O Estado, Brasil + o Capital e o futuro das pessoas





Por João Antonio

É fato que estamos num modelo capitalista cuja essência é o individualismo competitivo. Por óbvio, neste modelo o lucro é fator motivador da engrenagem econômica, por consequência, as organizações sociais e todos os órgãos de Estado se movimentam dentro desta lógica. É uma engrenagem centrada na reciprocidade entre desenvolvimento econômico e competitividade.

Nesta modelagem econômica, tudo gira em função de acumular capital para gerar mais capital, que por sua vez gera mais competição e, por consequência, mais riquezas acumuladas. E assim segue o carrossel competitivo com sua voracidade predadora atropelando a ética, os costumes e a solidariedade. É a lógica do vencer a qualquer custo.

Na política prescrita pelo establishment – elite social, política e econômica brasileira – tudo que se contrapõe à livre iniciativa, o direito à propriedade sem freios e o acúmulo de riquezas ilimitadas não pode prosperar. A dinâmica “ordeira” é os meios de produção a serviço de mais capital e não em função do desenvolvimento do ser humano. Quem ousa falar contra esta lógica está fora da ordem. Pensar fora desta “caixinha” pode levar o sujeito a ser considerado “criminoso”. É neste contexto que se colocam dois importantes temas caros para a humanidade: a igualdade e a liberdade.

Na dinâmica imposta pelo sistema, a igualdade se limita ao seu formato jurídico: igualdade formal perante a lei. A máxima do individualismo competitivo é propiciar aos indivíduos a igualdade do ponto de partida; a partir daí cada um que se estabeleça segundo sua competência. Na prática esta dinâmica leva à seleção natural dos melhores. Quem nunca ouviu a frase “Quem tem competência que se estabeleça!” Vejam, o que está por trás deste conceito – a igualdade do ponto de partida – é a naturalização das desigualdades materiais. Por óbvio, se é natural, não é possível e nem preciso superá-la.

Quanto à liberdade, sim, neste modelo o indivíduo pode tudo dentro das suas possibilidades econômicas. Ocorre que as possibilidades econômicas da imensa maioria do povo são extremamente limitadas. Na verdade, levando em conta a premissa desenvolvimentista centrada na competitividade,  até o conceito de liberdade está vinculada à lógica da ambição. O indivíduo deseja viajar, comprar livros, frequentar boas casas de espetáculos, tomar bons vinhos… o desafio é acumular mais para suprir estas e outras necessidades.

É possível um indivíduo que ganha até 2 salários mínimos fazer uma viagem internacional por ano? Lembre-se que a imensa maioria dos brasileiros está nesta faixa salarial. Como se vê, no individualismo competitivo a liberdade está intimamente relacionada ao sucesso material do indivíduo. Ela é proporcional à sua capacidade econômica. É um conceito de liberdade do tipo “eu posso, eu faço”.

Ocorre que a desorganização do capitalismo no mundo, a natural globalização econômica, agora potencializada pelos avanços tecnológicos e pela comunicação global instantânea, a competitividade entre as nações e o incontrolável avanço do poder do capital financeiro em detrimento do capital produtivo tem levado, com raríssimas exceções, a uma brutal concentração de renda na maioria dos Estados.

A igualdade do ponto de partida não tem dado conta de amenizar a vergonhosa exclusão social. O capitalismo avança deixando um rastro desumano para trás. Não há  sistema político que sobreviva de forma perene sem que as desigualdades sejam tratadas como prioridade. Desigualdade é sinônimo de conflitos sociais.

A história da humanidade está recheada de disputas. Todo ciclo histórico se inicia com um conflito e, por consequência, com a instalação de uma nova ordem político/econômica com consequências diretas na modelagem jurídica. No caso do Brasil, a disputa pelos rumos do Estado encontra-se num estágio latente.

Que Estado queremos para o futuro?

O Brasil não tem uma tradição de pensar o Estado do ponto vista social. Com exceção de alguns períodos históricos, incluindo o período recente – 2002 a 2014 – o lógica do capital dominou o Estado brasileiro. Dois campos políticos  se degladiam: os ultraliberais, também chamados de neoliberais, e a esquerda democrática.

