O dinheiro, a política e suas consequências

 A crise política que assola o Brasil não é obra do acaso e não se estabeleceu em decorrência da rápida passagem da esquerda pelo poder central ocorrida neste curto período de frágil democracia no país. Ela é consequência de práticas equivocadas que se consolidaram ao longo da história do Brasil. Daí pode-se concluir que os hábitos estabeleceram um trajeto ruim para a política no Brasil. O pragmatismo na política não é objeto de tática de um ou de outro candidato, mas prática reiterada. Virou costume.

O fato é que a relação políticos/povo, povo/políticos, políticos/Estado, povo/Estado é marcadamente influenciada pelos costumes e não poderia ser diferente. No caso do Brasil, esse pragmatismo habitual resultou numa relação promíscua entre indivíduos/políticos, políticos/indivíduos, empresários/políticos, políticos/empresários que contaminou de forma comprometedora a forma de condução do poder. Definitivamente, o “toma-la-dá-cá” é uma “erva daninha” que precisa ser extirpada da política sob pena de comprometer de forma definitiva o desenvolvimento do país – caso prevaleça.

O primeiro passo e talvez o mais importante é a “desprivatização” do Estado brasileiro. Explico: o capitalismo sequestrou o Estado sem nenhuma preocupação com o desenvolvimento social desde seus primórdios até os dias atuais. E o instrumentalizou exclusivamente para satisfazer seus interesses. Nenhuma grande empresa consolidada no cenário econômico nacional firmou-se sem a benevolência da generosa máquina estatal brasileira. Há razões para tal diagnóstico: os empresários (“mercado”) compram agentes do Estado, principalmente a eleição de políticos influentes, e recebem em troca as benesses em forma de obras, serviços, isenção e perdão de tributos para com isso incrementar melhor seus negócios. O mercado faz do seu poder econômico – e como se sabe o dinheiro compra quase tudo – um instrumento eficaz para impor sua dinâmica aos que conduzem os negócios do Estado.

Sabidamente, a relação pragmática empresários/políticos, com base na força do dinheiro, tem um potencial danoso exponencial. Raros são os políticos eleitos sem o auxílio do capital. E o capital é predador. Por onde passa subtrai caráter, compra argumentos, desfaz sólidas relações centradas na solidariedade, explora as riquezas naturais e, como um turbilhão, deixa para trás as marcas desumanas próprias do caráter competidor.

Hoje vemos uma ação de parte do aparato estatal judiciário condenando os políticos, alguns merecidamente, mas em regra salvando os empresários. Em outras palavras, nota-se uma enorme facilidade para um aceite de delações de empresários e muito empecilho para concluir delações de políticos. É como se o capital fosse “santo” e os políticos o “demônio”. A força do dinheiro é avassaladora. O capitalismo age como a força das águas de um rio que, se represado, encontrará seu próprio caminho e seguirá em frente. Passará por cima ou arrastará tudo o que se colocar como obstáculo à sua trajetória.

A livre iniciativa (liberdade para ter mais), base da livre concorrência, aparece subliminarmente nas atitudes de alguns agentes, aqueles que por força do ordenamento jurídico recebem a outorga para investigar e julgar, como uma deusa intocável, a única ideologia capaz de “preservar” os interesses da sociedade. 

Salvar o capital, mesmo fazendo “vista grossa” aos seus desmandos virou um mantra, motivo de veneração. A tão “badalada” Lava Jato é o exemplo cristalino da hegemonia “inquestionável” desta forma liberal de ver a política.

Analisando os resultados das prisões efetivadas na citada operação, percebemos que o foco da ação dos seus agentes não é o sequestro que o capital fez da política, mas o contrário: é o pretenso “uso indevido” da força do capital pelos políticos, uma espécie de exploração empresarial para servir à política, como se isso fosse possível. Será ingenuidade? Ora! O que ocorre de fato é uma via de mão dupla, um vai e vem de conveniências, cuja essência é que para receber benefícios diversos do Estado, empresários financiam políticos promissores. Por isso que é equivocado perdoar empresários corruptores e condenar políticos corruptos com o argumento de salvar a política e o Estado. Atitudes com tais argumentos não passam de mera falácia, um discurso fácil como se fosse verdadeiro. Não há ingênuos nesta relação. 

De fato, o que acontece ao longo da história brasileira é o sequestro da política pelo capital, consequentemente de parcela significativa do Estado e não o contrário. Até mesmo porque a máxima marxista de que “quem controla o poder econômico determina os rumos da política” é uma verdade cada vez mais atual.

Nada mais urgente para salvar a política do que a libertação do Estado brasileiro das garras do capital. Essa empreitada só terá êxito se a política for capaz de incluir o povo nas decisões sobre os rumos do Estado, ampliar o acesso dos cidadãos a uma educação de qualidade e assim qualificar, consolidar e ampliar a participação democrática. E por intermédio de uma constituinte exclusiva e independente do capital e do corporativismo do Congresso fazer uma reforma política.

Deixar para o mercado a responsabilidade de regular, pela economia, a vida em sociedade, como diz o ditado, “É botar a raposa para tomar conta do galinheiro”.

João Antonio

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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Uma resposta para O dinheiro, a política e suas consequências

  1. Sizefredo silva sousa disse:

    Excelente reflexão.

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