Angustiante é não salvar vidas afirma o presidente argentino Alberto Fernandes

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Artistas estão vivendo retaliação do governo Bolsonaro por terem se posicionado contra sua postura anti-democrática

Um país se reconhece por sua identidade e sua arte, que entre muitos ganhos, também injeta autoestima em seu povo. Precisamos nos identificar enquanto nação, com toda a pluralidade que isso significa.

Cultura mais uma vez em defesa do óbvio

Por Inez Viana*

Numa das imagens tiradas pelo fotojornalista Evandro Teixeira, na passeata dos 100 mil, no dia 26 de junho de 1968, vemos um grupo de artistas e intelectuais de braços dados, na linha de frente, lutando pela democracia, quatro anos depois do golpe militar e antes da decretação do AI-5, em 13 de dezembro daquele mesmo ano. Podemos ver Gilberto Gil, Caetano Veloso, Dedé Veloso, José Celso Martinez Correa, Chico Buarque, entre outros, e também uma fila de atrizes, como Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara, Norma Bengell, entre outras, além de trabalhadores de diversas áreas e de estudantes, que lideraram a passeata.

O que me chama atenção, nessa foto, é que nesta época seria inimaginável um artista ser de extrema direita, estar do lado da ditadura militar ou algum sistema onde a liberdade de expressão fosse cerceada. Artistas, por sua natureza, são contestadores, favoráveis às diferenças, à inclusão. São solidários, tem a arte como religião, exercitam o respeito ao outro, querem o mundo livre de amarras e fronteiras. São assim os artistas populares, nosso patrimônio imaterial, que deveriam ter todo apoio e respeito da política pública, mas são tratados como supérfluos, como se a cultura não fosse fundamental nas nossas vidas.

Aliás, como bem defendia o escritor Ariano Suassuna, que construiu sua trajetória em defesa da arte e da cultura brasileira e para quem ela era missão, vocação e festa, a arte faz parte do nosso imaginário, muito antes dos portugueses invadirem nossas terras. Os indígenas sempre se manifestaram artisticamente e antes deles, havia as pinturas rupestres. No entanto, ele ressaltava também o preconceito e a desvalorização em relação aos artistas brasileiros, e que, infelizmente, perdura até hoje.

Não existe o verdadeiro crescimento das relações sem a diversidade, e quem deveria corroborar com essa ideia, é o primeiro que demonstra ser contrário a tudo que agrega, que soma, que dialoga, desqualificando o papel da cultura e, portanto, de seus artistas. Ainda candidato, o atual presidente da República, já havia começado uma campanha de demonização aos artistas, por terem muitas vezes se posicionado contra sua postura anti-democrática.

“Hoje mais que nunca, estamos vivendo, enquanto classe artística, uma retaliação de sua parte, que tem como dever governar para todos, independente de quem tenha votado contra ou a favor dele.”

A cultura, que até 2018 empregava cerca de cinco milhões de pessoas e gerava R$ 170 bilhões, o equivalente a 2,5% do Produto Interno Bruno (PIB), segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), teve cancelado editais logo no primeiro ano de mandato do presidente eleito, assim como extinto o seu Ministério, se transformando numa secretaria de cultura e indo parar dentro de outro Ministério, o do Turismo.

Um país se reconhece por sua identidade e sua arte, que entre muitos ganhos, também injeta autoestima em seu povo. Precisamos nos identificar enquanto nação, com toda a pluralidade que isso significa.

Os artistas, durante o confinamento em consequência do coronavírus, mesmo desprotegidos por um governo omisso, sem nenhuma ação que os contemplem, seguem promovendo a solidariedade, e, só para citar alguns movimentos, onde muitos deles estão ligados, existem a Associação dos Produtores de Teatro (APTR), o 342 Arte, o Artigo 5º, etc., onde, por meio de vídeos, pedem doações, que se transformam em cartões de alimentação e mantimentos, para outros artistas e técnicos que ficaram totalmente desprovidos de qualquer trabalho e sem saber quando poderão voltar a ocupar-se.