No que toca aos liberais, no caso do Brasil há uma grande unidade do chamado centro, centro direita e a direita. Todos desejam um modelo de Estado mínimo – menos Estado e mais iniciativa privada. Grosso modo, é o mercado normalizando a economia, estímulo à competitividade como indutora do desenvolvimento econômico. É a ideia do individualismo competitivo levado às últimas consequências. Capacidade empreendedora e meritocracia são os termos mais utilizados para classificar os indivíduos brasileiros como “bons”.

No outro polo situam-se a centro esquerda – esquerda democrática – que, ao contrário, valorizam a finalidade do Estado, colocando no centro de sua ação o desenvolvimento humano em sua integralidade. Para esta concepção, desenvolvimento econômico está associado ao bem estar coletivo. O Estado deixa de ser um mero regulador das atividades humanas em todas as suas dimensões e passa a ser o condutor de políticas públicas voltadas para concretizar a sua finalidade. É a solidariedade se contrapondo ao individualismo competitivo, é o mercado regulado pelo Estado e a inclusão social como condição sine qua non para a uniformização do conceito de liberdade. Para essa concepção de Estado, riqueza acumulada, sem distribuição de renda, não tem valor. Nela, o ser humano é o centro da ação do Estado e não o lucro.

O Brasil tem um triste histórico de aparelhamento do Estado pela elite econômica. O imediatismo dos ricos – lucrar muito, rapidamente e a qualquer custo – impede o Brasil de projetar seu desenvolvimento pensando nas pessoas e nas gerações futuras. Essa visão tacanha do poder econômico atropela a política, as instituições, a ética e, por consequência, as liberdades democráticas.

O jogo pesado em curso na política brasileira é decorrente desta polarização. Não há espaço para a ingenuidade e muito menos para tergiversar: as investidas contra os direitos fundamentais e várias conquistas civilizatórias não são um capricho dos atuais governantes de plantão. São uma exigência dos que sempre estão ávidos por instrumentalizar o Estado para seus fins empresariais.

O embate prossegue: os rumos do Estado brasileiro seguirá em disputa. Espero que por vias democráticas o Brasil seguirá em frente, preservando os direitos fundamentais e aprofundando as conquistas civilizatórias.

João Antonio da Silva Filho, mestre em filosofia do direito, foi vereador por São Paulo por 3 mandatos consecutivos, deputado estadual, secretário da prefeitura de SP, autor dos livros: A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio; O Sujeito Oculto do Crime – Considerações Sobre a Teoria do Domínio do Fato; A Era do Direito Positivo e Os Tribunais de Contas no Estado Democrático de Direito e os Desafios do Controle Externo. Atualmente é presidente do TCM-SP.

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O que é privilégio? Porque atacam tanto os funcionários públicos? Veja o vídeo

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O golpe de Bolsonaro está em curso

Já está acontecendo: a hora de lutar pela democracia é agora.

O presidente Jair Bolsonaro após uma cerimônia no Palácio do Planalto em fevereiro de 2020.ADRIANO MACHADO / REUTERS (REUTERS)

Por a Eliane Brum – 26/02/2020

Só não vê quem não quer. E o problema, ou pelo menos um deles, é que muita gente não quer ver. O amotinamento de uma parcela da Polícia Militar do Ceará e os dois tiros disparados contra o senador licenciado Cid Gomes (PDT), em 19 de fevereiro, é a cena explícita de um golpe que já está sendo gestado dentro da anormalidade. Há dois movimentos articulados. Num deles, Jair Bolsonaro se cerca de generais e outros oficiais das Forças Armadas nos ministérios, substituindo progressivamente os políticos e técnicos civis no Governo por fardados – ou subordinando os civis aos homens de farda nas estruturas governamentais. Entre eles, o influente general Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, segue na ativa, e não dá sinais de desejar antecipar seu desembarque na reserva. O brutal general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, chamou o Congresso de “chantagista” dias atrás. Nas redes, vídeos com a imagem de Bolsonaro conclamam os brasileiros a protestar contra o Congresso em 15 de março. “Por que esperar pelo futuro se não tomamos de volta o nosso Brasil?”, diz um deles. Bolsonaro, o antipresidente em pessoa, está divulgando pelas suas redes de WhatsApp os chamados para protestar contra o Congresso. Este é o primeiro movimento. No outro, uma parcela significativa das PMs dos estados proclama sua autonomia, transformando governadores e população em reféns de uma força armada que passa a aterrorizar as comunidades usando a estrutura do Estado. Como os fatos já deixaram claro, essas parcelas das PMs não respondem aos Governos estaduais nem obedecem a Constituição. Tudo indica que veem Bolsonaro como seu único líder. Os generais são a vitrine lustrada por holofotes, as PMs são as forças populares que, ao mesmo tempo, sustentam o bolsonarismo e são parte essencial dele. Para as baixas patentes do Exército e dos quartéis da PM, Bolsonaro é o homem.

