A desqualificação intencional da linguagem

Por João Antonio

Depois de muito tempo inativo, o Blog “Traço de União” volta a funcionar. O texto que publico hoje é curto e direto: o pragmatismo na linguagem sacrifica o debate

O Brasil vive nos últimos tempos uma feroz polarização política. Sei que para os que defendem a pluralidade como essência da democracia, padronizar um tipo de linguagem para qualificar o debate político é impossível, impraticável e desaconselhável. Até porque, na política, os elementos empíricos, quase sempre, são decisivos na tomada das decisões. As razões para este pragmatismo são de fácil compreensão: os políticos buscam sua legitimidade no aceite popular e como diz o ditado, “político sem mandato nem o vento bate nas costas”. A dinâmica de sobrevivência dos políticos os leva a adotar a simulação e a dissimulação como mecanismos para encobrir possíveis falhas ou desvios. Todos que convivem com o dia-a-dia da política “toleram” uma certa dosagem de pragmatismo. Mas uma coisa é certa: exagerado pragmatismo na disputa pelo poder, em especial os exageros na simplificação da linguagem para se fazer “compreendido”, vem matando a profundidade necessária dos debates na atividade política brasileira.

Estas minhas curtas observações aqui expostas não seguem a lógica da ingenuidade. Ao contrário, procuram provocar os que sabem da importância da política, para estes, querendo, busquem um campo diferenciado de atuação para fazer com que a política cumpra com a sua principal função: estimular a composição das diferenças para que a coletividade possa, com urbanidade, viver em harmonia.

Quando falo aqui de pragmatismo, não estou opondo o empirismo a elaboração teórica. Entendo perfeitamente que teoria e práxis são dois elementos fundamentais do processo de elaboração, tanto no campo das ideias, quanto nas pesquisas científicas. De nada valem brilhantes ideias desconectadas da realidade. É claro que a academia tem uma importância estratégica em qualquer sociedade política, principalmente quando as suas produções filosófica e científica vão ao encontro da sociedade, fazendo da fonte do saber um instrumento dos indivíduos que se preocupam, pelo esforço coletivo e no reforço organizacional, conservar conquistas civilizatórias, aperfeiçoando-as e, ao mesmo tempo e de forma desapegada, descartar o velho que não mais serve aos tempos presentes.

Não se trata, portanto, da crítica ao “pragmatismo sem medida”, nem de estimular elaborações elitistas descoladas da realidade ou, por outro lado, desprezar as pesquisas cientificas, pois sem as grandes descobertas científicas não ocorreriam as grandes transformações. Desprezar as ciências ou banalizá-las, como está na moda ultimamente no Brasil, é um desserviço à humanidade. Por isso quero ir ao núcleo fulcral da crítica que faço neste texto, circunscrevendo-o aos exageros verbais dos pragmáticos sem conteúdo, com seus discursos poucos racionais e de fortes apelos emocionais que fazem de raciocínios simplificados uma narrativa com o fito de facilitar a “ apreensão” com claros objetivos de enganar ignorantes e arregimentar legiões de seguidores desavisados. A seguir alguns exemplos negativos de linguagens simplificadas:

O deputado paulista e o termo “vagabundos”:

Com que objetivo um deputado, da tribuna do parlamento, debatendo um assunto da mais alta importância – Previdência do funcionalismo – dirigi-se aos funcionários públicos em protesto nas galerias, chamando todos, indiscriminadamente, de “vagabundos”? Este termo (vagabundos) utilizado recentemente no parlamento paulista por um deputado “liberal”, que se autointitula conservador, é um exemplo claro de como, no afã de se fazer popular via Redes Sociais, de se tornar palatável a um seguimento da sociedade “avesso” à política e, por consequência, ao funcionalismo público de um modo geral, o representante popular rebaixa o debate a uma única palavra: “vagabundos”. Neste exemplo recente a linguagem propositadamente simplificada desviou o foco de um debate importante e necessário. Neste caso, estava em debate no parlamento paulista a situação econômica do Estado de São Paulo e o impacto dos custos previdenciários do funcionalismo em relação às finanças do Estado. A confusão generalizada provocada pelos insultos descabidos do deputado ocupou o centro do debate, tanto na grande mídia quando nas Redes Sociais. Nos dias que se sucederam à confusão o que houve foi uma secundarização do debate principal. Este fato em nada contribui para elevar o nível do debate sobre a matéria em questão mas, com certeza, serviu para aumentar o número de seguidores dos envolvidos na confusão.

