Zezinho e o seu melhor amigo – por Mimila K Rocha

Naquele dia ele acordou cedo. Olhou em sua volta, seus irmãos ainda dormiam e sua mãe já não estava mais: naquela hora, muito provavelmente, ela estivesse pronta para sua empreitada do dia: limpar a casa onde trabalhava como diarista.

No peito de Zezinho pulsava compassadamente um coração solidário e na sua imaginação uma esperança imprecisa, mas com uma certeza: o sorriso, marca registrada do seu jeito de ser, permaneceria inquebrantável.

A persistência, que sua mãe de pouca instrução formal entendia como teimosia, era pura resiliência – a vida não lhe apresentava facilidades.

Mas naquela manhã fria, ele desceu da sua beliche, ajustou a manta do seu irmão que ainda dormia – o do meio – para melhor aquecer os seus pés, em seguida, compartilhou com sua irmã caçula, o seu próprio cobertor, um gesto natural de expressar sua solidariedade – um cuidado de irmão mais velho.

Ansioso, ele não via a hora de calçar seu primeiro tênis de marca, presente de aniversário que sua mãe comprou com sacrifício – um ato de reconhecimento pelo seu bom comportamento. Aguardava com expectativa o anoitecer daquele sábado de junho: orgulhoso, estrearia seu novo tênis na quermesse da Igreja de São João Batista.

Alegre, esperou seu irmão – o do meio – acordar para contar que logo mais, ao anoitecer, na festa do padroeiro, ele iria poder compartilhar seu contentamento com Pedrinho, seu melhor amigo.

Pedrinho era com quem Zezinho brincava todas as tardes, quando não estava cuidando da casa e dos seus irmãos enquanto sua mãe trabalhava.

Mas naquele sábado seu peito pulsava um coração descompassado, ele estava em um estado transportado para fora de si – em êxtase. Afinal não é qualquer dia que se estreia um tênis de marca.

De repente, o inesperado: ouvem-se tiros, mais tiros!

Os agentes de Estado, que raramente apareciam naquela comunidade, invadiram a casa em que Pedrinho brincava. Alvejado pelas costas Pedrinho não teve tempo de se apresentar…

No dia seguinte, la estava Zezinho de tênis novo para abraçar pela ultima vez o seu melhor amigo.

Mimila K Rocha

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s