Volto a lembrar dos artistas, de braços dados, na foto da passeata dos 100 mil e me sinto honrada em pertencer a uma classe, que no meio de uma pandemia, onde já se atingiu a marca dos 15 mil mortos, segue na luta, se reinventa na internet com lives, cantorias, debates e consegue demonstrar empatia pelo outro, sentimento que passa bem longe do governante do nosso país e de sua secretária de Cultura, a ex-atriz Regina Duarte, que depois de 60 dias sem aparecer, desde sua posse, concedeu à CNN Brasil, no dia 7 de maio, uma catastrófica e vergonhosa entrevista, onde disse, entre outras coisas terríveis, que não queria arrastar um cemitério de mortos em suas costas, nem queria que sua secretaria se transformasse em obituário, por ter que lamentar oficialmente, como compete à uma secretária de cultura, as lamentáveis mortes dos artistas que brilhantemente contribuíram, com suas manifestações artísticas, o imaginário do Brasil

O valor da arte é incalculável. Ela nos propõe reflexões sobre a vida, nos dá discernimento, senso crítico, aguça nossa sensibilidade, nos entretém e deixa transbordar nossas emoções. A vida sem poesia seria muito triste.

Sem a arte, tudo seria muito mais difícil, e o mais impressionante, é que precisamos sair em sua defesa, mostrar sua importância, o tempo todo, como fazia o genial Ariano Suassuna. E, com certeza, se não tivesse se encantado, ficaria triste demais por ver a primeira Compadecida do audiovisual, virar uma inimiga da cultura que ele tanto prezava e protegia. Questionava: como deixar de lado essa cultura que é a expressão do nosso país e do nosso povo? E fazia um apelo: não deixem cair a chama da cultura brasileira.

Estamos tentando, Mestre.

*Inez Viana é atriz e diretora da Cia OmondÉ

Publicado originalmente no no portal Brasil de Fato

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História e canções da dupla Alvarenga e Ranchinho

Formada em 1929, a dupla sertaneja começou se apresentando em circos no interior paulista.

Em 1934 Alvarenga e Ranchinho foram contratados pelo maestro Breno Rossi para cantar na Rádio São Paulo. Nos anos seguintes fizeram músicas de carnaval e se mudaram para o Rio de Janeiro, onde gravaram o primeiro compacto, em 36. Trabalharam durante dez anos no Cassino da Urca, onde aprimoraram o talento para a sátira política, que os caracterizou para sempre. Em toda a carreira, a dupla se separou e voltou diversas vezes.



Participaram de mais de 30 filmes e eram presença constante em campanhas eleitorais, por causa das sátiras. Nos anos 70 se apresentaram principalmente em cidades do interior. Em 1997 a BMG lançou “Os Milionários do Riso”, reedição de um LP ao vivo gravado em 1973. A dupla era composta por Murilo Alvarenga (1912-1978) e Diésis dos Anjos Gaia (1913-1991).

dupla sertaneja Alvarenga e Ranchinho – Os Milionários do Riso, que fez muito sucesso nos anos 50/60/70, começou se apresentando em circos no interior do Estado de São Paulo.

Apresentavam-se sempre com o traje caipira, camisa xadrez, chapéu de palha e botas cano curto. Eles cantavam músicas de carnaval, faziam sátira política e de improviso um pouco mais apimentado.

Lembro-me das sátiras que eles faziam do presidente Juscelino. Tinha uma modinha que eles cantavam e na época fazia muito sucesso, era: “Vai voando Nonô… Você não desce… A barba cresce… Nonô, você não desce…”. Nonô era o apelido do presidente Juscelino.

