Olga do Céu – crônica de Gabriel Chalita

Ipê amarelo

Por Gabriel Chalita

Amanheceu domingo dia de São Francisco. Por aqui, a notícia. No céu, a chegada. Irmã Olga de Sá completava o poema e se integrava ao Eterno.

Era um início de fevereiro e fazia calor. Eu estava sentado em uma das cadeiras do tradicional seminário dos salesianos, em Lorena. Queria ser padre. Queria ser ponte entre o humano e o Sagrado. Era menino ainda, e ela entrou. Uma freira iria nos ensinar Introdução à Filosofia. Olhou um a um e iniciou sua viagem pelos filósofos da liberdade. Nunca me esqueci desse início. Eu copiava com medo de que a palavra se perdesse, de que o esquecimento roubasse um saber tão novo e iluminador. O ano foi me apaixonando e eu, ainda hoje, abraço os filósofos que ela me apresentou.

Era talvez setembro, e eu estava triste. Um jovem com o seu martelar interno. Tudo era construção e desconstrução. Possibilidade e medo. Segurança ou voo. E foi ela, a que antes havia me apaixonado no saber, que cuidava de mim, na psicologia dos sentimentos. Foram tardes de cultivos. Enquanto descansava em uma poltrona quase divã, via a exuberância dos ipês amarelos que explicavam que a vida prosseguia. E, então, parti do interior em busca das inseguranças da imensa cidade.

Era novembro e fazia calor. E um frio havia se apossado de mim. Estava sentado em uma escada, na universidade que tinha escolhido para prosseguir. Olhava para janelas de um dia que terminava e sofria o medo de não dar certo. Um professor havia rabiscado meus sonhos. E eu tinha medo de não conseguir prosseguir. E, então, ela passou andando com seus livros e sua paz. E nos vimos. E eu me despedacei em palavras desconectadas. Ela estendeu a mão e todo o resto para que caminhássemos juntos. E, assim, eu prossegui.

Não poucas vezes, sentávamos-nos para viver o dia. E a palavra ganhava significado. Foi me orientando, enquanto eu crescia, palmilhando sabedorias na minha inquietude.

Era ela uma mulher de vasto conhecimento. E, também, do silêncio dos que se alimentam de oração. Quando a via na capela olhando para o alto e para dentro, eu compreendia. A sabedoria transcende o humano. A ponte com os homens é mais sólida, quando as bases nascem de uma crença de humanidade que nos relembra o essencial.

Ela ouvia minha certezas e se certificava de que era insegurança. Uma ou outra pergunta já me desconcertava. Então, fui sendo simples. Lia os meus textos e comentava dizeres sinceros. E me ajudava a celebrar a autenticidade. Foi ela um punhado de Deus na minha vida. De um Deus inteiro que ultrapassa tudo o que se pensa saber. Tola arrogância humana tão sem luz, tão sem razão.

Íamos juntos ao teatro celebrar a arte, víamos os filmes e suas narrativas de encantamentos, alimentávamo-nos em jantares que rasgavam as noites e traziam o sabor do saber.

E, então, ela completou o poema. Viveu para a educação e para a serenização das almas. Viveu para falar de Tereza D’Avila e Clarice Lispector, de Agostinho de Hipona e de Goethe, da Bíblia e do Grande Sertão, como ensina Adelia. Viveu para a sua congregação, as filhas de Maria Auxiliadora, as mulheres missionárias de amor profundo pela razão e pelos afetos, como queria Dom Bosco.

Viver é uma despedida. Todos os dias, dos dias nos despedimos. Todas as horas, das horas nos despedimos. E um dia, então, chega. Um dia em que nem o dia nem a hora escapam de nós. Entregamo-nos inteiros ao Amor que é maior do que o tempo e do que o espaço.

No espaço da minha vida, ela estará sempre, como gratidão, como entendimento de que bebi dos seus poemas para poetizar também. E, um dia, nos reencontraremos. Não sei se por lá os Ipês amarelos florescem apenas na primavera ou se será eternamente primavera. Ou se nem de primavera precisaremos. Não sei se haverá abraços nem prosas. O que sei é o que o mistério é um véu que só descortino quando escrevo nos dias a simplicidade. Mesmo assim, parcialmente. Não nos foi dado conhecer o que vem depois do ventre. Nem quando aqui chegamos nem ao daqui nos despedirmos.


Amanheceu domingo dia de São Francisco, e Olga já sorri o sorriso que nunca termina…

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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