Amor à família é álibi perfeito – Vera Iaconelli

Sem o amor, a indiferença correria solta e teríamos milhares de mortes desnecessárias, fruto de nosso profundo desinteresse pelos demais. Estaríamos passeando pelas ruas sem máscara ou pedindo a volta da ditadura, matando crianças por ação ou omissão e outras formas de horror à vida.

A lógica bolsonarista revela o típico amor da elite brasileira

Por Vera Iaconelli

O amor, grosso modo, é a solução que nós humanos criamos para suportar uns aos outros, criar uma sociedade e, com isso, garantir nossa sobrevivência. O que pode parecer altruísmo e elevada espiritualidade revela-se estratégia vital ancorada em uma manobra narcísica. Amo antes de tudo a mim mesmo e, quando passo a amar o outro é na esperança de que ele me ame também e não me elimine na primeira oportunidade.

Amar é demandar amor. “Eu te amo” pode ser uma das piores frases a se ouvir, quando a recíproca não é verdadeira, pois a expectativa que o outro nos impõe é enorme. Quando há reciprocidade, mal começa o coro de anjos e já tememos pelo seu fim –amantes não têm sossego mesmo!

Reza a lenda que o amor entre pais e filhos é garantido e o fato de não termos uma palavra que nomearia o status de pessoas que desistiram dos filhos mostra nossa dificuldade em pensar a questão. Não deixa de ser verdade que, por ser dos laços mais narcisistas –posto que a descendência alimenta nossa fantasia de continuidade–, o amor filial costuma ser dos mais insistentes mesmo. Exemplos de relações parentais fracassadas abundam, embora tendam a ser ignorados ou patologizados.

Quanto aos amores de casais, viúvos e viúvas têm o “péssimo hábito” de casarem novamente, deixando a amarga sensação de que seríamos substituíveis. Filhos, por sua vez, estão condenados a elaborar as primeiras e fundamentais relações amorosas e, portanto, têm mais dificuldade em se livrarem da onipresença parental. São anos de análise tentando fazê-lo.

Ao reconhecermos que os laços amorosos são trabalhosamente construídos, só podemos concluir que são potencialmente destruíveis. Responsável pela igualmente necessária separação entre nós, o ódio vem antes do amor, que dele decorre. A relação dialética entre amor e ódio permite que tenhamos encontros significativos, mantendo a sanidade da separação. Segundo Lacan, o amor seria dos mais belos sintomas, quer dizer, o inventamos para tentar dar conta do desamparo fundamental, que nos fez depender desesperadamente do outro.

Por meio do amor obtemos o reconhecimento e a proteção necessários para nos tornamos humanos; a satisfação erótica e sexual; as relações de amizade e a chance de nos reinventarmos a partir do encontro com a alteridade. Feito para nos proteger uns dos outros, acaba por mostrar-se melhor do que a encomenda, quando nos faz superar nossa mesquinhez ordinária e se transforma em solidariedade.

Sem ele, a indiferença correria solta e teríamos milhares de mortes desnecessárias, fruto de nosso profundo desinteresse pelos demais. Estaríamos passeando pelas ruas sem máscara ou pedindo a volta da ditadura, matando crianças por ação ou omissão e outras formas de horror à vida.

É claro que sempre podemos alegar que amamos nossa família –costuma ser verdade–, mas isso só serve como álibi. O amor que se resume aos nossos familiares e iguais e que despreza os laços sociais e os desconhecidos revela-se fracassado de saída.

O amor que recebemos ao longo da infância precisa ir muito além do privado. Partindo de nós mesmos deve ir em direção aos pais/cuidadores; da família em direção à comunidade; e da comunidade em direção a toda humanidade e, porque não, a todas as formas de vida. Sem a passagem do amor filial para o social mais amplo, cada família se torna um pequeno “bunker” a se proteger das demais, em estado de permanente guerra.

O Brasil padece de famílias “Bolsonaro”, protetoras dos seus e destruidora dos demais.

Vera Iaconelli é diretora do Instituto Gerar, autora de “O Mal-estar na Maternidade” e “Criar Filhos no Século XXI”. É doutora em psicologia pela USP.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo.

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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