Era uma dupla que tinha presença constante em campanhas eleitorais. Naqueles anos, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, com suas poderosas ondas, atingiam todo o território nacional. A dupla tinha um programa na rádio e se apresentavam também no famoso Cassino da Urca, no Rio de Janeiro.

Tem uma música, com letra composta por Alvarenga e Ranchinho, que faz parte da nossa querida São Paulo: “É São Paulo… É São Paulo… São Paulo da Garoa… São Paulo que terra boa…”.

O nome verdadeiro de Alvarenga era Murilo Alvarenga, e Ranchinho era Diesis dos Anjos Gaia. Essa dupla faz muita falta nos dias de hoje, para tirar sarro dos nossos políticos com suas modinhas.

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Cooperamos, ou não teremos futuro nenhum – opinião de Leonardo Boff

De aqui por diante devemos decidir: ou obedecemos à nossa natureza essencial, a cooperação, no nível pessoal, local, regional, nacional e mundial, mudando a forma de habitar a Casa Comum ou comecemos a nos preparar para o pior, num caminho sem retorno.

Se não ouvirmos a lição que a covid-19 nos está dando, podemos seguir o caminho de uma catástrofe maior ainda

Por Leonardo Boff

Uma pergunta sempre esteve presente nas buscas humanas: qual é a nossa essência específica? A história conhece inumeráveis respostas. Mas a mais contundente, convergência de várias ciências contemporâneas como a nova biologia evolucionária, a genética, as neurociências, a psicologia evolutiva, a cosmologia, a ecologia, a fenomenologia e outras é essa: a cooperação.

Michael Tomasello, considerado genial na área da psicologia do desenvolvimento de crianças de um a três anos, sem intervenção invasiva, reuniu num volume as melhores pesquisas na área sob o título Por Que Nós Cooperamos (Warum wir kooperieren, Berlim, Suhrkamp 2010). Em seu ensaio de abertura, afirma que a essência do humano está no “altruísmo” e na “cooperação”:

No altruísmo um se sacrifica pelo outro; é a empatia. Na cooperação, muitos se unem em vista de um bem comum.”

Uma das maiores especialistas em psicologia e evolução da Universidade de Stanford, Carol S. Dweck afirma também no livro:

“Mais que a grandeza excepcional de nosso cérebro e de nossa imensa capacidade de pensar, a nossa natureza essencial é esta: a aptidão de sermos seres de cooperação e de relação.” 

Outra, da mesma ciência, famosa por suas pesquisas empíricas, Elizabeth S. Spelke, de Harvard, assevera: nossa marca, por natureza, diferencial de qualquer outra espécie superior como a dos primatas (dos quais somos uma bifurcação) é “a nossa intencionalidade compartida” que propicia todas as formas de cooperação, de comunicação e de participação de tarefas e de objetivos comuns”. Ela caminha junto com a linguagem que é, essencialmente, social e cooperativa, traço específico dos humanos, como o entenderam os biólogos chilenos H.Maturana e F. Varela.

Outro, este neurobiólogo do conhecido Instituto Max Plank, Joachim Bauer, em seu livro O Gen Cooperativo (Das kooperative Gen, Hoffman und Campe, Hamburgo, 2008) e especialmente no livro Princípio Humanidade: Por Que Nós, por Natureza, Cooperamos (2006) sustenta a mesma tese: o ser humano é essencialmente um ser de cooperação. Refuta com veemência essa ideia o zoólogo inglês Richard Dawkins, autor do livro muito difundido O gene egoísta (1976/2004). Ele firma “que sua tese não possui nenhuma base empírica; ao contrário, representa o correlato do capitalismo dominante que assim parece legitimá-lo”.  Critica também a superficialidade de outro livro Deus, uma ilusão (2007).

No entanto, diz Bauer, é cientificamente verificado, que “os genes não são autônomos e de modo algum ‘egoístas’ mas se agregam com outros nas células da totalidade do organismo”(O Gene Cooperativo,184). Afirma mais ainda:

“Todos os sistemas vivos se caracterizam pela permanente cooperação e comunicação molecular para dentro e para fora.”

