Opinião de Celso Rocha Barros: AI-5 não teria milagre econômico

Ou a democracia corta as asas do autoritarismo ou morre crescendo 1% ao ano

Celso Rocha de Barros

Se entendi direito, no novo AI-5 o milagre econômico vai ser de só 1% ao ano e, em vez de Pelé brilhando no México, teremos Ronaldinho Gaúcho preso em Assunção. Não sei vocês, mas eu acho que já vendemos mais caro nossa democracia.

Ainda não há consenso entre os economistas sobre a causa do baixo crescimento. As várias escolas de pensamento ainda discutem se o fracasso foi causado pelo programa do Guedes, pela desorganização do Guedes ou pela inacreditável incapacidade do Guedes de escolher um candidato a presidente minimamente higiênico.

Quanto ao programa, deixo a discussão para os economistas. Acho que a maioria deles aceita que o Brasil precisava de ao menos alguns ajustes e reformas, mas há os que acham que, além disso, teria sido necessário estimular a economia de algum modo. O que parece claro é que as sucessivas promessas frustradas de “depois disso aqui, o crescimento” (impeachment, reforma trabalhistareforma da Previdência) prejudicaram a causa das reformas.

E há um vício de origem na proposta reformista. O plano era cortar gastos (o que reduz o crescimento no curto prazo) e promover o crescimento com as reformas. As reformas precisam ser negociadas politicamente, no Congresso e na sociedade. No projeto reformista, portanto, o essencial é todo feito pelos políticos.

Em um cenário como esse, seria de se esperar que se tivesse tomado o máximo cuidado na construção de uma coalizão política consistente. Em vez disso, a elite apostou que Temer não seria pego roubando e que Bolsonaro seria pego trabalhando.

Talvez valha a pena nos perguntarmos, como exercício acadêmico, se não teria sido melhor, já que se pretendia optar pela turbulência política, adotar uma política econômica “second best”, não tão boa quanto a mais desejável, mas, ao menos, factível. É só, repito, um exercício teórico. As apostas já foram feitas, o Brasil perdeu, o crescimento foi esse aí.

Por ter fracassado na economia, Bolsonaro pode ter que aceitar as regras do jogo e se tornar um presidente “normal”. Ou pode tentar acelerar o processo para destruir a democracia enquanto sua popularidade ainda não foi destruída pelo baixo crescimento.

Ao que tudo indica, Bolsonaro vai ao menos tentar a radicalização. Depois de mentir que não havia convocado seus seguidores para o Ustrapalooza do dia 15, Bolsonaro finalmente teve coragem de fazê-lo no último sábado (7) —em uma solenidade militar. Está, inclusive, mentindo para seus seguidores que o conflito sobre o Orçamento impositivo não foi resolvido com um acordo. Todo mundo sabe que foi. Mas admiti-lo diminuiria o entusiasmo golpista do dia 15. Enquanto isso, janta com Trump e diz que a união internacional da direita pode ser necessária “em um futuro próximo”. Se não fosse a epidemia do corona, essa viagem teria sido uma turnê populista por Itália, Hungria e Polônia. Parece ser um sujeito em processo de moderação?

Ou a democracia brasileira corta as asas do autoritarismo bolsonarista ou ela vai morrer, vai morrer melancólica, degenerada e crescendo 1% ao ano. E garanto o seguinte: os reformistas interessam a Bolsonaro porque são influentes na mídia, na elite e no Congresso. Quando tudo isso estiver no bolso do governo, o “Chicago Guy” e sua turma vão rodar.

Celso Rocha de Barros Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra).

Texto publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo em 9/03/2020. Acesse: https://www.folha.uol.com.br

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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