Amarga chuva – é crônica de Gabriel Chalita

Amarga chuva

Por Gabriel Chalita

Esperar é verbo que desassossega. Tento cultivar em mim, dias calmos. Nem sempre consigo. Tento explicar, a mim mesmo, a soberania do tempo. Padeço de compreensão, quase sempre.

Vim de longe. O sertão do meu tempo era a desesperança. Nada de água. Pouca comida. Muita desistência. Parece que as coisas andaram mudando por lá. Sei que, por aqui, é também sertão. Desisto e resisto, alternadamente. Permaneço pouco em uma decisão. Talvez porque me falte conhecimento; talvez porque tenha medo.

O medo dos dias sem chuva é uma incômoda companhia. É lembrança da fome de tudo, até de esperança. Vivo outros tempos e em outro lugar, mas, ainda assim, vivem em mim as tormentas que já vivi.

E, então, eu espero a chuva. E, então, a chuva vem. E surpreende. Ora vem correta, como tem de ser. Ora, não. A chuva saboreia o solo que brota a vida. E a vida vai se esgueirando pelas frestas de todas as gentes e colorindo de alegria o mundo.E, depois da chuva, vem o sol, ampliando a arte de sentir o como é bom viver.

E quando a chuva é amarga? E quando o que cai são mortes em formas de pensamentos sem pensamentos e de palavras sem responsabilidades? Nenhum solo frutifica com agressões. As quenturas não fazem bem às sementes. As violências aumentam a secura, a ausência de verdade, o despautério do não humano.

Ouço frases soltas em defesa das armas ou das mortes ou da insensibilidade diante da natureza que queima. A fumaça cobre a cidade e a mente das pessoas. Os pensamentos vão sendo destruídos, enquanto mitos vão sendo construídos. E as frases vão saindo com insensatez. A ausência de pensamento é a aliada mais vigorosa da mentira. E prosseguem as chuvas sem água. Penetrando por máquinas, por páginas, por sorrisos falsos, por comandos sem razão. E tudo é sertão. E, nos brados gritantes dos domadores de gente, a repetição das mentiras. Sempre fáceis de serem reproduzidas. E as gentes vão odiando as gentes, porque gostam de obedecer a quem grita. E as gentes vão deixando de ser gente…

Saudade do sertão da minha infância, onde o que faltava não era a dignidade. Onde o sonho de vencer na vida era o sonho de ser melhor. Apenas isso.
Quando rezávamos os mortos, sonhávamos com condições melhores para cuidar dos vivos.

Por isso me mudei. Por isso vim pra cá, onde diziam que havia chuva em abundância. Até há. Mas das duas. Da boa e da amarga. Da que dá a vida e da que nos acomete assustados com o que foi plantando em tantos humanos.

Deus me livre dos justiceiros, dos donos da verdade, das decisões por ódio. Quero acordar os dias, abrindo as janelas e cheirando o cheiro de mato, depois de banhado por águas puras. E ver uma criança brincando sem destruições, nem vinganças, nem descartes.

Esperar é verbo bom quando se tem dentro da gente a lembrança pura dos primeiros amores. Do de mãe, do de um dia de sol, do de um olhar que muda o mundo da gente.

Vou desistir, não. Do meu jeito, vou continuar aspergindo quem estiver por perto. Um pequeno alívio já é vida nova que nasce. E, um dia, Ele disse: “Deixai vir a mim as criancinhas”… água pura de nascente.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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