Nas mais diversas tradições religiosas, a relação com a morte pode ser de temor, mas sempre de respeito. O governo brasileiro não respeita a morte, o que demonstra que é um governo sem filosofia, sem ciência e sem religião.

Bolsonaro nos retirou o direito de luto, nos deixou sem o direito de lidar com a morte como parte da vida. Sequer consegue aparentar tristeza ou calar-se diante da dor. Em muito esse homem contribuiu para que os brasileiros hoje tenham medo de viver, simplesmente porque também têm medo de morrer.

O governo que vier a suceder essa infâmia que toma conta de nosso país terá que, além de fazer todo o exato oposto, ressignificar a morte para que a vida possa ser valorizada. Um memorial terá que ser construído para todas as vítimas da Covid-19 e o país terá que viver seu luto.

Dedico esta coluna a todos os brasileiros que perderam alguém nessa pandemia. Que todas as pessoas que me leem agora sintam-se abraçadas e confortadas.

Silvio AlmeidaProfessor da Fundação Getulio Vargas e do Mackenzie e presidente do Instituto Luiz Gama.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa o que pensa o blog Traço de União.

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Sem piso, o País pode desabar

“Nesta lógica, é incabível ao congresso uma discussão sobre desvinculação dos investimentos em saúde e educação, sobretudo em tempos de pandemia sanitária, nos quais os gastos de saúde parecem evidentes e necessários e os haveres com educação, mesmo com a devida vinculação constitucional, foram os menores das últimas décadas.”

Por Bruno César de Caires e Vitor Marques

A pauta de discussão do Congresso neste início de ano legislativo gira, novamente, em torno da concessão do auxílio emergencial e seus impactos fiscais. De novidade, temos que, ao invés de uma séria e franca discussão sobre o teto de gastos, a equipe econômica do governo propôs como atalho e solução – a sempre inconstitucional – pauta sobre a desvinculação orçamentária dos gastos constitucionais em saúde e educação.

Nesta conjuntura, não é raro observar diversas imprecisões e confusões conceituais entre: teto e piso; gasto e investimento; constituição e política. Há tempos as ciências jurídicas compreendem a política como forma de eleição de prioridades, bem como dos meios necessários para o melhor governo, nos termos e razões instituídos pela constituição. Sempre é preciso reiterar que não há política fora do quadrante estabelecido pela ordem constitucional que deve atuar como norte e limite às decisões disponíveis dentro da arena pública.

Desta constatação, resta que o principal argumento dos defensores da desvinculação de que as regras atuais estariam limitando o poder de decisão dos gestores, impedindo qualquer redirecionamento de recursos públicos para outras áreas e ajustes de contas públicas, nada mais é que o simples reconhecimento do óbvio.

Sim, a constituição limita o poder de decisão dos gestores. Ela também “engessa” as futuras gerações às decisões daqueles que muitas vezes nem mesmo vivos estão, mas encontram-se vinculados ao pacto social vigente. Este contrato social estabelece as áreas em que a política poderá divergir daquelas que caracterizam o Estado e, portanto, devem ser preservadas na exata forma anuída, sob risco de deslegitimação da ordem constitucional.

Parece crível sustentar que apesar do imenso caminho que ainda precisamos percorrer para atingirmos uma prestação de serviços universais e de qualidade em saúde e educação, esta trilha começou a ser minimamente percorrida após a instalação da Nova República. Nesta perspectiva, a partir do momento em que o Estado cumpre com tarefas constitucionalmente impostas para realizar um direito social, seu respeito constitucional deixa de consistir apenas numa obrigação positiva, para passar a ser também uma obrigação negativa. O Estado, que estava obrigado a atuar para dar satisfação ao direito social, passa a estar obrigado a abster-se de atentar contra a realização dada aquele direito. Não cabe retrocesso quando o Estado cumpre, ainda que parcialmente, as promessas constitucionais.

Nesta lógica, é incabível ao congresso uma discussão sobre desvinculação dos investimentos em saúde e educação, sobretudo em tempos de pandemia sanitária, nos quais os gastos de saúde parecem evidentes e necessários e os haveres com educação, mesmo com a devida vinculação constitucional, foram os menores das últimas décadas.

Enquanto a promessa de modernidade insculpida por meio dos objetivos fundamentais da república no art. 3o do texto constitucional (construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação), não for integralmente cumprida, o Estado encontra-se vinculado pela Constituição a garantir prestações de direitos sociais e promover o bem estar social.

A política entra, justamente, para ponderar esta complexa equação, exceto, nos casos em que houve a preocupação de estabelecer limites mínimos de investimento, como saúde e educação. Nestes casos, o piso foi desenhado pela ordem jurídica, sendo absolutamente inconstitucional baixar ainda mais estes patamares. Portanto, para manter o teto, o governo pretende cavar abaixo do piso, não se importando com o alicerce constitucional que deveria manter a mínima dignidade ao país.

Artigo publicado originalmente em O Estado de S. Paulo.

Bruno César de Caires é sócio do escritório Caires, Marques e Mazzaro Advogados, mestrando em Direito Constitucional na Universidade de Lisboa e professor assistente de Direito Constitucional na PUC de São Paulo.

Vitor Marques é advogado, mestrando em Filosofia do Direito e professor assistente em Direito Administrativo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Foi Chefe de Gabinete da Secretaria do Governo Municipal de São Paulo (2016). Veja todos os posts de Vitor Marques.

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Refloresta – o ato de trazer de volta à vida aquilo que parecia morto (inclusive o rio Doce)

“Nossa técnica para recuperar água, simples e barata, consiste em reflorestar nascentes, instalar sistemas de tratamento de águas usadas e criar pequenas retenções de águas pluviais para carregar as reservas hídricas do lençol freático.”

Por Juliano Ribeiro Salgado

Dizem que desmatar cria riqueza. Uma riqueza que justificaria os escândalos provocados pelos desmates e queimadas que chocam o mundo todos os anos.

A crença no progresso trazido pelo desmate é um motor importante das nossas politicas públicas e agrícolas desde que se pensa a ocupação da Amazônia. Mas de que realmente estamos falando?

Será que uma terra queimada convertida em propriedade privada realmente traz riqueza para a comunidade onde o desmate acontece, ou para a sociedade brasileira como um todo?

Longe da Amazônia e de suas controvérsias, o Instituto Terra, situado na divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo, no lugar exato onde o rio Doce cruza a fronteira entre os dois estados, segue seu caminho há pouco de mais de 20 anos.

Meus pais, Lélia e Sebastião Salgado, fundadores do Instituto Terra, aprenderam ao longo dos anos como se replanta uma floresta de 2 milhões de árvores. Assistindo à recuperação da natureza e ao desenvolvimento das técnicas que resultaram no Instituto Terra, eu me juntei à luta para contribuir ao que me parecia ser uma ideia maior para a comunidade.

Em Minas, na região do rio Doce, palco de uma das maiores tragédias ambientais dos tempos modernos, não tem água. Durante o período da estiagem, pequenas cidades dependem de caminhões-cisternas para sobreviver. Propriedades secam. O mundo para. Não foi por acaso que começamos a recuperar as nascentes. Essa era uma tentativa de amenizar as consequências do clima, que está cada vez mais seco.

Nossa técnica para recuperar água, simples e barata, consiste em reflorestar nascentes, instalar sistemas de tratamento de águas usadas e criar pequenas retenções de águas pluviais para carregar as reservas hídricas do lençol freático.

Dez anos separam a primeira das 2.000 nascentes recuperadas. A constatação é radiante. Onde interviemos, a água voltou e a produtividade de pequenas propriedades aumentou substancialmente.
Onde um casal mal sobrevivia em cima de dez hectares, hoje vivem e trabalham pais, filhos e avôs. Em meio a árvores e à água, uma pequena terra consegue dar sustento a três gerações.

