O interruptor de luz – crônica de Gabriel Chalita

 O interruptor de luz

Por Gabriel Chalita

Onofre é, às vezes, desajeitado. É dele essas responsabilidades. Não sou eu quem tem que cuidar da elétrica da casa, já basta cuidar da elétrica da vida. A família toda vive a me clamar por entusiasmos. Saiu cada um de um jeito. Os filhos, às vezes, se dão; às vezes, não. Brigam por estranhamentos tão bobos que fico pedindo ao tempo que amadureçam logo.

Acho que o tempo está sem tempo de me ouvir. Os filhos já têm os próprios filhos que, por vezes, parecem mais maduros que os pais. Minha única filha se acha no direito de mandar nos irmãos. Ora essa, ninguém tem que mandar em ninguém. E ela justifica o elevado tom de voz repleto de indelicadezas, porque se preocupa, porque ama. Discordo, o amor é ou silencioso ou delicado.

Bendito interruptor de luz que não funciona! Agora, é sempre dia por aqui. A luz não se apaga. Não que eu não goste do dia. Gosto. Mas gosto também das pausas. A noite traz um silêncio reconciliador. Os sons são outros. O som do silêncio em que as vozes descansam. O som do escuro em que os sonhos se voltam para dentro. E, depois, novamente o dia, e seu acordar exigente.  Mas, sem o interruptor de luz, a luz fica, incansavelmente, na minha mente me fazendo o que me faz minha filha, quando grita comigo. Ela gosta de me lembrar dos detalhes que doeram, por alguma razão. Se os dias foram de sol, ela insiste em um deles, de que nem me lembro, em que o frio foi mais forte do que nossas cobertas.

Ela se cobre de desculpas para não ser feliz. Decidiu que eu sempre amei mais os seus irmãos. E, por isso, os estraguei. Dia desses, concordei. Há momentos em que nadar contra as águas deixa de fortalecer a alma e se torna tedioso. 

Disse ao Onofre que, ao menos, colocasse algum pano sobre a lâmpada. Disse ele que não se importa da luz que nunca se apaga. Diante de resposta tão sem pensamento, eu disse nada. Aprendi isso com minha mãe. Nem ela nem eu tivemos o prazer do estudo. Ela estudou nada; eu, até as primeiras séries. A vida dura de antes nos roubou esses deleites. Como eu invejava os que andavam com livros e cadernos entrando e saindo da escola!

Tive que trabalhar. O meu único irmão sofreu um acidente e se fez nosso até os seus últimos dias. Meu pai, não conheci. Não sou de me fazer escrava de pensamento dorido. Mas tem dia que teimo em ficar vendo só o passado. Aí tenho que ter uma conversa séria comigo mesma para que eu lembre que vivo no presente e que tenho muito o que agradecer. 

Fica difícil descansar com essa luz que não se apaga. Minha mãe dizia que umas coisas era melhor não saber. Que, quando se sabia, não se conseguia mais deixar de saber.

Meu filho mais velho trata a mulher com muito amor, disso sou testemunha. A Anete, irmã do Onofre, tem mania de tomar conta da vida que não é sua. Esses dias, ela me falou que alguém disse para ela que alguém viu o meu filho se engraçando com outra mulher. Ouvi quieta, limpando o feijão. Gosto de fazer isso, separar o que alimenta do que é sujeira. Ela disse que ela mesma falaria com minha nora para que ela tomasse cuidado. Foi quando perdi a paciência e disse a ela que ela nada iria dizer. Pra que atormentar a cabeça de alguém? Ela tentou explicar, “E se for verdade”? E eu lancei, “E se não for”?

Que essa luz incomoda, incomoda. Os pensamentos também incomodam, se não conseguimos limpar. É como feijão, você compra tudo junto, o feijão e o que não se pode comer. Tem que ter calma. Tem que ir separando o bom do resto. Quando dou de pensar em coisa ruim, eu logo me lembro de que tem coisa boa.

Minha única neta tem meu nome. É filha do meu filho mais novo. Andrea é um bonito nome. Alguém me disse que significa coragem. Onofre estava junto e concordou. Ele tem o costume de concordar. Às vezes, podia ter um pouquinho mais de ação. Seria bom pra todo mundo.

Bem, melhor eu dizer nada, estamos casados há quase 50 anos e tem dado certo. Nem a luz que não se apaga, por causa do interruptor que ele não consertou, é capaz de mostrar alguma imagem de uma vida separados. 

E para os casais que dizem que com o tempo fica só a boa companhia, eu rio para dentro. Aqui continuamos permitindo que o desejo nos faça um. Se digo essas coisas por aí, ele faz ar de sonso, mas gosta. E, assim, vamos vivendo os nossos melhores dias. 

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, escritor, professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo. 

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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