Keynes está de volta: o neoliberalismo derrotado pelo coronavírus

A teoria do “salve-se quem puder” dos economistas neoliberais foi arrasada pelo coronavírus. A sociedade e o Estado existem. São sempre imprescindíveis para as pessoas sobreviverem, e isso agora isto fica evidente em meio a uma pandemia atroz

Por Roberto Guillermo Pizarro Hofer

O Financial Times, um importante jornal liberal, porém inteligente, nos conta em seu editorial de 3 de abril:

“São necessárias reformas radicais para forjar uma sociedade que funcione para todos. A pandemia de coronavírus expôs a fragilidade da economia em muitos países”.

“A pandemia do covid-19 injetou um senso de solidariedade nas sociedades polarizadas. Mas o vírus e os fechamentos de negócios necessários para combatê-lo também lançam uma luz reveladora sobre as desigualdades existentes e até criam novas desigualdades”.

A crise econômica anunciada será tão grave quanto a conhecida durante a depressão da Década de 1930. Naquela época, a teoria econômica clássica, de natureza liberal, assim como seus defensores, falharam em responder a um sistema capitalista em decomposição. John Maynard Keynes teve que aparecer para salvá-lo. Keynes não era socialista, mas entendeu que os excessos do capitalismo eram consequência da ausência de regulamentação nos mercados, bem como da incapacidade de políticas públicas ortodoxas para enfrentar crises econômicas.

Keynes propôs aumentar os gastos públicos para estimular o investimento e diminuir o desemprego. Ele esperava que a intervenção estatal na economia pudesse moderar a crise capitalista. Ele argumentou que o desemprego se devia à demanda insuficiente e não a um desequilíbrio no mercado de trabalho. Assim, quando a demanda agregada se tornou insuficiente, as vendas diminuíram e o desemprego aumentou. Precisamente o que está acontecendo agora no Chile e em todo o mundo.

O presidente Roosevelt acreditava em Keynes e seguiu rigorosamente seu pensamento, ao instalar o New Deal para recuperar a economia americana da recessão. Seu segundo discurso de posse, em 1937, é muito sábio:

“O interesse próprio, egoísta, supunha uma moral ruim; agora sabemos que também levava a uma economia ruim”.

Naqueles anos, então, passou-se da economia liberal ruim para o modelo keynesiano, que propunha a intervenção do Estado nos mercados, por meio da queda nas taxas de juros, aumento dos gastos públicos, principalmente em investimentos em infraestrutura, para impulsionar a demanda efetiva; uma redistribuição ativa de renda; e, finalmente, uma política comercial protecionista para defender os empregos das indústrias nacionais.

O keynesianismo guiou o desenvolvimento da maioria dos países capitalistas no final da Segunda Guerra Mundial. Política fiscal progressiva, controle do mercado de capitais, transferências sociais significativas e um melhor equilíbrio entre capital e trabalho, não se traduziram em impactos negativos no crescimento econômico. Por outro lado, as economias e a produtividade se expandiram significativamente, enquanto as desigualdades diminuíram. Assim, se construiu o maior êxito social do Século XX: o Estado de bem-estar.

Infelizmente, a inflação e o aumento dos custos de produção nas Décadas de 1970 e 1980 enterraram o keynesianismo. Passaram a ser seguidos os conselhos dos economistas Friedrich Hayek e Milton Friedman: mercado selvagem em vez de um novo acordo de parceria. Com efeito, para conter a inflação, os Estados impuseram uma rigorosa disciplina fiscal e a elevação das taxas de juros, medidas que atingem os direitos sociais e as pequenas empresas. Ao mesmo tempo, os grandes empresários, para reduzir os custos de produção, apelaram para transferir indústrias para países com baixos salários, como no caso da China. Assim, os estados foram reduzidos, o 1% enriqueceu e as desigualdades adquiriram proporções sem precedentes.

Agora que o surto de codiv-19 se transformou em uma pandemia, o desastre da economia neoliberal começa com o colapso dos serviços públicos de saúde. E seguida pelo choque econômico e social, com a imensa quantidade de informalidade gerada por um sistema de mercado que favorece a especulação financeira, em vez de atividades produtivas. Junto com isso, há centenas de milhares de pequenos empresários que convivem diariamente com empréstimos impagáveis em bancos. Finalmente, estão os trabalhadores assalariados, que, no caso do Chile, têm um seguro de desemprego precário, que dura apenas seis meses.

O Financial Times, em seu editorial, também nos adverte:

“Os governos devem aceitar um papel mais ativo na economia. Eles devem ver os serviços públicos como um investimento, e não como uma chatice, e procurar maneiras de tornar o mercado de trabalho menos inseguro. A redistribuição (da riqueza) deve estar de volta à agenda; os privilégios dos ricos devem ser questionados. Políticas que até recentemente eram consideradas excêntricas, como salário mínimo e impostos sobre a riqueza, deveriam estar na pauta”.

Este é o caminho a percorrer. Não há outro. No Chile e no mundo inteiro, o neoliberalismo e seus economistas terão que ser enviados para a lata de lixo da história.

No curto prazo, a injeção maciça de liquidez na economia, com renda para trabalhadores assalariados e informais, além de empréstimos baratos para pequenos empreendedores, é a única receita possível. Você não pode mais acreditar no funcionamento automático e infalível dos mercados. A perplexidade das empresas privadas diante da crise colocou o Estado como o agente fundamental para restaurar o sistema econômico.

A médio prazo, a lição do coronavírus é inevitável. Direitos sociais universais em saúde, educação, moradia e pensões, concedidos pelo Estado. E, na esfera produtiva, transforme a matriz produtiva de atividades primárias em indústrias e outros bens e serviços que incorporam inteligência e tecnologia nos processos de transformação.

O neoliberalismo ficou sem argumentos teóricos para reverter a situação que estamos enfrentando. Keynes retorna em glória e majestade. Que os economistas que passaram anos defendendo essa injustiça entendam isso.

Roberto Guillermo Pizarro Hofer, economista chileno, consultor político socialista, ex ministro de Estado do presidente Eduardo Frei e ex rector de la Universid Academia de humanismo Cristiano do Chile.

*Publicado originalmente em ‘El Desconcierto‘ | Tradução de Victor Farinelli

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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2 respostas para Keynes está de volta: o neoliberalismo derrotado pelo coronavírus

    • A sociedade brasileira, mais de 50% de negros e pardos que ha séculos pagam a conta pelo abandono dos governantes , novamente abandonada
      Volta a pagar a conta , do que agora como antes com a vida pela falta de investimentos nas areas que jamais deveriam ter sido esquecidas, saude, saude, assistencia social, falta de emprego e salários dignos , fruto da roubalheira e da corrupção em todos os níveis da administração.
      Meu caro e competente Presidente do TCM, esta nas suas mãos a fiscalização severa e permanente nos gastos fo dinheiro nesse momento de crise institucional.
      O estado de calamidade, certamente sera utilizado pelos corruptos de plantão para superfaturar as compras dos insumos hospitalares, máscaras, álcool em gel , em fim os EPIS, imprescindíveis aos operários da saude ,fiscalize os sinais exteriores de riquezas dos funcionários responsáveis pelas compras quebrando o sigils bancários e telefônicos de compradores e Vendedores.ao final certamente estará recuperando os excessos para is cofres do município.

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