Hoje concentramos nossos esforços para recuperar as nascentes que abastecem córregos, que por sua vez desembocam em riachos, afluentes do moribundo rio Doce. A ideia de um dia trazer o lamacento rio envenenado de volta à vida é possível.

O fato é que nosso esforço para recuperar propriedades agrícolas transcende o mundo da agricultura e permeia a sociedade como um todo.

Quando concentramos nossa ação em propriedade rurais, em volta de um córrego que deixa de secar durante a estiagem e passa a abastecer uma pequena cidade o ano todo, podemos afirmar que estamos criando uma riqueza que irriga toda a população da região. O aumento da renda das famílias, que vivem nas propriedades onde a água voltou, participa diretamente do aquecimento da economia local.

A riqueza criada pelo reflorestamento das nascentes chega em regiões com déficit de todo tipo de capital. Quando este novo capital aparece, ele penetra em muitos níveis da sociedade, e seus benefícios vão muito além do mundo rural.

Reflorestamos pequenas porções que, somadas, viram um rio inteiro. Por isso decidimos fazer da “refloresta” o símbolo da ação do Instituto Terra.

Reflorestar é o ato de trazer de volta à vida aquilo que parecia morto. Esse conceito converge perfeitamente na ação do instituto que refloresta a terra plantando árvores em campos degradados, que refloresta a água recuperando suas nascentes, que refloresta a educação transmitindo técnicas e conceitos para que seja desenvolvida uma agricultura sustentável e mais produtiva, que refloresta a existência das pessoas aumentando a renda e melhorando a qualidade de vida de todos.

Por meio do conceito “refloresta”, o Instituto Terra propõe uma alternativa sustentável ao modelo destrutivo em vigência.

Juliano Ribeiro SalgadoCineasta indicado ao Oscar com o documentário ‘O Sal da Terra’, é vice-presidente do Instituto Terra, onde atua na luta pela recuperação do meio ambiente.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

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Análise de “O lavrador de café”, de Candido Portinari

Candido Portinari

Por Laura Aidar Arte-educadora e artista visual

Vida e obra de Candido Portinari

O lavrador de café, de Candido Portinari, é uma das telas mais representativas do artista, isso porque é considerada um retrato do trabalhador brasileiro, sobretudo o do meio rural.

O tema do cafezal é recorrente na trajetória artística de Portinari, pois ele tinha a preocupação em exibir a realidade brasileira, dando enfoque ao povo e suas mazelas. Além disso, o artista cresceu em uma fazenda de café, onde seus pais, imigrantes italianos, trabalhavam.

Assim, Portinari produz em 1934 a imagem impactante de um homem negro segurando uma enxada em frente a uma lavoura cafeeira.

A pintura, um óleo sobre tela, tem dimensões de 100 x 81 x 2,5 cm e pode ser visto no MASP (Museu de Arte de São Paulo)

Análise detalhada da obra

São muitos os detalhes nessa cena que trazem reflexões valiosas sobre o momento histórico que o Brasil atravessava e a maneira como o pintor enxergava a realidade do país.

O lavrador de café (1934), é um óleo sobre tela com dimensões de 100 x 81 x 2,5 cm e pode ser visto no MASP (Museu de Arte de São Paulo)
O lavrador de café (1934), de Candido Portinari

Podemos considerar a figura retratada como um símbolo do homem do campo que trabalha em uma terra que não é sua, vendendo sua força de trabalho para o dono do latifúndio, no caso um fazendeiro e empresário do café.

É possível compreender o caráter social do trabalho de Portinari analisando as imagens por ele produzidas. Além disso, o fato do artista ter sido um homem bastante comprometido com a luta por igualdade, sendo inclusive membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e candidatando-se a deputado e senador na década de 40, é outro forte indicador de seus propósitos.

No contexto em que a tela foi pintada, o Brasil produzia café em larga escala para exportação, e, apesar da crise 1929 ter impactado o mercado brasileiro, a produção ainda era bastante lucrativa para os barões do café.

Entretanto, as pessoas que plantavam e colhiam os grãos viviam em condições precárias. O artista revela a intenção de denúncia e de valorização da figura humana por meio de alguns elementos destacados na imagem a seguir.

obra o lavrador de café, de Portinari, exibe homem em frente a lavoura de café e destaques em alguns detalhes da tela

1. Os pés e as mãos desproporcionais

Candido Portinari exibe um homem forte que toma quase toda a composição da tela. Os pés e mãos do sujeito são retratados de maneira exageradamente grande.

Tal recurso é normalmente associado a influências expressionistas e nos transmite a ideia de que os pés e as mãos são fortes e responsáveis pelo trabalho braçal.

O homem não veste sapatos e esse é outro indício da precariedade da situação a que os empregados estavam sujeitos.

2. A árvore decepada

Ao lado direito do homem há um tronco cortado. O elemento em um primeiro momento pode passar despercebido, entretanto, não foi colocado na cena apenas como parte da composição.

A interpretação dada é que a árvore cortada aparece como um símbolo do desmatamento, que já dava sinais preocupantes no país. Dessa forma, evidencia-se a contradição entre a abundância de uma plantação com milhares de árvores e a crescente destruição de matas nativas.

3. O trem de ferro e a plantação

Portinari inclui no quadro um trem de ferro com quatro vagões que corta a paisagem em diagonal, soltando fumaça pela chaminé.

O trem era o meio de transporte mais utilizado no país e por onde era feito o escoamento da produção cafeeira. Na década de 30, período em que o quadro foi pintado, começa a haver um processo de mudança na malha ferroviária, que nos anos 40 sofre um declínio.

4. A expressão do homem

O sujeito apresenta um rosto com feição preocupada e triste. Podemos dizer que há contrariedade em seu olhar. O semblante parece revelar a frustração e o cansaço decorrentes do trabalho, além de indicar que o trabalhador não estava alienado sobre as injustiças e desigualdade que estava sujeito.

A luz que incide na cena vem do canto esquerdo, para onde o homem está virado de perfil. Esse recurso possibilita a iluminação de sua face, que exibe lábios grossos e nariz largo.

5. O céu cheio de nuvens

O céu pintado por Portinari é o de um dia comum, com volumosas nuvens que agitam-se no azul.

Cerca de um terço da composição é formada pelo céu e Portinari tinha a intenção de valorizar o ser humano. Assim, o contraste entre o homem de pele escura e o céu com nuvens brancas facilita a observação do rosto do sujeito.

6. A enxada

O retrato do homem é feito no local em que ele trabalha e passa a maior parte de seu tempo. O sujeito posa para a cena segurando o cabo da enxada, que é o seu instrumento de trabalho. Entretanto, aqui ela funciona como um apoio para o descanso.

A enxada é mostrada quase como uma extensão dos braços do trabalhador, exibindo também traços vigorosos. Além disso, podemos notar a sombra projetada que evidencia a incidência da luz vindo da esquerda para a direita, também mostrada na camiseta do homem.

O sujeito por trás do lavrador

O homem que deu origem a figura do quadro O lavrador de café realmente existiu e posou para Candido Portinari em outros trabalhos também. Seu nome era Nilton Rodrigues.

Confira o trecho de uma reportagem feita para o Globo Repórter em 1980 em que Nilton é entrevistado. Apesar da qualidade precária do vídeo, é possível ver a semelhança entre o lavrador pintado no quadro e o homem.

Quem foi Candido Portinari e qual a sua importância?

Nascido no interior de São Paulo, na cidade de Brodowski em 1903, Candido Torquato Portinari encontrou na arte uma maneira de expressar suas ideias e conceitos sobre o Brasil, tornando-se uma figura essencial para a arte brasileira, sobretudo dentro do movimento modernista.

