É preciso saber existir

Por João Antonio

Quando projetamos o futuro, mesmo que quiséssemos, não conseguiríamos apagar o passado. Aquilo que vivemos, seja para o bem ou para o mal, acaba compondo um repertório que preenche os espaços vazios deixados quando há ausência de expectativas positivas. Neste caso, o que passou, mesmo não sendo bom, se faz presente e se projeta para o futuro. O novo briga com o velho o tempo todo e o eu fustiga o nós, e nesta disputa não há trégua; só existirá equilíbrio quando soubermos separar o principal do secundário.

Nas sociedades políticas – no sentido etimológico do termo política – um desafio premente que se coloca é: como equilibrar a individualidade própria de um querer subjetivo de homens e mulheres, com a necessidade ou, quase que uma dependência, do convívio em sociedade? Isso porque, nas sociedades de massas, o formato de convívio é, predominantemente, pactuado por regras morais e/ou normas jurídicas. Como um rio que vive oprimido pelas suas margens, o individualismo (liberdade como sinônimo de autonomia) também acaba sufocado pelas fortes margens impostas por regras comportamentais que o comprimem. Alguns até exageram, e em nome supremacia dos interesses comuns, pregam o sufocamento total da individualidade.

Na origem do termo, “autonomia” está relacionado com independência, liberdade e autossuficiência. Em termos filosóficos, autonomia é um conceito que determina a liberdade de indivíduo de gerir livremente a sua vida, efetuando suas próprias escolhas. É possível levar uma vida assim nos tempos contemporâneos?

Viver sozinho, ou seja, numa vida essencialmente individualizada, como escreveu Bauman, é sempre um desafio:

“A individualização traz, para um número crescente de homens e mulheres, uma liberdade sem precedentes para experimentar, também traz uma tarefa sem precedentes de lidar com suas consequências. A lacuna entre o direito à auto-afirmação e à capacidade de controlar os cenários sociais que tornam tal auto-afirmação exequível ou irrealista parece ser a principal contradição da ‘segunda modernidade’; uma contradição que precisaremos aprender a dominar coletivamente por meio de tentativas e erros, de reflexão crítica e experimentações corajosas”.

Motivações individualizadas impostas à sociedade – fazendo da competição entre os humanos um meio “normal” de progredir; ideologias de “raças ou gêneros superiores” e motivações econômicas como forma de controlar o Estado tem sido um mote dos liberais no exercício do poder.

Na outra ponta, a solidariedade entre homens e mulheres, a horizontalidade nas relações humanas, o amor entre as pessoas e a defesa da riqueza, fruto do trabalho humano, colocada serviço de todos, tem caído em desuso. Está em alta a supremacia da seleção natural dos melhores. “Esperteza” como meio de ludibriar tem sido sinônimo de competência individual para justificar “o ter mais”. Como cantou Caetano: “é a força da grana que ergue e destrói coisas belas…” É o capitalismo competitivo desumanizando as relações humanas.

Então, como dentro da razoabilidade, buscar um equilíbrio entre o “eu” e o “nós”? Para esse dilema não há uma única receita. O que se constata é que aqueles que conseguem estabelecer uma relação dialética – contrapondo a necessidade de reconhecerem a individualidade possível com a necessária vida harmoniosa em sociedade – alcançam parâmetros adequados para um viver em equilíbrio.

Falando de forma mais direta, a sociedade é composta de indivíduos com suas idiossincrasias e contradições, que por sua vez juntos formam uma coletividade. Esta, por mera necessidade, padroniza comportamentos pactuando regras de convivência harmoniosas. É certo que não há coletivo sem indivíduos, mas viver em sociedade foi o meio mais adequado que os indivíduos encontraram para um viver melhor. Por isso que nossos desafios futuros serão fazer com que a harmonia supere a competição humana; o amor vença o ódio; a igualdade supere desigualdade; a paz sufoque a guerra; a solidariedade se sobreponha ao egoísmo e que a riqueza – resultado do trabalho humano – esteja ao alcance de todos.

Feliz 2018!

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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7 respostas para É preciso saber existir

  1. Vania disse:

    Parabéns pelo texto João, ficou excelente!
    “Então, como dentro da razoabilidade, buscar um equilíbrio entre o “eu” e o “nós”?”
    Ainda acredito que o respeito pelas escolhas do próximo seja o melhor caminho.
    É preciso saber viver!!!
    Feliz 2018.

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  2. Sidnei Galdino disse:

    Belo texto, retrato fiel da nossa sociedade atual…

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  3. Márcio Ramos disse:

    Excelente reflexão companheiro. Que é 2018 seja mais um ano de luta contra o capitalismo.
    Que nossas atitudes, nas menores ações que seja, seja razoável com as nossas crenças por um mundo justo, fraterno, solidário e igualdade na chegada.

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  4. MarciaGomes disse:

    Boa reflexão para iniciarmos este novo ano.

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  5. Prof Gilson Menezes disse:

    Caro Mestre João Antonio, seu pensamento reflexivo materializado no presente texto, nos parece fruto de acontecimentos tão próximos que somos capazes de fazermos uma analogia entre o ontem e o hoje da nossa vida social-política que a história não se negará a contar em breve, a mudança que nos levou ao que hoje vivemos, retrata a força do individualismo sem base futurista e nos remonta a um individualismo fácil de se conduzir no aproveitamento dos seus próprios anseios, cujo a pauta é desassociada de qualquer compromisso, dessa forma, as vontades ficaram a mercê de uma arquitetura malévola de grupos que se aproveitando dessas vontades e fragilidades individuais, que não visavam transformações sociais, mas sim o implemento de projetos gananciosos, fomentaram no meio social a competição como forma de depurar o processo, induzindo ao pensamento de que os fracos ou desafortunados estavam atrapalhando o processo de crescimento social, logo, se fazia necessário o rompimento desse modelo que, aos olhos dos fomentadores da competição, não deveriam viver à reboque dos fortes, pois bem, o abismo cresceu e hoje a união deu lugar a essa competição insana, onde os sentimentos são subjugados pelos valores, sendo absolutamente tudo ocorrendo sob os olhos do capital, que é o verdadeiro interessado na manutenção dessa sistemática.
    Que a sua reflexão Mestre João Antonio seja um despertar para esse início de 2018!

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  6. Sônia Maria Corrêa Alves disse:

    Bom conteúdo. Ótimo para reflexão.

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  7. Mileide disse:

    Parabéns pelo texto!

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