“Você tem uma cara de homossexual terrível”:

Quando o presidente da República se dirige a um jornalista e diz: “Você tem uma cara de homossexual terrível”. Em se tratando de alguém que ocupa o mais alto cargo da República, para além de revelar falta de cuidado com as palavras, e até uma inaptidão para cargo e um preconceito inadmissível para com um setor da sociedade que que tem uma orientação sexual “diferente” (diferente?) da sua, traz embutido uma simplificação propositada da linguagem com um claro objetivo político de dialogar com uma histórica cultura machista impregnada em amplos setores da sociedade. No fundo, não se trata apenas de conservadorismo subjetivo, trata-se de um profundo desconhecimento da história da humanidade, permeada por um fundamentalismo religioso que nega a presença das variadas orientações sexuais em todas as fases históricas vividas pela humanidade. Aliás, onde há humanos vivendo em sociedades, inclusive nas igrejas, verificam-se orientações sexuais diversificadas. Isso é fato. Negá-la é como se quisesse tapar os olhos com uma peneira. Impossível! Mas, não há nada de ingenuidade na afirmação – “você tem uma cara de homossexual terrível”! – Aqui está presente um linguajar pragmático, com um claro objetivo de, pela desinformação, “arrebanhar” seguidores ignorantes com um propósito, neste caso, de se manter no poder.

Ministro da educação afirma que universidades são “madrassas de doutrinação” e que há extensa plantação de maconha em universidades:

Em um pronunciamento publico recente, o ministro da educação afirmou que as universidades são “madrassas de doutrinação” e tem plantações extensivas de maconha”. Veja o quanto palavras soltas lançadas ao vento, sem contextualizá-las, podem servir à desinformação intencional ou como meio de manipulação dos ignorantes. No exemplo posto, o responsável pela educação do país acusa a universidades de “escolas muçulmanas (madrassas) de doutrinação” para em seguida, na mesma entrevista, denunciar o plantio extenso de maconha nas universidades.

Para os desavisados que lêem a entrevista pode-se chegar a algumas conclusões. A primeira é que, nas universidades brasileiras, 100% dos professores são marxistas e que estão lá para “fazer as cabeças” dos alunos impondo um pensamento único. A própria realidade universitária desmente esta conclusão equivocada. Na realidade, a maioria do corpo acadêmico brasileiro é composto de liberais nas suas variadas matizes. Desde o nascedouro das universidades brasileiras, mesmo no período do império, a independência pedagógica das universidades era fator determinante para impedir que o poder político circunstancial pudesse instrumentalizar o ensino como ferramenta do poder. No fundo, o desejo do ministro é de transformar as escolas brasileiras em ferramentas do seu pensamento conservador e fundamentalista. Seu raciocínio é medir com sua régua o comportamento alheio. É jogar com senso comum desavisado, para através da desinformação, tornar a sua pretensão de controle autoritário uma possibilidade.

A outra afirmação do ministro, a de que “nas universidades há extensas plantações de maconha”, é difícil até de ser comentada. O que pretendeu o ministro? Ele quis falar contra os experimentos científicos em curso sobre o uso medicinal da canabidiol (maconha)? Neste caso é um contrassenso, é, pelo conservadorismo retrógrado, impedir os avanços da ciência em prol da saúde pública.

Mas o pior é que as afirmações do ministro estimulam todo um exército de ignorantes a combater as universidades como se elas fossem celeiros de traficantes. Vistas de todos os aspectos, tais afirmações prestam um desserviço à educação plural como ela tem que ser. O significado do nazismo para humanidade, o liberalismo nas suas várias versões, o marxismo original e suas vertentes mundo afora, as ditaduras de esquerda e de direita e suas consequências, filosofia e as ciências diversas (sociologia, matemática, política, botânica, geologia), enfim, escola não é lugar de pensamento único.

Voltando a termo central deste texto, quando aquele que devia zelar pelo futuro de uma educação plural, banaliza a linguagem como forma de manipular a opinião pública é porque a lógica pragmático atingiu patamares inaceitáveis.

É claro que os exemplos aqui citados de banalização do debate de temas complexos pela simplificação indevida da linguagem são poucos, em se tratando de um amplo universo de atrocidades que a política brasileira vem produzindo contras conquistas civilizatórias e os direitos fundamentais. 

Poderíamos citar aqui várias “pérolas” de um tipo de linguagem tosca que tem ganhado espaço em alguns instrumentos de desinformação social do tipo: “Bandido bom é bandido morto”, como se o direito à vida fosse apenas um detalhe. “Prefiro ter um filho morto em acidente a ter um filho homossexual”, banalizando a homofobia e incentivando a violência contra os gays. Enfim, nada mais prejudicial no ambiente político do que a despolitização consciente com o fito de controlar o poder.

O controle da informação e da desinformação intencional massificada são duas premissas básicas dos que desejam, pela sutileza, fazer os dominados assumirem as ideias dos dominadores com se suas fossem. Aliás, eu só acredito em democracia qualificada quando muitos podem livremente participar nas decisões dos rumos da política e, por consequência, dos destinos do Estado. Essa proeza só será possível com o acesso à educação sem preconceitos de nenhum tipo e com ensino plural valorizando a diversidade cultural do nosso país. Não sendo assim, estaremos contribuindo para alimentar prospectos de ditadores ou de populistas que fazem do seu egocentrismo um projeto de poder.

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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