Na primeira fase de sua carreira, principalmente, o artista comprometeu-se em retratar os tipos de brasileiros, dando ênfase ao povo simples e procurando criar uma arte nacional, ainda que inspirada nas vanguardas europeias.

Junto com outros artistas do período, ajudou a construir um retrato moderno do país, levando em consideração as particularidades de um povo miscigenado e diverso. Assim, O lavrador de café é uma dessas obras em que tais intenções se revelam com clareza.

Há ainda uma fase dramática do artista, exposta em obras como Retirantes (1944)e Criança Morta (1944). Mas seu trabalho também exibe uma faceta lírica e nostálgica, com pinturas que retratam a simplicidade e doçura da infância, como exemplo nas telas Futebol (1935) e Meninos no balanço (1960).

Portinari foi um dos artistas de maior reconhecimento nacional e internacional, realizando exposições pelo mundo e recebendo prêmios e menções honrosas nos EUA, França e Polônia.

Na década de 50 é convidado a realizar dois grandes painéis para integrar a sede da ONU, em Nova York, o trabalho é intitulado Guerra e Paz (1953-1956) e foi considerado pelo artista sua obra-prima.

Em 1962, Portinari falece aos 58 anos, vítima de problemas de saúde ocasionados por intoxicação de chumbo presente nas tintas que utilizava para trabalhar.

Laura Aidararte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2007 e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design, localizada em São Paulo, em 2010.

Publicado originalmente no Cultura Genial. Acesse: https://www.culturagenial.com/ – compartilhe

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A Morte como Ideologia Política – um enfoque que achei importante compartilhar

“O Negacionismo infantil quase ingênuo das teorias da conspiração (algumas maravilhosas), aqueles manifestos de que há forças invisíveis, extraterrestres, máfias, sociedades secretas, poder paralelo, ou acordos super secreto de domínio da vida e que a “liberdade” está em risco permanente, sempre esteve presente e faz parte da paisagem e do folclore humano”

A Morte é fim último.

Por Arnobio Rocha

É fato que a Morte é parte da existência de todos os seres, o seu termo final, que é a certeza de quem vive, entretanto, quando uma grande tragédia abala o mundo como nessa Pandemia, a Morte passa a ser algo mais doloroso, como se fosse um evento não natural, uma ruptura radical do curso normal de cada vida, a interrupção de um ciclo por algo externo, incontrolável e mais incerto sobre quem pode morrer.

impermanência nos liga aos limites da vida, que mostra que nosso tempo é finito, ainda que já se soubesse, parece que ele se tornou mais evidente, especialmente quando as vidas estão sendo ceifadas por um doença coletiva imprevisível e sem uma cura definitiva de curto prazo, mesmo com vacinas sem certeza de sucesso, apesar de todos os bilhões gastos em pesquisas, mas a demora de vacinação, causa mais sofrimentos.

Ao mesmo tempo vive-se os extremos desse tempo louco, representado pelo Negacionismo, transformado em Ideologia cruel, que alguns identificam como NercroPolítica.

O Negacionismo infantil quase ingênuo das teorias da conspiração (algumas maravilhosas), aqueles manifestos de que há forças invisíveis, extraterrestres, máfias, sociedades secretas, poder paralelo, ou acordos super secreto de domínio da vida e que a “liberdade” está em risco permanente, sempre esteve presente e faz parte da paisagem e do folclore humano

O que não é o caso atual, há uma onda de estupidez, uma tsunami, que tomou conta do mundo de forma ampla e irrestrita, não é um mero acaso, ou um coincidência de astros (by astrólogos), ela se transformou em força política, saiu dos becos, das mesas de bares, ganhou dimensão planetária.

O atoleiro do Negacionismo que poderia começar numa brincadeira de bar, depois de internet, viraliza, vira força social, um discurso fácil, simples, de assimilação imediata, depois se transforma numa  hecatombe de proporções incalculáveis, ninguém consegue mensurar o atraso ao Brasil, por exemplo, tomado por esses anos de loucuras, de Temer, de Bolsonaro.

O país se afoga numa tragédia constante desde pelo menos 2013, ao invés de buscar ar, mergulha-se mais fundo, com Bolsonaro, eleito em 2018, parecia que era o fundo do poço, entretanto, descobre-se que há ainda o “volume morto”, aquele com água podre para chafurdar.

Todos os dias desse funesto governo foram usados para desmoralizar as instituições, a Democracia, os direitos sociais, trabalhistas e humanos. O “trabalho” de Bolsonaro e de sua família com sua trupe de mambembes ministros, foi destruir o Brasil, arrebentar com o Estado, com as riquezas, com o meio ambiente, com a economia, com o comércio exterior e a dissipação das divisas internacionais

O desprezo por 253 mil mortos, em 11 mesee, desde a primeira morte, demonstra o caráter cruel e bárbaro dessa corrente de pensamento, o Ultraliberalismo, que fez de  Bolsonaro um dos seus líderes, o que prova de forma inconteste o nenhum compromisso com a humanidade, com a vida. Riem, debocham, nenhum gesto de cautela, respeito e comiseração pelo milhares de mortos, para eles ainda é pouco.

O mundo ultraliberal celebra a Morte, menos idosos, menos peso para previdência, menos gastos com saúde, desse contingente improdutivo, é esse o cálculo mortal de Guedes e dos seus colegas do “Mercado”. Celebra, a Morte das Instituições, pois é lucrativo destruir, matar um país e viver a riqueza em qualquer outro.

É um tempo cruel demais.

Arnobio Rocha

Arnobio Rocha é advogado especializado em Contencioso Civil, Direito Regulatório e consultor em telecomunicações e tecnologias. Veja todos os posts de Arnobio Rocha.

Publicado originalmente no blog de Arnóbio Rocha.Compartilhe

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POEMA DA MISSÃO – Dom Helder Câmara

POEMA DA MISSÃO – Dom Helder Câmara

Missão é partir, caminhar, deixar tudo,
sair de si, quebrar a crosta do egoísmo
que nos fecha no nosso Eu.

É parar de dar volta ao redor de nós mesmos
como se fôssemos o centro do mundo e da vida.

É não se deixar bloquear nos problemas
do pequeno mundo a que pertencemos:
a humanidade é maior.

Missão é sempre partir, mas não devorar quilômetros
É, sobretudo, abrir-se aos outros como irmãos,
descobri-los e encontrá-los.

E, se para encontrá-los e amá-los
é preciso atravessar os mares e voar lá nos céus,
então Missão é partir até os confins do mundo.

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Jessier Quirino – um talentoso poeta nordestino

Jessier Quirino

Jessier Quirino (1954) é um poeta, compositor e interprete brasileiro, que faz uso de um linguajar nordestino utilizado como um recurso cômico além de expressar a rica cultura popular existente no sertão nordestino.

Jessier Quirino (1954) Nasceu em Campina Grande no estado da Paraíba, no dia 30 de abril de 1954. Foi aluno do Instituto Domingos Sávio e do Colégio Pio XI. Com 11 anos ingressou na Escola de Artes. Após concluir o ensino secundário mudou-se para a cidade do Recife, onde estudou no Colégio Esuda. Com 16 anos aprendeu sozinho a tocar violão.

De volta ao seu estado, ingressou na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Paraíba, onde se graduou em 1982. Em 1983 fixou residência na cidade de Itabaiana. Durante vários anos exerceu sua profissão de arquiteto. Começou a compor, segundo ele, sob a influência da poesia matuta de Zé da Luz e de Zé Laurentino, do cantar dos repentistas e da convivência com os sertanejos do interior da Paraíba.