É verdade que as instituições estão tentando reagir. Também é verdade que há dúvidas robustas se as instituições, que já mostraram várias e abissais fragilidades, ainda são capazes de reagir às forças que já perdem os últimos resquícios de pudor de se mostrarem. E perdem o pudor justamente porque todos os abusos cometidos por Bolsonaro, sua família e sua corte ficaram impunes. De nada adianta autoridades encherem a boca para “lamentar os excessos”. Neste momento, apenas lamentar é sinal de fraqueza, é conversinha de sala de jantar ilustrada enquanto o barulho da preparação das armas já atravessa a porta. Bolsonaro nunca foi barrado: nem pela Justiça Militar nem pela Justiça Civil. É também por isso que estamos neste ponto da história.

Essas forças perdem os últimos resquícios de pudor também porque parte do empresariado nacional não se importa com a democracia e a proteção dos direitos básicos desde que seus negócios, que chamam de “economia”, sigam dando lucro. Esta mesma parcela do empresariado nacional é diretamente responsável pela eleição de um homem como Bolsonaro, cujas declarações brutais no Congresso já expunham os sinais de perversão patológica. Estes empresários são os herdeiros morais daqueles empresários que apoiaram e se beneficiaram da ditadura militar (1964-1985), quando não os mesmos.

Uma das tragédias do Brasil é a falta de um mínimo de espírito público por parte de suas elites financeiras. Elas não estão nem aí com os cartazes de papelão onde está escrita a palavra “Fome”, que se multiplicam pelas ruas de cidades como São Paulo. Como jamais se importaram com o genocídio dos jovens negros nas periferias urbanas do Brasil, parte deles mortos pelas PMs e suas “tropas de elite”. Adriano da Nóbrega – aquele que, caso não tivesse sido morto, poderia dizer qual era a profundidade da relação da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro e também quem mandou assassinar Marielle Franco – pertencia ao BOPE, um destes grupos de elite.

Não há nada comparável à situação vivida hoje pelo Brasil sob o Governo de Bolsonaro. Mas ela só é possível porque, desde o início, se tolerou o envolvimento de parte das PMs com esquadrões da morte, na ditadura e além dela. Desde a redemocratização do país, na segunda metade dos anos 1980, nenhum dos governos combateu diretamente a banda podre das forças de segurança. Parte das PMs se converteu em milícias, aterrorizando as comunidades pobres, especialmente no Rio de Janeiro, e isso foi tolerado em nome da “governabilidade” e de projetos eleitorais com interesses comuns. Nos últimos anos as milícias deixaram de ser um Estado paralelo para se confundir com o próprio Estado.

A política perversa da “guerra às drogas”, um massacre em que só morrem pobres enquanto os negócios dos ricos aumentam e se diversificam, foi mantida mesmo por governos de esquerda e contra todas as conclusões dos pesquisadores e pesquisas sérias que não faltam no Brasil. E seguiu sustentando a violência de uma polícia que chega nos morros atirando para matar, inclusive em crianças, com a habitual desculpa de “confronto” com traficantes. Se atingem um estudante na escola ou uma criança brincando, é “efeito colateral”.

Desde os massivos protestos de 2013, governadores de diferentes estados acharam bastante conveniente que as PMs batessem em manifestantes. E como ela bateu. Era totalmente inconstitucional, mas em todas as esferas, poucos se importaram com esse comportamento: uma força pública agindo contra o cidadão. Os números de mortes cometidas por policiais, a maior parte delas vitimando pretos e pobres, segue aumentando e isso também segue sendo tolerado por uns e estimulado por outros. É quase patológica, para não dizer estúpida, a forma como parte das elites acredita que vai controlar descontrolados. Parecem nem desconfiar de que, em algum momento, eles vão trabalhar apenas para si mesmos e fazer os ex-chefes também de reféns.