É notório pela bioantropologia que a espécie humana deixou para trás os primatas e virou ser humano, quando começou, de forma cooperativa, a recoletar e a comer, solidariamente, o que recolhia.

Uma das teses axiais da física quântica (W.Heisenberg) e da cosmogênese (B.Swimme) consiste em afirmar a cooperação e a relação de todos com todos. Tudo é relacionado e nada existe fora da relação. Todos cooperam uns com os outros para coevoluirem. Talvez a formulação mais bela foi encontrada pelo Papa Francisco em sua encíclica Laudato Sì: sobre o cuidado da Casa Comum:

Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs, numa peregrinação maravilhosa…que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe Terra.”

Um brasileiro, professor de filosofia da ciência na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em Vitória, Maurício Abdala, escreveu um convincente livro sobre O Princípio Cooperação na linha das reflexões acima referidas.

“Por que dizemos tudo isso? Para mostrar quão antinatural e perverso é o sistema imperante do capital com seu individualismo e sua competição sem nenhuma cooperação.É ele que está conduzindo a humanidade a um impasse fatal. Por essa lógica, o coronavírus nos teria contaminado e exterminado a todos. Foi a cooperação e a solidariedade de todos com todos que nos estão salvando.

De aqui por diante devemos decidir: ou obedecemos à nossa natureza essencial, a cooperação, no nível pessoal, local, regional, nacional e mundial, mudando a forma de habitar a Casa Comum ou comecemos a nos preparar para o pior, num caminho sem retorno.

Se não ouvirmos esta lição que a covid-19 nos está dando e voltarmos, com mais fúria ainda, ao que era antes, para recuperar o atraso, podemos estar na contagem regressiva de uma catástrofe ainda mais letal. Quem nos garante que não poderá ser o temido NBO (Next Big One), aquele próximo e derradeiro vírus avassalador e inatacável que porá fim à nossa espécie? Grandes nomes da ciência como Jacquard, de Duve, Rees, Lovelock e Chomsky entre outros nos advertem sobre esta emergência trágica. 

Lembro apenas as derradeiras palavras do velho Martin Heidegger em sua última entrevista ao Der Spiegel a ser publicada 15 anos após a sua morte, referindo-se à lógica suicida de nosso projeto técnico-científico: “Nur noch ein Gott kann uns retten” = “Somente um Deus nos poderá salvar”.

É o que espero e creio, pois, Deus se revelou como “o apaixonado amante da vida” (Sabedoria 11,24).

*Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e autor de “Opção Terra: a Solução da Terra não Cai do Céu”, Record 2009.

Publicado originalmente no portal Brasil de Fato. Acesse: https://www.brasildefato.com.br

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Conheça a história de Bella Ciao, música símbolo da resistência antifascista italiana

Bella Ciao” é mais uma daquelas canções de autoria popular que, por serem cantadas sempre em grupos em lugares onde os registros formais não existiam, perde-se a noção de quem um dia compôs a obra.

Alguns relatos indicam que sua primeira versão é conhecida como um canto que trabalhadoras rurais do norte da Itália (em geral provenientes da Emilia Romagna e de Vêneto) entoavam nas plantações de arroz no final do século XIX.

A letra em questão falava do sofrimento dessas mulheres em suas condições de trabalho, de moradia e sobrevivência naqueles tempos.

A sua interpretação mais conhecida, no entanto, é a que foi usada como símbolo da Resistência Italiana (ou partigiana) contra o fascismo durante a Segunda Guerra Mundial.

O movimento partigiano lutava em guerrilhas contra a ocupação da Itália pela Alemanha Nazista e também contra o poder do ditador Benito Mussolini.

Nesta versão da letra, “Bella Ciao” homenageia os soldados resistentes e a sua luta contra o fascismo.