Em 1998 lançou seu primeiro livro de poesias “Paisagem do Interior” e desde então virou artista de palco, fazendo apresentações em teatros, universidades, clubes, grandes convenções, festivais de repentistas etc. Seu trabalho com a rima e a métrica tem sido estudado nas salas de aula. Por duas vezes sua obra foi tema do vestibular da Universidade Católica de Pernambuco. Seus livros infantis: “Chapéu Mau e Lobinho Vermelho” e “Miudinha” foram adotados no programa Educação de Jovens e Adultos do MEC, para o Estado de Pernambuco.

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Estadistas e políticos de fibra não temem críticas de jornalistas. Só os medíocres e inseguros

Só as figuras políticas inseguras e medíocres, sem personalidade, permitem-se atacar e até insultar e ameaçar os jornais e os jornalistas.”

Por Juan Arias

Meus longos anos como jornalista me ensinaram que os verdadeiros estadistas e os políticos seguros de si não temem as críticas nem as perguntas mais ásperas dos jornalistas. Só os medíocres e inseguros. Os presidentes dos países importantes e das democracias sólidas sabem que as críticas dos veículos de comunicação fazem parte do jogo democrático.

Hoje, aqueles que dirigem as grandes democracias jamais se permitirão deixar de responder, em uma entrevista pessoal ou coletiva, a uma pergunta de um jornalista, por mais dura que seja, ou abandonar a entrevista. E muito menos insultar ou ameaçar o jornalista. Só o ex-presidente americano Donald Trump fazia isso, e por isso era considerado como um desequilibrado mental e acabou perdendo as eleições.

Aos jovens jornalistas brasileiros e aos estudantes de jornalismo que às vezes me perguntam sobre minhas experiências jornalísticas ao redor do mundo, dedico esta coluna para contar dois episódios emblemáticos de quando fui correspondente na Itália e no pequeno e poderoso Estado do Vaticano.

Os políticos italianos que eu criticava em meus artigos, em vez de se queixar ao meu jornal, enviavam-me um motorista com um cartão manuscrito me agradecendo. Em meus 18 anos de correspondente, jamais um político importante reclamou comigo sobre as críticas que eu lhe fazia.

Quando o ministro de Relações Exteriores da Itália era Giulio Andreotti, um dos políticos mais influentes do país, sete vezes primeiro-ministro, uma figura emblemática, a Espanha estava para entrar na então Comunidade Europeia. Para isso, era fundamental o voto da Itália. Certa manhã, o embaixador espanhol na Itália me ligou para dizer que tinha recebido uma queixa da embaixada italiana em Madri por meus artigos duros sobre a máfia siciliana. Disse que um funcionário da embaixada tinha feito um dossiê de seis meses de meus artigos e que estavam muito irritados. E acrescentou com clássico sabor mafioso: “É importante que saibam que a Espanha quer entrar na Comunidade e que precisa do voto da Itália”.

Avisado, o então diretor do EL PAÍS, Juan Luis Cebrián, que tinha sido também o idealizador do jornal, pediu ao embaixador espanhol em Roma o nome e sobrenome do funcionário da embaixada italiana em Madri que se permitiu fazer um dossiê mafioso sobre um de seus correspondentes.

Dois dias depois, recebi um telefonema do secretário de Andreotti me informando que no dia seguinte, às nove da manhã, o ministro me daria a entrevista que eu havia solicitado. Na verdade, eu nunca tinha pedido aquela entrevista e entendi que era uma forma elegante e diplomática de o ministro me chamar para falar comigo. Andreotti, como ministro de Relações Exteriores, era fundamental para apoiar a entrada da Espanha na Comunidade.

Cheguei para a entrevista certo de que se tratava de falar sobre as críticas da embaixada italiana em Madri a respeito de meus artigos. Pelo contrário, ele me recebeu todo cordial e antes que eu lhe fizesse qualquer pergunta, foi ele que me fez uma, desconcertante: “Você sabe onde o Papa [que era então o polonês João Paulo II] escreve seus discursos?”. Respondi que imaginava que era em seu escritório.

Ele respondeu que não, que os escrevia de joelhos em uma mesinha de sua capela particular onde celebrava missa. Intrigado, perguntei como ele sabia. Respondeu que o Papa o convidava muitas vezes a assistir à sua missa. “Não me importo que seja muito cedo, porque sou madrugador. O pior é quando me convida para jantar, porque costuma acabar muito tarde. Prefiro quando o Papa me convida para passear durante o dia com ele nos jardins do Vaticano.”

Eu o escutava atônito, porque estava me dando uma notícia totalmente desconhecida para a imprensa e que, se publicada, seria destaque mundial, já que revelava uma intimidade incomum com o papa Wojtyla, ainda mais se tratando de um político polêmico pelas acusações de fazer parte da máfia.

Em seguida, olhando para a parede, mostrou-me um quadro e me perguntou se conhecia o autor. Eu disse que não, e ele me respondeu: “É do pintor que em Manila, na viagem de Paulo VI às Filipinas, atentou contra o Papa com um objeto contundente na chegada ao aeroporto, ferindo-o no abdome”. Não foi um ferimento grave, mas causou uma comoção mundial.

Depois, soube-se que se tratava de um pintor excêntrico que, naquela ocasião, tinha uma exposição de seus quadros no hotel em que se hospedaria toda a comitiva papal e queria se tornar conhecido mundialmente. Lembro muito bem porque eu acompanhava o Papa no avião com um grupo de correspondentes de todo o mundo e fui testemunha do pseudoatentado.

O que não se entendia era como aquele quadro do homem que atacara o Papa tinha acabado no gabinete do ministro Andreotti. Será que o Papa tinha lhe dado o quadro de presente? Enquanto isso, nenhuma palavra sobre as críticas às minhas crônicas. O político importante do qual se chegou a dizer que era filho de Pio XII porque, ainda jovem, ganhou um cargo importante no Vaticano, concluiu nosso encontro com um último gesto emblemático. Antes de entrar na política, Andreotti foi jornalista. Tinha em sua mesa tinha um exemplar de um de seus livros, que me deu, e com isso se despediu após ter me dado uma notícia exclusiva. Quando saí, abri o livro e estava escrito: “Ao meu colega jornalista Juan Arias, com o afeto de Andreotti”.

Enviei o artigo sobre aquele encontro ao diretor do jornal, que, incrédulo, publicou-o imediatamente. Quando o embaixador da Itália em Madri abriu o EL PAÍS de manhã, ficou atônito. Entendeu muito bem que era uma mensagem cifrada para ele, para que não tentasse criticar novamente meus artigos. E a Espanha entrou na Comunidade Europeia com o voto da Itália. Assim são os verdadeiros estadistas.

Até os Papas e o Vaticano sempre respeitaram os jornalistas e aceitaram suas críticas sem fazer ameaças nem insultos. Fui testemunha disso quando o diretor do EL PAÍS em seus primeiros anos sofreu duros ataques da Igreja espanhola da época, que ainda era franquista, porque o novo jornal defendia o direito ao aborto, os direitos humanos, a liberdade de imprensa e o direito às diferenças. Era um jornal liberal, como os novos que estavam nascendo dos escombros da ditadura.

Um dia, o diretor me chamou a Roma e me pediu algo muito difícil: queria ter uma entrevista pessoal com o então substituto da Secretaria de Estado do Vaticano, o espanhol Martínez Somalo. Era a terceira autoridade do Vaticano, uma espécie de ministro do Interior, e despachava várias vezes ao dia com o Papa. Sem saber como fazer, recorri ao embaixador da Espanha na Santa Sé, que era agnóstico, e perguntei se por acaso ele poderia tentar, mas eu achava impossível porque o substituto do Vaticano nunca havia recebido nenhum diretor de jornal e, além disso, Cebrián tinha acabado de se divorciar.