Bolsonaro compreende essa lógica muito bem. Ele é um deles. Foi eleito defendendo explicitamente a violência policial durante os 30 anos como político profissional. Ele nunca escondeu o que defendia e sempre soube a quem agradecer pelos votos. Sergio Moro, o ministro que interditou a possibilidade de justiça, fez um projeto que permitia que os policiais fossem absolvidos em caso de assassinarem “sob violenta emoção”. Na prática é o que acontece, mas seria oficializado, e oficializar faz diferença. Essa parte do projeto foi vetada pelo Congresso, mas os policiais seguem pressionando com cada vez mais força. Neste momento, Bolsonaro acena com uma antiga reivindicação dos policiais: a unificação nacional da PM. Isso também interessa – e muito – a Bolsonaro.

Se uma parcela das polícias já não obedece aos governadores, a quem ela obedecerá? Se já não obedece a Constituição, a qual lei seguirá obedecendo? Bolsonaro é o seu líder moral. O que as polícias militares têm feito nos últimos anos, ao se amotinarem e tocarem o terror na população é o que Bolsonaro tentou fazer quando capitão do Exército e foi descoberto antes: tocar o terror, colocando bombas nos quartéis, para pressionar por melhores salários. É ele o precursor, o homem da vanguarda.

O que aconteceu com Bolsonaro então? Virou um pária? Uma pessoa em que ninguém poderia confiar porque totalmente fora de controle? Um homem visto como perigoso porque é capaz de qualquer loucura em nome de interesses corporativos? Não. Ao contrário. Foi eleito e reeleito deputado por quase três décadas. E, em 2018, virou presidente da República. Este é o exemplo. E aqui estamos nós. Vale a pergunta: se os policiais amotinados são apoiados pelo presidente da República e por seus filhos no Congresso, continua sendo motim?

Não se vira refém de uma hora para outra. É um processo. Não dá para enfrentar o horror do presente sem enfrentar o horror do passado porque o que o Brasil vive hoje não aconteceu de repente e não aconteceu sem silenciamentos de diferentes parcelas da sociedade e dos partidos políticos que ocuparam o poder. Para seguir em frente é preciso carregar os pecados junto e ser capaz de fazer melhor. Quando a classe média se calou diante do cotidiano de horror nas favelas e periferias é porque pensou que estaria a salvo. Quando políticos de esquerda tergiversaram, recuaram e não enfrentaram as milícias é porque pensaram que seria possível contornar. E aqui estamos nós. Ninguém está a salvo quando se aposta na violência e no caos. Ninguém controla os violentos.

Há ainda o capítulo especial da degradação moral das cúpulas fardadas. Os estrelados das Forças Armadas absolveram Bolsonaro lá atrás e hoje fazem ainda pior: compõem sua entourage no Governo. Até o general Ernesto Geisel, um dos presidentes militares da ditadura, dizia que não dava para confiar em Bolsonaro. Mas aí está ele, cercado por peitos medalhados. Os generais descobriram uma forma de voltar ao Planalto e parecem não se importar com o custo. Exatamente porque quem vai pagar são os outros.

As polícias são a base eleitoral mais fiel de Bolsonaro. Quando essas polícias se tornam autônomas, o que acontece? Convém jamais esquecer que Eduardo Bolsonaro disse antes da eleição que “basta um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal”. Um senador é atingido por balas disparadas a partir de um grupo de policiais amotinados e o mesmo filho zerotrês, um deputado federal, um homem público, vai às redes sociais defender os policiais. Não adianta gritar que é um absurdo, é totalmente lógico. Os Bolsonaros têm projeto de poder e sabem o que estão fazendo. Para quem vive da insegurança e do medo promovidos pelo caos, o que pode gerar mais caos e medo do que policiais amotinados?

É possível fazer muitas críticas justas a Cid Gomes. É possível enxergar a dose de cálculo em qualquer ação num ano eleitoral. Mas é preciso reconhecer que ele compreendeu o que está em curso e foi para a rua enfrentar com o peito aberto um grupo de funcionários públicos que usavam a estrutura do Estado para aterrorizar a população, multiplicando o número de mortes diárias no Ceará.

A ação que envergonha, ao contrário, é a do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que, num estado em dificuldades, se submete à chantagem dos policiais e dá um aumento de quase 42% à categoria, enquanto outras estão em situação pior. É inaceitável que um homem público, responsável por tantos milhões de vidas de cidadãos, acredite que a chantagem vai parar depois que se aceita a primeira. Quem já foi ameaçado por policiais sabe que não há maior terror do que este, porque além de terem o Estado na mão, não há para quem pedir socorro.

