Documentário “Narciso de Férias” de Renato Terra e Ricardo Calil fala da prisão de Caetano Veloso na ditadura militar

‘Narciso em Férias’ traz relatos inéditos do artista sobre a ditadura militar brasileira e serve de alerta para tempos atuais”

Caetano Veloso, documentário

Caetano Veloso em cena do documentário ‘Narciso em Férias’, de Renato Terra e Ricardo Calil – Reprodução/Divulgação

Caetano de batom desafiou mais a ditadura do que a militância crua

Por Lucas PedrettiHistoriador e doutorando em sociologia na UERJ. Foi pesquisador do documentário “Narciso em Férias”.

Em “Narciso em Férias”, de Renato Terra e Ricardo Calil, documentário sobre a prisão de Caetano Veloso na ditadura militar, temos a oportunidade de ver a estupidez do arbítrio sendo confrontada pela genialidade de um gigante da cultura brasileira. É o que acontece quando Caetano lê trechos do processo movido pelo regime contra ele, documento que encontrei no Arquivo Nacional em abril de 2018.

Vendo novamente com o absurdo do autoritarismo, Caetano gargalha ao lembrar que foi obrigado a refutar as acusações de que fazia músicas de cunho “subversivo e desvirilizante”. Mas também parece sentir necessidade de fazer uma ressalva. “Eu estou rindo, mas é muito sério.”

Em nossas memórias sobre a ditadura brasileira, há a ideia de que haveria uma rígida cisão entre a repressão política e o controle dos comportamentos desviantes. Esta seria a face tosca do regime; aquela, a dimensão perigosa.

Mas o teor cômico esconde a gravidade de um regime que reprime não só seus críticos, mas também quaisquer comportamentos vistos como moralmente inadequados. Por isso, o alerta do autor de “Verdade Tropical” é mais do que válido.

A visão dos órgãos repressivos sobre Caetano Veloso é exemplar de um ponto que há tempos chama atenção dos historiadores –a divisão entre moral e política não cabe na análise do período. Ambos os aspectos eram partes igualmente importantes na visão de mundo autoritária e conservadora dos militares.

O trecho que faz Caetano rir é só um dos registros acumulados pela Comissão Sumária de Investigações do Exército, órgão que conduziu a investigação. Como é típico da lógica autoritária, o relatório mostra que primeiro os militares decidiram que o artista era culpado. Em seguida, foram buscar as provas.

Sua prisão ocorre poucos dias depois do AI-5, motivada por uma notícia falsa, que afirmava que ele teria cantado o hino nacional em ritmo de tropicália.

Com o cantor preso, os órgãos repressivos começam a reunir as informações já acumuladas e chegam a uma lista dos “crimes” cometidos por ele. Dentre eles, estão apoiar um manifesto contra a censura em 1966 —documento de “cunho comunista” e “altamente ofensivo à moral” do ministro da Justiça—, tomar parte em um debate na Universidade de São Paulo —um “ambiente de balbúrdias” e de “deturpação da ordem”— e participar da Passeata dos Cem Mil em 1968, de “cunho nitidamente subversivo”.

O general Celso Daltro, ao receber o documento, adiciona um elemento –“em suas atividades artísticas, [participa] de grupos que vêm se constituindo um dos principais meios de guerra psicológica”. Ao mesmo tempo, um ofício do Comandante do Exército, general Syseno Sarmento, incluía Caetano em uma lista de “pessoas cujas atividades têm sido nocivas aos princípios moralizadores consagrados pela Revolução de 1964”.

É assim que a comissão, presidida pelo general Sylvio Frota, envia os autos do processo para os ministros do Exército e da Justiça, com o intuito de incluir Caetano nas listas de punidos pelo ato institucional.

O cantor não chegou a ser alvo das sanções previstas no AI-5 e não constam, dos documentos, as razões para isso. No entanto, a mais radical punição já havia sido aplicada a ele –a perda de sua liberdade de forma absurda e arbitrária.

Homens se abraçam e sorriem
Músicos Gilberto Gil e Caetano Veloso em Roma durante o exílio na Europa, entre o período de 1969 a 1972 – Divulgação

Gil e Caetano seguiram, então, para o exílio, onde ficaram por dois anos. Mas os órgãos da ditadura jamais deixaram de se preocupar com o perigoso subversivo. Em 1972, ano em que Caetano retornou ao país, a Polícia Federal produziu um relatório sobre um show seu no teatro Castro Alves, em Salvador.

Nele, os agentes relatam terem visto “cenas que feriam a moral das famílias ali presentes”, como a “apresentação de Caetano Veloso como um homossexual, pintado de batom e com trejeitos afeminados”.

A Polícia Federal voltou ao local no dia seguinte, quando ocorreria nova apresentação, com o intuito de determinar a proibição de uma música em que o artista dançava “colocando as mãos no sexo”. A censura foi respeitada, mas o agente concluiu que “a nosso ver, é necessário que se coloque um fim nestes episódios que somente desgastam as autoridades”.

Fosse nos dias de hoje, talvez houvesse aqueles que encarassem a prisão de Caetano como “cortina de fumaça”. No entanto, a ideia de que o controle dos comportamentos é uma estratégia para gerar distração e tirar o foco do que “realmente importa” ignora que para regimes e presidentes autoritários, o subversivo moral é até mais perigoso que o dissidente político.

A lógica que orienta essa visão, em síntese, é a de que a família tradicional e patriarcal é a base da cultura cristã ocidental. “Desvirilizar” é solapar as próprias fundações da sociedade. Ou, nos termos que um capitão utilizou para falar com Caetano, “o que vocês fazem é muito mais subversivo do que esses cantores de protesto fazem, porque vocês correm as coisas por dentro”.

O fato de essa fala soar estranhamente familiar em 2020 deve servir como sinal de alerta —e esse é um dos grandes méritos de “Narciso em Férias”.

NARCISO EM FÉRIAS 

  • Quando Disponível
  • Onde Plataforma de streaming Globoplay
  • Direção Renato Terra, Ricardo Calil
  • Duração 1h 23min

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. https://www.folha.uol.com.br/

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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