Poucos dias depois, quando eu estava em um hotel de Florença fazendo uma reportagem, o telefone do quarto tocou: era o próprio substituto do Vaticano, que me conhecia das viagens com o Papa. “Juan, você me pede algo muito difícil, mas vou receber seu diretor”, disse ele. “Diga-lhe que venha em primeiro de maio, quando o Papa estará muito ocupado e terei mais tempo para ele.” E impôs como condição que eu acompanhasse o diretor.

Cebrián chegou a Roma na noite anterior e, às nove da manhã, atravessamos os portões do Vaticano e nos dirigimos, depois de entregar vários documentos, ao pequeno escritório do monsenhor Somalo, ao lado do gabinete do Papa.

Cebrián lhe explicou durante uma hora as dificuldades do EL PAÍS e dos novos jornais que estavam surgindo depois da morte do ditador Franco devido à sua posição de veículos abertos à defesa das liberdades que haviam sido pisoteadas durante a ditadura. Somalo lhe perguntou se quem atacava os jornais eram os militares. “Não, monsenhor, quem nos atrapalha é a Igreja, que sempre esteve do lado da ditadura e de Franco.”

Surpreso, Somalo lhe disse: “Aqui no Vaticano respeitamos a liberdade total de expressão e a imprensa livre”. E, referindo-se a mim, explicou por que quis que eu o acompanhasse ao encontro. “Seu correspondente aqui é testemunha de que nunca recebeu do Vaticano um telefonema de protesto por seus artigos”, afirmou. “E não me dirá, diretor, que não escreveu coisas muito duras sobre nós.” Eu tinha escrito sobre as dúvidas que existiam de que João Paulo I, que morreu misteriosamente 33 dias depois de sua eleição, pudesse ter sido assassinado. Eu lhe respondi que era verdade que o Vaticano nunca tinha se queixado de meus artigos e sempre me deu um lugar no avião do Papa para acompanhá-lo em suas viagens pelo mundo. E, entre brincadeira e a sério, acrescentei: “Mas também é verdade, e vocês sabem disso, que sei de coisas que nunca publiquei nem publicarei”. Rindo, o monsenhor Somalo disse a Cebrián em tom carinhoso: “Como seu correspondente é mau!”. Cebrián voltou para Madri e a verdade é que a Igreja deixou o jornal em paz.

Só as figuras políticas inseguras e medíocres, sem personalidade, permitem-se atacar e até insultar e ameaçar os jornais e os jornalistas.

Juan Arias é jornalista e escritor, com obras traduzidas em mais de 15 idiomas. É autor de livros como ‘Madalena’, ‘Jesus esse Grande Desconhecido’, ‘José Saramago: o Amor Possível’, entre muitos outros. Trabalha no EL PAÍS desde 1976. Foi correspondente deste jornal no Vaticano e na Itália por quase duas décadas e, desde 1999, vive e escreve no Brasil. É colunista do EL PAÍS no Brasil desde 2013, quando a edição brasileira foi lançada, onde escreve semanalmente.

Publicado originalmente no portal El País. Acesse: https://brasil.elpais.com

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa o que pensa o blog Traço de União.

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Não faz sentido atrelar auxílio emergencial à discussão de medidas fiscais compensatórias

“É possível desvincular gasto da receita sem eliminar piso de gasto. Também é possível ter piso de gasto que evite redução da cobertura da educação e da saúde pública, atrelando o crescimento real do gasto a metas de melhoria do atendimento à população.”

QUEM TEM FOME TEM PRESSA

Por Nelson Barbosa

A concessão de novo auxílio emergencial, tida como desnecessária por nossa equipe de ideologia econômica há apenas dois meses, se tornou a nova prioridade de política econômica.

Mais uma vez o Congresso corre para forçar o governo a transferir renda aos mais pobres. Mais uma vez alguns políticos e economistas exigem o fim dos pisos de gasto com saúde e educação como contrapartida. Acabar com o piso de gasto social é um erro por dois motivos.

Primeiro, o auxílio emergencial é, adivinhe: emergencial! Não faz sentido condicionar a ajuda imprescindível à população em risco de cair na miséria à aprovação de medidas compensatórias.

Sou favorável a medidas compensatórias, principalmente de aumento da tributação sobre os mais ricos, mas agora a prioridade é (mais uma vez) atender rapidamente a quem precisa renda para não morrer de fome.

Dado que a discussão de medidas compensatórias atrasará o processo legislativo, é melhor deixar isso para depois. A falha neste caso foi do governo e do comando anterior do Congresso, que simplesmente se negaram a debater o tema com calma no final do ano passado.

Segundo, quando chegar o momento de discutir compensação pelo aumento do gasto, não devemos eliminar nem integrar os pisos da saúde e da educação.

O SUS já precisava de recursos adicionais antes da pandemia. Agora precisará de mais ainda. Na educação, o gasto real por estudante já vem caindo desde 2015 e, portanto, não devemos cortar mais o orçamento do ensino público.

Os gastos com educação e saúde públicas precisam ter pisos de gasto, diferenciados, do contrário os programas tendem a se canibalizar e serem corroídos por demandas políticas de curto prazo.

Porém, ter piso de gasto não implica ter receita vinculada, isto é, despesa atrelada a um percentual fixo da arrecadação de impostos ou do PIB.

Quando chegar o momento adequado, o ideal é modificar os pisos da saúde e educação, garantindo aumento gasto real por habitante (na saúde) e por aluno (na educação).

Até qual valor? Até o patamar de gasto compatível com os serviços que população deseja do Estado e os tributos que a população está disposta a pagar por estes serviços.

No caso de hoje, mantenho a sugestão que fiz em 2014: devemos manter o piso de gasto social, mas corrigindo o valor pela soma da inflação com o crescimento da população e uma meta de crescimento real da despesa per capita ou por aluno.

A garantia de correção pela inflação mais crescimento da população ou número de estudantes deve ser permanente. Já a meta de crescimento real do gasto per capita deve ter prazo, para garantir avaliação periódica e transparente do custo e benefício dos programas.

Agora a pausa de sempre: se é para ser assim, por que o PT não fez quando foi governo? Por que nem todos no PT concordavam com esta proposta e, quando quem defendia esta proposta iria finalmente iniciar a discussão, em 2016, houve… deixa para lá.

Voltando, o importante agora é esclarecer, à sociedade e aos nossos parlamentares, que há alternativas mais racionais e adequadas ao Brasil do que o teto Temer ou o “quebra-piso” Guedes.

É possível desvincular gasto da receita sem eliminar piso de gasto. Também é possível ter piso de gasto que evite redução da cobertura da educação e da saúde pública, atrelando o crescimento real do gasto a metas de melhoria do atendimento à população.

Mas tudo isso é para depois da aprovação do auxílio emergencial. Achei que nunca mais precisaríamos dizer isso: mas quem tem fome tem pressa. O resto vem depois.

Nelson Barbosa – Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa o que pensa o blog Traço de União.

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A Petrobras e o lucro do acionista: o que está por trás da disputa atual

“Se o andar na linha significa expandir o lucro e o poder do acionista e virar de costas para a sua missão de defender os interesses nacionais – mesmo que isso possa significar, no curto prazo, reduzir a margem de lucro para dirimir a flutuação no preço dos combustíveis – então fica claro que o que está por trás da estratégia da empresa é a sua perda de compromisso com o povo brasileiro.”

Golpe contra Dilma e governo Bolsonaro movimentaram pêndulo da Petrobras para o grupo dos acionistas
Golpe contra Dilma e governo Bolsonaro movimentaram pêndulo da Petrobras para o grupo dos acionistas – Fernando Frazão/Agência Brasil

Por Juliane Furno

Os acontecimentos da semana corrente, envolvendo a troca de comando da Petrobras e a política de preços dos combustíveis, nubla o real conflito que envolve a concepção fundamental sobre para que servem as empresas estatais.