Quando Bolsonaro tenta responsabilizar o governador Rui Costa (PT), da Bahia, pela morte do miliciano Adriano da Nóbrega, ele sabe muito bem a quem a polícia baiana obedece. Possivelmente não ao governador. A pergunta a se fazer é sempre quem são os maiores beneficiados pelo silenciamento do chefe do Escritório do Crime, um grupo de matadores profissionais a quem o filho do presidente, senador Flavio Bolsonaro, homenageou duas vezes e teria ido visitar na cadeia outras duas. Além, claro, de ter empregado parte da sua família no gabinete parlamentar.

Não sei se pegar uma retroescavadeira como fez o senador Cid Gomes é o melhor método, mas era necessário que alguém acordasse as pessoas lúcidas deste país para enfrentar o que está acontecendo antes que seja demasiado tarde. Longe de mim ser uma fã de Ciro Gomes, mas ele falou bem ao dizer: “Se você não tem a coragem de lutar, ao menos tenha a decência de respeitar quem luta”.

A hora de lutar está passando. O homem que planejava colocar bombas em quartéis para pressionar por melhores salários é hoje o presidente do Brasil, está cercado de generais, alguns deles da ativa, e é o ídolo dos policiais que se amotinam para impor seus interesses pela força. Estes policiais estão acostumados a matar em nome do Estado, mesmo na democracia, e a raramente responder pelos seus crimes. Eles estão por toda a parte, são armados e há muito já não obedecem ninguém.

Bolsonaro têm sua imagem estampada nos vídeos que conclamam a população a protestar contra o Congresso em 15 de março e que ele mesmo passou a divulgar por WhatsApp. Se você não acha que pegar uma retroescavadeira é a solução, melhor pensar logo em outra estratégia, porque já está acontecendo. E, não se iluda, nem você estará a salvo.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Brasil, Construtor de RuínasColuna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, meus desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.comEmail: elianebrum.coluna@gmail.comTwitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum/ Instagram: brumelianebrum

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O protesto de Arnaldo Antunes

Ex-membro dos Titãs, o cantor e compositor Arnaldo Antunes divulgou hoje um vídeo no Instagram em que diz estar “acionamento judicialmente” os responsáveis por utilizar uma música da banda para convocar a população para um ato contra o Congresso Nacional.

Trata-se da música “O Pulso”, gravada pelos Titãs para o álbum “Õ Blésq Blom”, de 1989. Veja o vídeo”

Curtam abaixo a música objeto da polêmica

Parabéns Arnaldo Antunes!

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Paciência é tudo. Vejam o vídeo


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Paciência: muito prazer!

Ela não está só. Em seu entorno orbita todos que, preocupados com o futuro, projetam superar obstáculos: aqueles, posto no caminho de todos que desejam a alegria no seu modo de viver!

Não se trata de aprender suportar calado os dissabores que tornam a vida menos agradável…

Muito menos de ver a infelicidade com o olhar dos conformados.

Na verdade, sua maior virtude é a capacidade de persistir diante das dificuldades postas…

É a perseverança diante de circunstâncias adversas…

É a calma para esperar o melhor momento de agir…

É não perder o foco.

Para ela, a resignação não tem o significado de submissão, pelo contrário, trata-se de compreender as circunstâncias antes da ação – é o esperar consciente.

Nestes termos: sejam bem vindos ao mundo dos pacientes!

Mimila K Rocha

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A sem-vergonhice agressiva do presidente propicia a união contra ele

A vergonha é uma tomada de consciência, um passo para a união; o Brasil não pode ser Bolsonaro

Por Mário Sérgio Conti

Lá veio ele. De terno xexelento e gravata brega. Erguendo os polegares a troco de nada. Articulando aos trancos e barrancos sujeito, verbo e predicado. 

Arreganhando os dentes numa risada maníaca. Ostentando a papada e o pescoção obscenos para os celulares da claque.

Outra manhã no portão do Alvorada. O cenário foi calculado para ser morfético: o chiqueirinho insolente para jornalistas, a canhestra coreografia de jagunços simiescos, o alvoroço dos bajuladores. O Mito sai do palácio com o script pronto.

