O debate sobre a palavra ”fascismo” toma um novo rumo

“…analogias fascistas servem, em última instância, aos centristas que tentam gerar medo na esquerda, pressionando os progressistas a se contentarem com escolhas políticas convenientes, exagerando a força de uma direita cambaleante.

Por Jennifer Szalai 

Na terça-feira da semana passada, quando policiais de todo o país adotaram táticas brutais em resposta a protestos pelo assassinato de George Floyd, o ex-secretário de trabalho Robert Reich anunciou que seu antigo vocabulário – já cheio de palavras duras para o presidente Trump – estava abrindo caminho para uma nova adição.

“Eu adiei o uso da palavra “f” por três anos e meio, mas não há mais nenhuma alternativa honesta”, tuitou Reich. “Trump é fascista e está promovendo o fascismo na América.”

Reich não estava sozinho. Até a semana passada, a jornalista Masha Gessen também era cética. Gessen acabara de publicar “Surviving Autocracy” [Sobrevivendo à Autocracia], que lista “fascismo” entre as palavras que, repentinamente, mudam de curso, na conversa política americana, sem a necessária precisão. No dia seguinte à data de publicação do livro, Gessen escreveu um pequeno ensaio para o The New Yorker comentando o que significava quando o presidente – apaixonado por desfiles militares e homens mascarados em trajes de combate – disse aos governadores para reprimir os manifestantes. “Seja ele capaz de entender o conceito, ou não”, escreveu Gessen, “Trump está executando fascismo”.

Foi uma virada notável. A palavra fascismo é tão carregada, que mesmo alguns dos detratores mais vociferantes do presidente há muito relutam em usá-la. Derivado do italiano, com significado de “feixe” ou “grupo”, o fascismo nasceu no final da Primeira Guerra Mundial na Itália, adotado pelos nazistas na Alemanha, e logo se tornou um epíteto tão difundido que George Orwell decidiu que o sinônimo mais próximo “desta palavra tão abusada” era “valentão”. Desde que Trump se tornou o porta-estandarte do Partido Republicano em 2016, o termo foi colocado em circulação e depois descartado por ser extremo demais e alarmista demais, historicamente específico demais, ou ainda, retoricamente vago demais.

Alguns observadores contra-argumentaram que seria imprudente anular a possibilidade de uma escorregada nacional ao fascismo, mesmo que, nos primeiros anos da presidência de Trump, fosse muito cedo para dizê-lo. Vários livros publicados em 2017 e 2018 diziam, essencialmente, para os norte-americanos ficarem atentos. Os slogans de mão fechada, o racismo bruto, o nacionalismo exuberante, a corrupção venal – tudo isso poderia servir de base para o que o historiador Timothy Snyder, em “On Tyranny” [Sobre a Tirania] (que foi seguido, uma no mais tarde, por com “The Road to Unfreedom“, “Na Contramão da Liberdade”), chamasse de “um tipo confuso e cínico de oligarquia fascista”.

Até as críticas positivas aos livros de Snyder exalaram certo desconforto com suas conclusões, julgando-as tão impensáveis que eram “certamente” exageradas e “excessivas”. Mas quando Jason Stanley, professor de filosofia de Yale, publicou “How Fascism Works” [Como Funciona o Fascismo] em 2018, ele sugeriu que, não estar preocupado o suficiente, era um sinal preocupante. A retórica de Trump era alarmante, sim, mas seu governo também separava os filhos migrantes de seus pais e os colocava em centros de detenção que estavam escondidos da vista do público. Stanley os comparou aos campos de concentração na Alemanha na década de 1930.

“A palavra ‘fascista’ adquiriu um sentimento extremo, como lobo chorando”, escreve Stanley – não porque as táticas fascistas sejam estranhas aos norte-americanos, mas porque estamos ficando conformados com elas. “A normalização da ideologia fascista, por definição, faria as acusações de ‘fascismo’ parecerem uma reação exagerada”. Nossos sentidos foram entorpecidos pela exposição. 

Os Estados Unidos têm uma longa história de sentimentos pró ou protofascistas, incluindo o terrorismo da Ku Klux Klan, o movimento America First, dos anos entre guerras, e as leis de Jim Crow, que Adolf Hitler citou como inspiração. “O fascismo não é uma nova ameaça”, escreve Stanley, “mas sim uma tentação permanente”.