A Petrobras enseja, no seu âmago, uma contradição fundamental. Ao mesmo tempo em que foi criada para ser uma empresa estatal e exercer o monopólio da produção e refino em nome da União, a Petrobras não nasceu como uma autarquia, e sim como uma empresa de economia mista, portanto de capital aberto e contando com parte do seu financiamento por meio do lançamento de ações no mercado de capitais.

Isso encerra a contradição de, ao mesmo tempo em que a Petrobras nasce vocacionada para ser parte constitutiva da consecução dos interesses nacionais, ela enseja uma face “de mercado”, representada pela necessidade de gerar lucros para serem repartidos entre os seus acionistas.

Padrões corporativos

Nos anos 1990, esse pêndulo pesou para a Petrobras, fosse negligenciando seu caráter fundamental de empresa submetida aos interesses macroeconômicos nacionais, fosse passando a constituir reformas microeconômicas que abriram espaço ao seu controle pelo conjunto dos acionistas.

Muito embora a Petrobras tenha permanecido uma empresa estatal, ela passou a atuar de forma idêntica às empresas privadas, privilegiando os objetivos microeconômicos e o retorno aos acionistas.

Como o Estado foi omisso na edição de planejamentos econômicos, os objetivos microeconômicos conduziram a atuação da empresa estatal. Segundo consta em relatório de 2001 da empresa, “a partir do ano que termina [1999], ela [a empresa] passa a ser uma empresa com a mesma base, mas com outro perfil: mais ágil, mais sofisticada, mais transparente e mais competitiva”.

Promovidas tais mudanças, ao final de 2001 o CA indicou a necessidade de um novo passo no sentido de garantir o financiamento da companhia. Realizou-se, então, uma nova reforma estatutária, aproximando a Petrobras das práticas e padrões de governança corporativa, conferindo, também, direitos adicionais aos acionistas minoritários.

Ações em bolsas de valores

Na esteira desse processo, outro evento concorreria para que o mercado fosse ganhando mais espaço, no que se refere à determinação de regras de desempenho econômico e financeiro da empresa, que foi o lançamento de grande parte das ações da Petrobras na Bolsa de Valores de São Paulo e de Nova Iorque no ano 2000.

A partir de então, os direitos dos acionistas minoritários e as regras das bolsas de valores – sobretudo de NY –, constituir-se-iam como um novo e importante constrangimento para a atuação da Petrobras.

Contraditoriamente, a substancial venda de ações, nesse período, não representou o ingresso de recursos na Petrobras, mas apenas o aumento da sua base acionária em 22.707 novos acionistas, com a predominância de fundos de investimentos e de capital externo. 

Governos de Lula e Dilma

Nos governos Lula e Dilma, ocorreu o que pode ser conceituado como “estatização moderada”, impressa por meio do novo Marco Regulatório do Petróleo, de 2020.

O Estado brasileiro e suas partes relacionadas aumentaram suas participações no capital societário da Petrobras em ações ordinárias e ações preferenciais. Juntas, essas ações passaram a representar 63,6% das ações ordinárias e 48,4% do capital total, o que antes da oferta pública correspondia a apenas 57,9% e 39,8%, respectivamente.

Com o aumento da participação dos agentes públicos, em contrapartida, ocorreu a diminuição da participação dos acionistas minoritários, notadamente de acionistas brasileiros e estrangeiros via ADRs nível III. 

Pós-golpe

O golpe de 2016 contra Dilma Rousseff e a continuidade do golpe por meio do governo Bolsonaro mais uma vez movimentam o pêndulo da empresa para o grupo dos acionistas. As ações preferenciais, que têm direito a votar no Conselho de Administração, encontram-se no limite, perfazendo apenas 50,5% delas nas mãos do Estado.

Por outro lado, o grupo de acionistas privados cresceu seu controle dentro da empresa, e dos 49,5% das ações sobrantes, 40,33% são de acionistas estrangeiros, que capturam os lucros da empresa e remetem seus dividendos para fora do país. 

Essa afirmação fica explícita com a distribuição de dividendos entre os acionistas de forma geral. O Estado brasileiro hoje fica com apenas 34% de todo o lucro gerado pela empresa, enquanto os investidores externos são os principais beneficiários do lucro da companhia. 

Cresce lucro dos acionistas

Não só isso. De 2018 para 2019 o lucro distribuído para os acionistas cresceu 51%, para a alegria dos representantes do “mercado”, que veem engordar seus bolsos às custas do processo de deterioração da cadeia brasileira de petróleo e gás – expressa pela política privatista de venda de ativos fixos e desinvestimento – e do apequenamento da empresa e da sua missão principal como empresa estatal.

Compromisso com o povo brasileiro

Representante do mercado no Conselho de Administração da Petrobras, Marcelo Mesquita disse, em vídeo à Globo News, que a Petrobrás “andou na linha nos últimos quatro anos” e que “o novo presidente tem que seguir a estratégia da empresa, que é ser uma empresa, e não uma autarquia”.

Se o andar na linha significa expandir o lucro e o poder do acionista e virar de costas para a sua missão de defender os interesses nacionais – mesmo que isso possa significar, no curto prazo, reduzir a margem de lucro para dirimir a flutuação no preço dos combustíveis – então fica claro que o que está por trás da estratégia da empresa é a sua perda de compromisso com o povo brasileiro.

Juliane Furno é doutora em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp, assessora parlamentar da Câmara Federal e militante do Levante Popular da Juventude e da Consulta Popular.

Publicado originalmente no portal Brasil de Fato. Acesse: https://www.brasildefato.com.br/

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa o que pensa o blog Traço de União.

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A cultura e a origem dos Ciganos

Por Juliana Bezerra

Entendemos por ciganos um grupo de pessoas que são nômades, divididos em clãs que perambulavam pela Europa. Os ciganos estão longe de constituir um povo único e homogêneo, e são divididos em várias etnias.

Também são conhecidos como “romi” e ao longo da história Ocidental foram marginalizados por conta do seu modo de vida, considerado incompatível com a sociedade europeia.

Origem do povo cigano

Como os ciganos não possuem um idioma escrito, toda sua história foi escrita por não-ciganos. Por isso, nem sempre os testemunhos são isentos de preconceitos.

Uma das grandes questões é saber qual o lugar de origem dos ciganos. Atualmente, considera-se que a Índia, especialmente a região do Punjab, seja a terra natal mais provável. Dali teriam passado ao Egito, e dali para o continente europeu.

O primeiro documento que atesta a presença dos ciganos na Espanha é de 1423, quando os mesmos pedem permissão para cruzar o território a fim de peregrinar a Santiago de Compostela.

Onde vivem os ciganos?

Os países onde vivem o maior número de ciganos são os Estados Unidos (1.000.000), Brasil (800.000) e Espanha (710.000).

No entanto, são em países como Sérvia, Bulgária, Eslovênia e Romênia é que se verifica a maior proporção de ciganos na população.

Povo cigano no Brasil

Os ciganos chegaram ao Brasil com os navegantes portugueses. As autoridades de Portugal viam nos seus territórios ultramarinos uma oportunidade de se livrar desses indivíduos que eram considerados “indesejados”.

Os ciganos estabeleceram-se em praticamente todo o território nacional, especialmente na Bahia.

Atualmente, existem três grandes grupos ciganos no País. O primeiro, oriundos de Portugal e Espanha, que mantém o dialeto caló. O segundo, o Rom, que utiliza o romani, e são oriundos especialmente do Leste Europeu. Finalmente, os Sintis, da Alemanha e da França, após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Segundo os dados do IBGE, em 2010 havia cerca de 800 mil ciganos no Brasil. A maioria já não vive como nômades e estão fixos numa região.

