Sobre a política externa brasileira – Estamos sem rumo, sem aliados e sem interlocutores

A escolha por parte da dupla Ernesto Araújo-Eduardo Bolsonaro dos parceiros a serem cultivados se baseia nos governos, e não nos Estados propriamente —algo muito arriscado, pois as parcerias externas se dão no longo prazo, e os governos são transitórios. Em termos diplomáticos, isso mina profundamente a imagem da diplomacia brasileira em face de atores externos.

O preço de uma política externa perdida

Por Miriam Gomes Saraiva e
Paulo Afonso Monteiro Velasco Junior

A postura errática e inconsequente do governo brasileiro traz perdas significativas em termos de inserção internacional. A primeira delas é o isolamento do Brasil no mundo: a política externa de Jair Bolsonaro vem sucessivamente minando os laços e a confiança mútua construídos historicamente pela diplomacia brasileira com diferentes parceiros.

Desde 2019, o país se afastou dos vizinhos e da América Latina em geral e abandonou os projetos de cooperação “sul-sul”, notadamente com países africanos. Com a China, alterna ações positivas no campo de comércio e investimentos com agressões oficiais desnecessárias.

Em relação aos países europeus (e à União Europeia, apesar do acordo), criou atritos com a França, a Alemanha e a Noruega em particular, e tem se afastado desses países nas votações em organismos internacionais. Os votos brasileiros têm estado em consonância com uma absoluta minoria composta por países sob governos ultranacionalistas e até de extrema direita.

A escolha por parte da dupla Ernesto Araújo-Eduardo Bolsonaro dos parceiros a serem cultivados se baseia nos governos, e não nos Estados propriamente —algo muito arriscado, pois as parcerias externas se dão no longo prazo, e os governos são transitórios. Em termos diplomáticos, isso mina profundamente a imagem da diplomacia brasileira em face de atores externos.

Também como consequência negativa está a diminuição do alcance e da visibilidade do país sobre as distintas agendas da política internacional. Historicamente, de diferentes formas, o Brasil apresentou-se como um ator que intermediava o Norte com o Sul, desempenhando a função de “país ponte”. Através de diversas táticas, exercia um papel de formulador e/ou aglutinador de ideias em organizações multilaterais. Embora esse comportamento viesse já se perdendo nos governos de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB), era mais como uma retração temporária. Com Bolsonaro está havendo um claro abandono desse papel. Os votos negacionistas e minoritários nas instituições das Nações Unidas abalam a confiança no Brasil e minam a sua tradicional postura de articulador de consensos. A atuação na Conferência do Clima de Madrid, em dezembro de 2019, quase bloqueando um acordo final, certamente será lembrada.

No contexto da pandemia, o governo brasileiro não tem conseguido atender às demandas domésticas por insumos médicos para afrontar a doença. Apesar das dificuldades vivenciadas por todos os países em termos gerais, o Brasil não conta com a boa vontade de nenhum parceiro. A China não concede nenhuma facilidade para a transferência (ou mesmo venda pura e simples) de material de combate à pandemia. O suposto aliado principal, os Estados Unidos, tem um governo orientado para os interesses próprios e já bloqueou o envio de respiradores comprados da China para o Brasil. A propagada aliança é de mão única, do presidente Bolsonaro para fora.

Países vizinhos demonstram preocupação com a expansão do vírus no Brasil e buscam dar as costas. Na crise sanitária, o país está sem rumo, sem aliados e sem interlocutores, sob um governo que despreza as velhas tradições de política externa e se afasta de iniciativas multilaterais para enfrentar a pandemia.

O chanceler que suceder a Ernesto Araújo terá um enorme trabalho para recompor as relações do Brasil com diversos parceiros e para resgatar a credibilidade do país nas organizações internacionais.

adoção de posições míopes e tacanhas em momento tão crítico trará consequências duradouras que, no mundo pós-pandemia, significarão a redução dos espaços e das oportunidades para o Brasil.

Não se trata mais apenas de uma ênfase ideológica no Itamaraty, mas de uma política externa que atenta contra os interesses do país, queimando pontes que demoraram décadas para serem construídas.

Miriam Gomes Saraiva é professora titular do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)

Paulo Afonso Monteiro Velasco Junior é professor-adjunto de Relações Internacionais da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse:

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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