A popularidade dessa canção voltou na metade do século XX com os festivais da juventude comunista que aconteceriam em vários lugares da Europa, e então acabou difundindo-se em manifestações operárias e estudantis do final da década de 60.

A primeira gravação de “Bella Ciao” é da cantora italiana Giovanna Daffini:

Antes da canção voltar à pauta popular devido à série La Casa de Papel da Netflix, “Bella Ciao” foi gravada por vários artistas em diversos lugares do mundo e em muitas línguas e interpretações, entre os mais populares.

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A receita medieval contra o coronavírus que mistura Jesus, cloroquina, sementes milagrosas, jejuns e orações

Tudo isso para dizer que quando os seguidores de Bolsonaro cantam misturando Jesus com a cloroquina, que mais do que um medicamento a estão transformando em um talismã religioso, ou em uma estratégia político-comercial, cometem um sacrilégio. Enquanto os pastores que oferecem sementes milagrosas ou os prefeitos que impõem semanas de jejuns e orações contra o perigo do coronavírus nos recuam para a Idade Média.

Por Juan Arias

O Brasil parece ser um daqueles países dos quais se conta nos romances que ficaram isolados na Idade Média sem saber que estamos no século XXI. Só assim se explica que, ao contrário do resto do mundo, tenta combater a pandemia de coronavírus com uma receita que mistura invocações a Jesus, cloroquina, sementes de feijão, orações e jejuns coletivos. Tudo parece bom, exceto seguir os passos da ciência e da medicina. O resultado de tudo isso é que já é o terceiro país do mundo com mais pessoas contaminadas pelo vírus e o sexto com mais mortes pela covid-19.

Os fanáticos sequazes do presidente Jair Bolsonaro, que continua acreditando que é apenas mais uma gripe e que morrer todos devemos morrer, cantam entusiasmados: “Cloroquina, lá do SUS, eu sei que tu me curas, em nome de Jesus”. Por sua vez, o pastor evangélico Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, vendia a 1.000 reais sementes de feijão abençoadas que, segundo ele, curam milagrosamente do coronavírus. Na cidade de Ladário, no Mato Grosso do Sul, o prefeito evangélico ordenou pelo menos 21 dias de jejum e orações contra a epidemia. Tudo menos seguir os conselhos da ciência.

Na esfera íntima as pessoas têm todo o direito de se apegar a qualquer coisa para se defender da angústia, exorcizar o medo e tentar salvar suas vidas. Não na esfera política e social em um país laico como o Brasil, onde não é possível desempoeirar as ideias medievais quando a Igreja ditava as leis para toda a sociedade e, ao mesmo tempo, combatia a ciência e a medicina.

Escrevi em outra coluna que o coronavírus se cura com a ciência, não com a religião. Milagres religiosos não devem entrar na esfera do Estado. É verdade que a fé, como dizem os Evangelhos, “pode mover montanhas”, mas não tem porque ser a fé religiosa. Existe uma força dentro de nós que, como a ciência moderna está descobrindo cada vez mais, pode nos curar de certas doenças. Mas os agnósticos e ateus também têm essa fé. Está dentro do ser humano.

Se confundir religião com o Estado era uma característica medieval, a descoberta de que existe uma força dentro da pessoa humana que é capaz de curar pertence à modernidade em que práticas laicas de meditação e autoconhecimento são cada vez mais aconselhadas. Às vezes somos nós mesmos que somos capazes de superar os limites da natureza sem a necessidade de um Deus fora de nós que, por seu capricho, cura alguns e deixa outros morrerem.

Uma coisa é o respeito que devemos ter por todas as experiências religiosas que o homem criou ao longo da história para exorcizar seus medos diante do mistério e outra é querer impor certas receitas milagrosas àqueles que não possuem essa fé. Eu tive uma experiência curiosa quando criança. Minha mãe era uma mulher com a fé simples do carvoeiro para quem Deus era familiar e bom, que nos ajudava nos momentos difíceis da adversidade. Isso a ajudou a suportar com grande integridade e serenidade a morte de minha irmã que, com 41 anos deixou cinco filhos pequenos. Eu podia não respeitar sua fé?