Tanto que na terça-feira, sem que nada lhe fosse perguntado, e recorrendo a um aspone, ladrou suas cachorradas contra a repórter Patrícia Campos Mello. Aí fez uma cara de espertalhão que ganhou o dia, afixou a metálica risada-cicatriz na fuça e se mandou. Só a sua corja achou graça.

Mesmo que as patadas do presidente e seus asseclas sejam reiteradas diariamente, houve dessa vez um incômodo inusitado. A infâmia não foi tida por corriqueira. Como definir o embaraço que se espalhou por parte da opinião pública?

Houve por certo enjoo, cansaço, gente que de novo perguntasse: de que bueiro saiu esse cara? Mas sentiu-se outra coisa, um dissabor fugidio que pegou fundo, constrangimento, humilhação, repulsa. Salvo engano houve vergonha.

A vergonha é um sentimento tão evidente que fica difícil defini-lo. Talvez seja um meio termo entre pudor e culpa, mas se alimenta de ambos. 

Ocorre no íntimo da pessoa, mas vem de fora, diz respeito a como os outros a enxergam. Dá-se a ver no rubor e no gesto de cobrir o rosto com as mãos.

No Gênesis, Adão e Eva comem o fruto proibido e, ao acordarem, sentem vergonha pela primeira vez. A consciência do que fizeram os perturba. Têm vergonha da nudez e se cobrem com folhas. Envergonhados, são expulsos do Paraíso.

Vergonha vem do latim “Verecundia”, cujo plural é sinônimo de órgãos sexuais. Na sua carta, Pero Vaz de Caminha joga com os dois sentidos, contrapondo as vergonhas das índias à sem-vergonhice dos lusos:
“Moças bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas costas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha”.

A vergonha inexiste na infância. Crianças não se importam com a nudez, em urinar e defecar em público, em ter prazer com dejetos. A partir da puberdade, diz Freud, a vergonha é um dos mecanismos —como a timidez, o asco e o pudor— com os quais a cultura recalca a pulsão sexual dos indivíduos.

A vergonha dos brasileiros foi outra: a de ter um presidente sem noção. Que fala no Alvorada como num vestiário de caserna. Que se dirige a nós como se aos da sua laia. Que agride quem não é ignóbil como ele. Como reagir à torpeza cotidiana?

Carlo Ginzburg é um eminente historiador italiano. “O Queijo e os Vermes”, seu livro mais conhecido, inaugurou um gênero, o da micro-história. Tem 80 anos e a aura de um sábio.

Pois ele tem um ensaio contraintuitivo —inédito no Brasil e republicado há pouco na Inglaterra— no qual argumenta que a vergonha tem uma dimensão social e positiva. “O Vínculo da Vergonha” abre assim: “O país ao qual se pertence não é, como diz a retórica habitual, aquele que se ama, mas o do qual se tem vergonha.” Não que a vergonha seja uma escolha: “Ela desaba sobre nós, nos invade —nossos corpos, nossos sentimentos, nossos pensamentos— como uma doença repentina”.

Ginzburg busca suas raízes gregas. Para Aristóteles, ela é uma paixão, e não uma virtude. Em Homero, é um grito de guerra que atemoriza o inimigo: “Aidos!”, cujo sentido ecoa na expressão “Tenha vergonha na cara!”.

O decisivo, diz ele, é a dimensão coletiva da vergonha. A desonra que ela provoca serve de mola para vencê-la. 

Ela é uma reação ao perigo, um vínculo que congrega.

Daí que, na “Ilíada”, Nestor exorte seus soldados a ter “vergonha, a pensar nos filhos e esposas, nas posses e pais, vivos ou mortos: tenham coragem e não fujam da luta”. A vergonha é uma tomada de consciência, um passo para a união. O Brasil não pode ser Bolsonaro.

Foi o que ocorreu com o leitor Danilo Tucciarelli na carta que a Folha publicou. Ele pediu desculpas a Patrícia Campos Mello por ter votado em Bolsonaro, mas descobriu que o presidente é “um sujeito sujo e covarde”.

Conclui sua carta assim: “Tenho mãe, esposa, irmãs e, em breve, terei uma filha. E a última coisa que desejaria que acontecesse a elas é o que vem acontecendo com a jornalista.” A vergonha homérica está aí.

Publicado originalmente no Blog do autor: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/

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