Nada é impossível de mudar

“Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural.
Pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural.
Nada deve parecer impossível de mudar”
(Bertold Brecht)

Considerando a onda recente de crescimento da intolerância e de intransigência com relação a opiniões diferentes, atitudes, crenças, modo ser;

Considerando o crescimento de atitudes racistas em todo o mundo como forte repercussão no Brasil;

Considerando os constantes ataques dos defensores do mercado como regulador de tudo aos ideais do Estado Democrático de Bem-Estar social ou ao Estado Democrático de Direitos Fundamentais;

Considerando que no Brasil há uma crescente politização do Poder Judiciário e uma profunda judicialização da política com claros propósitos ideológicos;

Considerando as atividades persecutórias de alguns juízes com claros propósitos políticos;

Publico abaixo, para sua reflexão, poemas de Bertold Brecht e uma carta de Antônio Gramsci, figuras de relevo histórico e político que viveram o período de ascensão do “nazifascismo” na Alemanha e Itália, respectivamente. Qualquer semelhança com os tempos atuais, especialmente os tempos vividos no Brasil, não é mera coincidência.

Canção  (Bertold Brecht)

“Eles tem códigos e decretos.
Eles tem prisões e fortalezas.
(sem contar seus reformatórios!)
Eles tem carcereiros e juízes
que fazem o que mandam por trinta dinheiros.
Sim, e para que?
Será que eles pensam que nós, como eles,
seremos destruídos?
Seu fim será breve e eles hão de notar
que nada poderá ajudá-los.
Eles tem jornais e impressoras
para nos combater e amordaçar.
(sem contar seus estadistas!)
Eles tem professores e sacerdotes
que fazem o que mandam por trinta dinheiros.
Sim, e para que?
Será que precisam a verdade temer?
Seu fim será breve e eles hão de notar
que nada poderá ajudá-los.
Eles tem tanques e canhões,
granadas e metralhadoras
(sem contar seus cassetetes!)
Eles tem policia e soldados,
que por pouco dinheiro estão prontos a tudo.
Sim, e para que?
Terão inimigos tão fortes?
Eles pensam que podem parar,
a sua queda, na queda, impedir.
Um dia, e será para breve
verão que ainda poderá ajudá-los.
E de novo bem alto gritarão: Parem!
Pois nem dinheiro nem canhões
poderão mais salvá-los”.
————————————————————————————–

Quem é teu inimigo? (Bertold Brecht)

“O que tem fome e te rouba
o último pedaço de pão chama-o teu inimigo.
Mas não saltas ao pescoço
de teu ladrão que nunca teve fome”.
————————————————————————————–
Elogio Da Dialética (Bertold Brecht)

“A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas
Continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração:
Isto é apenas o meu começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.
Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes, falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? De nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe e o que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje”.
————————————————————————————-


Aos aflitos com as recentes condenações injustas, segue uma carta de Antônio Gramsci, não para confortá-los, mas como elemento comparativo de como na história o poder de Estado, a depender da vontade dos seus condutores, pode ser usado para perseguir aqueles que pensam diferente.

A carta abaixo foi escrita por Gramsci às vésperas de sua condenação pelo regime de Mussolini simplesmente por ser ele um dirigente do Partido Comunista Italiano.

Antonio Gramsci em Lettere dal Carcere

10 de maio de 1928

“(…) Minha querida Mãe, não queria repetir tudo que já, muitas vezes, escrevi para te tranquilizar sobre minha condições físicas e morais. Queria, para eu poder sossegar, que não te assustasses ou te perturbasses demasiado, qualquer que seja a condenação que estou para receber. Que compreendesses, com sentimento também, que eu sou um detido político e serei um condenado político, que não devo e nunca deverei envergonhar-me desta situação. Que, no fundo, a detenção e a condenação foram, em certo modo, procurada por mim, porque nunca quis mudar minhas opiniões, pelas quais estou pronto a dar minha vida e não só a ficar na prisão. Que por isso não posso senão estar tranquilo e contente de mim mesmo. Querida mãe, queria mesmo abraçar-te forte; forte para te fazer sentir quanto te amo e como queria consolar-te por esse desgosto que te dei: mas não podia agir de maneira diferente. A vida é assim, muito dura, e os filhos às vezes devem dar grandes dores às suas mães, se quiserem guardar a sua honra e a sua dignidade de homens.

Abraço-te com muita ternura,

                                                      Nino (esse era o apelido carinhoso dado a ele pela mãe)

Extraída do livro de Antonio Gramsci “A Cultura, Os Subalternos, A Educação” – tradução para o português/Portugal de Rita Ciotta Neves
————————————————————————————–
Por fim, para fechar este texto, que é uma mistura de combate político e ternura humana, arremata Bertold Brecht: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.

Boa reflexão!

João Antonio

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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4 respostas para Nada é impossível de mudar

    • Rosangela Lima disse:

      Suas palavras cairam como um bálsamo nestes dias tristes, que a beleza e magnitude da política vem sendo violentada. É preciso ter fé em Deus, nos Santos, nos Orixás e principalmente no homem que poderá com a política trazer os apolíticos para reflexão e mudar a história.

      Curtido por 1 pessoa

  1. Sizefredo silva sousa disse:

    Excelente reflexão e música também

    Curtido por 1 pessoa

  2. Leni Dominguesu disse:

    Infelizmente a grande maioria dos políticos nunca leram textos desta natureza.

    Curtido por 1 pessoa

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