Ao contrário, meu pai, professor rural como ela, era agnóstico, mas com uma grande sensibilidade social, o que fazia que além de professor se transformasse em advogado e conselheiro daqueles camponeses analfabetos quando se encontravam com algum problema burocrático para resolver. Eram tempos de guerra e de fome e minha mãe lutava para poder dar um pedaço de pão com toucinho a mim e aos meus dois irmãos. Esses camponeses ficavam muito agradecidos e às vezes nos traziam meia dúzia de ovos ou uma galinha, um tesouro. Meu pai havia nos proibido de receber esses presentes porque dizia: “Eles tiram isso da boca para nos dar”. Às vezes minha mãe aceitava às escondidas alguns desses presentes. Meu pai a censurava com carinho: “Mas que cristã você é, Josefa!”.

Anos mais tarde, meus estudos de História das Religiões me ensinaram a distinguir entre a fé religiosa e a fé laica. Hoje a Igreja mais aberta e moderna começa inclusive a examinar com maior atenção os milagres que exige para canonizar alguém. Conheci um médico importante na Itália que havia trabalhado como consultor do Vaticano no exame dos milagres atribuídos aos santos. Ele havia tido uma crise de consciência. Disse-me que, como médico, via a grande maioria do que a Igreja chamava de milagres de Deus como algo que é possível realizar com a fé laica que nasce da nossa força como resultado de um forte desejo interno. Ele me contou que muitas das curas ocorridas, por exemplo, nas visitas aos santuários marianos, eram mais o resultado da força da fé pessoal sem necessidade da intervenção divina, que de outro modo seria racista ao curar alguns e deixar outros morrerem. Aquele médico me disse que nunca havia visto em tais lugares de culto ressuscitar um morto nem crescer um braço ou uma perna a um mutilado. As outras curas, disse, podiam ser o resultado da força pessoal de cada um. Quando os Evangelhos dizem que “quem tem fé é capaz de mover montanhas”, não têm porque se referir à fé religiosa. Basta a fé em nós mesmos, em nossa força interior, muitas vezes adormecida e que é capaz de realizar transformações consideradas como milagres religiosos.

Tudo isso para dizer que quando os seguidores de Bolsonaro cantam misturando Jesus com a cloroquina, que mais do que um medicamento a estão transformando em um talismã religioso, ou em uma estratégia político-comercial, cometem um sacrilégio. Enquanto os pastores que oferecem sementes milagrosas ou os prefeitos que impõem semanas de jejuns e orações contra o perigo do coronavírus nos recuam para a Idade Média.

Aos fariseus que para tentar Jesus lhe perguntaram se deviam pagar tributo a César, respondeu: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Isso nos lembra hoje que devemos saber distinguir entre a fé religiosa e a fé laica. Entre a religião, a ciência e a medicina. Todo o resto é superstição, atraso cultural, política rasteira e crime contra a modernidade.

Texto publicado originalmente no portal El País Brasil. Acesse: https://brasil.elpais.com

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A moça da janela

Debruçada no batente da janela ela olhava o horizonte com expectativa.

Abraçada ao vazio do tempo projetava a sua felicidade na mente fertilizada pelo imaginário,

Era como se num passo de mágica sua imaginação parasse o tempo, e o encanto se materializasse.

Seus olhos brilhavam e seu coração batia descompassadamente,

Sincronizados, distaciavam-se intencionalmente da razão.

Era como se a medida do tempo fosse insólita e o incomum passasse a vigorar na normalidade desejada.

A moça da janela sonhava com o amor perfeito…

Ele nunca apareceu.

Mimila K Rocha

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