Escrevendo na New York Review of Books no mês passado, o historiador Samuel Moyn discordou do livro de Stanley e das analogias do fascismo em geral. O argumento de Moyn, do mesmo modo que um artigo de opinião recente de Ross Douthat no Times, baseia-se em uma premissa direta: se o presidente estivesse realmente interessado em esmagar a democracia e impor uma ditadura, uma pandemia global deveria ter dado a ele a oportunidade ideal. Trump, eles argumentam, optou por não fazer basicamente nada. “Certamente é material inspirador para algum ironista futuro que, após a nossa fase de temer as ações de Trump”, escreve Moyn, “ele pareça destinado, pela pandemia atual, a entrar na história pelo pecado pior da inação”.

É verdade que Trump até agora não demonstrou interesse no tipo de ação científica, colaborativa e meticulosa, que teria a chance de deter uma crise de saúde pública. Mas a observação de que Trump estava desperdiçando uma chance de consolidar poder parece assumir uma compreensão particular do poder, mais em sintonia com a escassez de máscaras N95, do que encantada com helicópteros e projéteis de pimenta. Ela também minimizou o que o presidente fez durante a pandemia, como restringir ainda mais a imigração e alimentar ataques contra asiáticos-americanos, insistindo no termo “vírus chinês”. Sem mencionar que o momento para o ensaio de Moyn foi infeliz; foi publicado em 19 de maio, quase duas semanas antes da ligação de Trump aos governadores, ameaçando enviar as forças armadas se não “dominassem” os manifestantes que pediam o fim da brutalidade policial. Essa ligação aconteceu no mesmo dia em que os manifestantes foram atacados com gás lacrimogêneo para que o presidente pudesse posar em frente a uma igreja.

Mas a crítica às analogias do fascismo é mais profunda do que aquilo que Trump diz ou faz. Moyn sugere que chamar de fascismo inibe a percepção de até que ponto Trump é uma criatura completamente norte-americana, além de exonerar a podridão do establishment que permitiu seu florescimento, em primeiro lugar. Corey Robin, em uma edição atualizada de seu livro “The Reactionary Mind“, [A Mente Reacionário] argumentou algo semelhante. Tanto Robin quanto Moyn parecem animados por uma suspeita semelhante – que analogias fascistas servem, em última instância, aos centristas que tentam gerar medo na esquerda, pressionando os progressistas a se contentarem com escolhas políticas convenientes, exagerando a força de uma direita cambaleante.

Robin cita um clássico moderno do historiador Robert O. Paxton, “The Anatomy of Fascism” [“A Anatomia do Fascismo”], para atestar que o que tornou o fascismo de Mussolini e Hitler tão potente foi sua juventude e sua novidade, uma vantagem abandonada por um Trump desajeitado e nostálgico. Mas um dos aspectos mais marcantes do livro de Paxton, publicado em 2004, é a grande atenção que ele presta às circunstâncias que permitiram o surgimento do fascismo no início do século XX e seu subsequente aumento.

Paxton não estava trabalhando nas mesmas condições que os escritores atuais, que se envolvem em debates sem fim sobre se Trump é ou não fascista. Historicamente, os movimentos fascistas endurecem-se em regimes fascistas quando lhes é oferecida a oportunidade, pelas elites conservadoras enfraquecidas, que ao tentarem se manter no poder, recorrem a um estranho para desordenar a base. Foi só depois que os nazistas começaram a perder o apoio eleitoral que Hitler fechou um acordo nos bastidores para ser nomeado chanceler. Como um vampiro, Hitler teve que ser convidado para entrar em casa.

E talvez seja revelador que os norte-americanos estejam tradicionalmente tão preocupados com um cenário de pesadelo que tenha “a cobertura do fascismo europeu sobre ele”, como Gerald Early disse recentemente na revista The Common Reader. Early refletia sobre o romancista Sinclair Lewis, cuja representação fictícia do nazismo nos Estados Unidos – “com toda a sua brutal e arbitrária violência, vigilância do estado policial e encarceramento inflexível” – apresentava mais do que uma semelhança passageira com a realidade histórica da escravidão norte-americana.

Lewis tinha uma “profunda consciência da raça na América” e, provavelmente, estava pensando ironicamente quando decidiu chamar seu romance de 1935 de “It Can’t Happen Here” [“Não pode acontecer aqui”], escreve Early. “Ele sabia, como qualquer norte-americano consciente, que já tinha acontecido.”

*Publicado originalmente em ‘The New York Times‘ | Tradução de César Locatelli

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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