Cultura cigana

Por serem nômades, os ciganos foram incorporando hábitos e costumes das regiões onde estavam. No entanto é possível identificar traços comuns que compõem a cultura cigana.

Os ciganos acabaram exercendo ofícios que podiam ser desempenhados em todos os lugares. Por isso, os homens eram ferreiros, comerciantes, cuidadores de cavalo e gado.

Dentro dos clãs ciganos, as mulheres estão mais restritas à esfera doméstica, porém realizavam trabalhos como costureiras, rendeiras e artistas. Também se dedicavam a leitura das mãos e de baralho para predizer o futuro.

Os valores como a fidelidade à família e ao clã, e os casamentos entre si são outras características marcantes que podemos observar em todos os ciganos.

Romani – língua cigana

Os ciganos desenvolveram o idioma romani, também chamado romanês.

Trata-se de uma língua ágrafa (não escrita) e ensinada de forma oral, pelas famílias ciganas. Há etnias que o falam com desenvoltura, mas outros, apenas conhecem algumas palavras.

Igualmente, é proibido aos não-ciganos aprenderem esta linguagem. No entanto, com a globalização e a internet, essa barreira começa a se romper.

Religião cigana

É importante frisar que os ciganos não tem uma religião no sentido estrito do termo. Eles possuem um conjunto de crenças e princípios, mas não existe a figura de um deus (ou de deuses) em concreto, nem hierarquia religiosa.

Os ciganos adotavam a religião do território por onde circulavam. Desta maneira encontramos ciganos católicos, ortodoxos, evangélicos, espíritas e muçulmanos.

Entre os católicos ciganos é grande a devoção em torno a Santa Sara de Kali, que teria sido amparada por ciganos, no sul da França.

Na religião umbanda existem as “entidades ciganas” que seriam os espíritos de ciganos já falecidos.

Dança cigana

A dança cigana é resultado da mescla de vários elementos, mas foi na Espanha que ela ganha força.

Os ciganos dançavam nos seus acampamentos, nas festas, acompanhados de instrumentos musicais, canto e palmas. Tanto as mulheres quanto os homens dançavam no meio da roda.

Desta maneira, a dança cigana é sensual, forte e bastante expressiva, pois todo o corpo participa dos movimentos. Entre as mulheres há o costume de dançarem descalças, com longas saias e ricamente enfeitadas com joias.

Dentre todos os elementos da cultura cigana, o flamenco é a que tem maior expressão em nível mundial.

Preconceito contra os ciganos

Os ciganos sempre foram alvo de preconceito na Europa e este comportamento passou para as Américas.

Um dos motivos pelos quais sempre foram mal vistos era o seu estilo de vida. Eram nômades, numa sociedade sedentária; não possuíam leis escritas, numa época em que todos as tinham. Igualmente, apesar de aceitarem o cristianismo, praticavam certas práticas condenadas pela Igreja como a adivinhação do futuro.

Assim surgiram todo o tipo de histórias sobre este povo classificando-os de trapaceiros e ladrões, como se estas atitudes fossem exclusivas dos ciganos.

Esteriótipos ciganos

Da mesma forma que existem esteriótipos para nordestinos, negros, judeus, gordos e qualquer pessoa que não se encaixe em determinado padrão, há uma infinidade de ideias preconcebidas contra os ciganos.

Uma das mais comuns é que os ciganos roubavam crianças e há numerosas lendas de bebês que sumiram depois da passagem de um grupo cigano numa cidade. Temos que considerar, porém, que todo povo marginalizado era acusado deste crime.

Outra acusação muito comum era que os ciganos roubavam e mentiam. Isto é verdade quando um cigano se relaciona com um não-cigano. No entanto, entre eles, há códigos de honra severos que impedem a desonestidade entre eles. 

Vemos que essas atitudes eram usadas a fim de se protegerem contra os ataques externos e não uma características que nasceu com este povo. 

Perseguição aos ciganos

Os ciganos foram perseguidos durante a formação das Monarquias Nacionais na Europa, pois todo aquele que não era católico, foi expulso. Essa medida atingiu igualmente judeus e muçulmanos.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1845), os ciganos foram perseguidos e confinados em campos de concentração nazistas. Calcula-se que 250 mil ciganos tenham sido mortos neste período, especialmente na Croácia, onde a população quase foi exterminada.

Juliana Bezerra bacharelada e Licenciada em História, pela PUC-RJ. Especialista em Relações Internacionais, pelo Unilasalle-RJ. Mestre em História da América Latina e União Europeia pela Universidade de Alcalá, Espanha.

Publicado originalmente no portal Toda Matéria. Acesse: https://www.todamateria.com.br/

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MEMÓRIA PRIMEIRA – poema de Paulo Gabriel

Há um quintal em minha infância

e desde ali eu via o horizonte,

no curral, galinhas ciscavam excrementos,

e uma estepe enorme

abria sulcos no desejo ainda reprimido.

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Aprendi a rezar olhando a noite e seu mistério,

na retina dos meus olhos,

uma saudade povoada a alma,

e eu crescia por dentro

como amadurecia o mel nos figos que já

saboreava.

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Tinha um pai que me abraçava com seus olhos

e uma mãe que lavrava com seu canto meu

destino.

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Era feliz e não tinha riqueza,

tinha sonhos.

Paulo Gabriel

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Anticorrupção como utopia regressiva

“A velha política seria apenas a revisão das condenações da Lava Jato e a volta do centrão ao poder. Resta saber o que seria a nova política: provavelmente um sistema no qual a mídia decidiria quem condenar por corrupção. Afinal, Sardenberg nos diz que nenhum inocente foi condenado. Logo, supõe-se que existe uma régua midiática que permite apontar culpados por corrupção, independentemente dos resultados dos processos judiciais.”

O balanço final da operação Lava Jato

Por Leonardo Avritzer

O final melancólico da Operação Lava Jato, na primeira semana de fevereiro, quase passou desapercebido. Uma pequena nota do Procuradoria Geral da República e alguns protestos das principais viúvas da Lava Jato: Deltan Dellagnol, em um arroubo de Luís XIV, “eu sou a luta anticorrupção no Brasil”, apontou que o combate à corrupção no país seria prejudicado.

Nenhuma palavra sobre o quanto a Lava Jato, em especial a força-tarefa sob o seu comando, contribuiu para a corrupção do direito no Brasil. Vale lembrar que a nota sobre a condução coercitiva do ex-presidente Lula foi redigida por um jornalista da Rede Globo e que o próprio Deltan tentou se apropriar indevidamente de grande parte dos recursos recuperados pela operação para fazer uma fundação que aumentaria os ganhos dos procuradores da força-tarefa.

Na grande imprensa, aqueles jornalistas que falharam miseravelmente em cumprir o seu dever investigativo também vieram a publico protestar. O jornalista Carlos Sardenberg escreveu no jornal O Globo: “Há uma sequência de movimentos que revigoram a velha política (aqui incluídos Executivo, Legislativo e Judiciário), abafam o combate à corrupção e tornam o Estado brasileiro cada vez mais ineficiente.” Ou seja, o impeachment não teria envolvido a velha política, nem os benefícios que o poder Judiciário e as corporações de segurança ganharam com ele.

A velha política seria apenas a revisão das condenações da Lava Jato e a volta do centrão ao poder. Resta saber o que seria a nova política: provavelmente um sistema no qual a mídia decidiria quem condenar por corrupção. Afinal, Sardenberg nos diz que nenhum inocente foi condenado. Logo, supõe-se que existe uma régua midiática que permite apontar culpados por corrupção, independentemente dos resultados dos processos judiciais.

Assim, temos no Brasil um fenômeno curiosíssimo: uma operação anticorrupção de primeira instância manipula o STF, faz política por conta própria, alia-se a políticos de extrema direita e vaza informações para auxiliá-los eleitoralmente, viola os princípios de relações internacionais do país colaborando diretamente com autoridades de outros países e condena um ex-presidente com provas frágeis legalizadas pelo juiz, em conluio com a acusação. Quando essa operação chega ao fim, alguns lamentam a volta da velha política. Resta o saber o que é, na opinião desses, a nova política.

Duas questões se colocam aqui: a saber, o que fez o país aderir quase que integralmente (em alguns momentos em 2015 a Lava Jato tinha o apoio de mais de 90% dos brasileiros) a uma operação judicial que viola de forma tão contundente o estado de direito e que toma em suas mãos prerrogativas que não possui, chantageando as outras instituições republicanas. A segunda é como uma operação local e politizada pôde determinar tantos momentos relevantes da política brasileira e se colocar acima de todas as instituições políticas e judiciais.

Meu primeiro ponto é que a Lava Jato utilizou uma tecnologia de manipulação de massas semelhantes à utilizada pelo nazi-fascismo e pelo stalinismo e que contou com o apoio da grande imprensa para realizar esse objetivo. A Lava Jato não foi uma operação contra a corrupção e, sim, uma tentativa de transformar a luta anticorrupção em uma utopia. Hoje sabemos que essa utopia era regressiva, ou seja, capaz de destruir a economia e reorganizar o sistema político de forma antidemocrática.

Todas as formas de totalitarismo e de forte violação de direitos que conhecemos na modernidade estão baseadas em um elemento que pode ser apontado como utópico, mas que ao final tem apenas capacidade destrutiva. O elemento utópico mobilizado pelo stalinismo é a ideia de fim da desigualdade, ao passo que o elemento utópico mobilizado pelo nazismo é o da eliminação das impurezas étnicas. Nesse sentido, existe pouco de diferente em relação ao que a Lava Jato realizou: a ideia aqui é o fim da corrupção através da eliminação dos impuros do sistema político. É esse o objetivo da Lava Jato que deve ser analisado em conjunto com o naufrágio econômico e político que ela produziu.

Tanto o nazismo como o stalinismo redefiniram o sistema de justiça dos seus países para atuar de acordo com as máximas das suas utopias regressivas. No caso do nazismo, o seu principal jurista, Carl Schmitt, redefiniu a máxima do sistema de justiça da seguinte forma: “hoje todos reconhecem que a máxima ‘nenhum crime sem punição’ adquire prioridade em relação à máxima ‘nenhuma punição fora da lei”. Não é muito difícil encaixar a afirmação de Sardenberg publicada em O Globo do dia 06 de fevereiro na doutrina do jurista do nacional socialismo. Sardenberg afirma: “Tem algum inocente posto na cadeia pela Lava-Jato? Mas tem culpado sendo libertado pelos métodos transversos da velha ortodoxia”.

Ou seja, quem estabelece a dualidade inocente-culpado não é o sistema de justiça. Aliás, diga-se de passagem, a frase encaixa perfeitamente com uma observação do Ministro da Justiça do Reich que afirmou em 1935: o direito deve renunciar à sua reivindicação de ser a única fonte de determinação sobre o que é legal e o que e ilegal.” (vide o livro Hitler’s Justice: the courts of the third Reich, de Ingo Muller).

É interessante notar que tanto o nazismo quanto o stalinismo realizaram grandes mobilizações da opinião pública na realização de julgamentos de alta visibilidade. Esses julgamentos tinham como objetivo mobilizar a opinião pública a favor de um veredito que já era conhecido de antemão. Mais uma vez, vemos aqui enormes analogias com a maneira como o direito no Brasil operou entre 2015 e 2018. O objetivo dos operadores do direito é mostrar que a corrupção não é apenas um delito a ser punido conforme a lei, mas uma descaracterização da condição de cidadão do país ou membro do Estado nacional.

Encontramos diversas passagens a esse respeito nos artigos dos defensores incondicionais da Lava Jato na imprensa. A ideia aqui é que a corrupção é um mal que distorce o que é o país e que todos os nossos problemas estão remetidos a ela. Assim, se a previdência não pode pagar aposentadorias integrais, a culpa é da corrupção. Se o preço da gasolina ou do diesel subiu, o problema é a corrupção. Foi o que lemos em um site de notícias ligado à empresa XP, o Infomoney, em relação ao aumento do diesel em 2018: “Para que a Petrobras conseguisse não repassar agora as altas do preço internacional do petróleo, a empresa teria que ter sobra de caixa (colchão de liquidez) para assumir um prejuízo momentâneo. É evidente que após a herança maldita dos governos do PT – compra de Pasadena, esquemas de corrupção bilionários, loteamento de cargos, má gerência e uso político da Petrobras para controle do IPCA , essa sobra de caixa se tornou impossível” (25/05/2018).

Ou seja, algumas pessoas corruptas são responsáveis por todos os problemas do país. O aumento do petróleo nada tem a ver com uma política de preços, por acaso defendida pela empresa para a qual ele escreve, e sim com a corrupção. O mesmo é verdade sobre o déficit da previdência ou sobre outras mazelas que o país não consegue enfrentar. Assim, a luta contra a corrupção não é uma política institucional do Estado, mas uma forma ex-post de purificação da política das pessoas que causaram a situação em que o país se encontra. Não é possível pensar em uma analogia mais clara como discurso anti-semita alemão dos anos 1920 e 1930 ou com o discurso soviético dos anos 1930. Logo, prisão sem direitos para essas pessoas.

A Lava Jato foi popular porque ofereceu ao país uma utopia não realizável, mas absolutamente confortável. A utopia do “somos todos ótimos e o país tem um excelente projeto na mãos dos economistas liberais e dos governos conservadores, mas a corrupção atrapalha.” Assim, o país  mais desigual entre as grandes economias do mundo, que tem uma economia que se desconectou de todas as cadeias produtivas importantes do mundo (vide a anunciada saída da Ford e da Mercedes do Brasil); que substituiu empregos industriais por trabalhadores de aplicativos sem direitos; que não tem um projeto para se integrar à economia do conhecimento e que tem um setor de serviços com mão-de-obra de baixíssima qualificação, para este país que ainda não superou o impacto da escravidão na educação e na sociedade, a Lava Jato ofereceu uma resposta simples, inconsistente e errada: o problema do país é a corrupção do sistema político.

Sete anos depois de a Lava Jata deixar uma terra arrasada, ela tem aliados que defendem a sua herança. Qual herança: a recuperação de 4,3 bilhões de reais, valor menor do que o transferido pela Petrobrás para alguns fundos de investimento em Nova York antes que o processo fosse finalizado na justiça dos EUA. São duas as heranças que a Lava Jato deixa: que uma força-tarefa tarefa mal intencionada em relação aos poderes constituídos da República pode manipular juízes, pressionar o STF e chantagear empresários, e que nenhum deles terá capacidade de resistir. Segundo, que o país precisa de um projeto que não esteja no campo das utopias e sim de políticas institucionais realistas implementadas. Combater a corrupção no Brasil é importante e deve ser feito dentro da institucionalidade existente. Ainda assim, é uma utopia achar que os que lutam contra a corrupção são heróis altruístas e que defendem qualquer coisa parecida com um projeto viável de país.

Leonardo Avritzer é professor titular do departamento de Ciência Política da UFMG. Autor, entre outros livros, de Impasses da democracia no Brasil (Civilização

Publicado em A Terra é Redonda.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa o que pensa o blog Traço de União.

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