Quem defende a privatização do SUS frequenta o Albert Einstein e o Sírio Libanês

Mesmo com esse prognóstico, minha irmã recebeu toda assistência no HC, hospital mantido pelo SUS. Do início ao fim, foi tratada de maneira digna e acolhedora.

Por Luana Toletina

Apesar das dificuldades que cercam o fazer docente, a escola sempre foi um lugar de felicidade para mim. Jamais poderia imaginar que viveria no meu local de trabalho umas das experiências mais duras de toda minha vida.

Na noite do dia 13 de julho de 2012, Fátima Oliveira, saudosa médica negra e feminista, enviou um e-mail pedindo que eu ligasse para ela no dia seguinte, às 8h em ponto. Ela queria falar comigo a respeito de um diagnóstico da Miriam, minha irmã.

Já no trabalho, pedi licença aos meus alunos, saí da sala e liguei conforme havia combinado. Mal dei bom dia e ela me apresentou o resultado:

“Luana, o câncer da sua irmã é letal e já em estágio avançado. O estado dela é muito grave. Vocês podem se preparar… Não há muito o que fazer. Primeiro, os tumores vão se alastrar pelo corpo inteiro. Depois, ela vai ter que fazer uma traqueostomia para conseguir respirar. Se espalhar pelo cérebro, ela vai perder a consciência. É provável que ela tenha no máximo um ano de vida”.

Ao ouvi-la, fui tomada por imenso vazio. Senti minhas pernas bambas. Passei um tempo em silêncio, olhando para o nada. Primeiro, quis entender o porquê de a doutora Fátima ter sido tão ríspida, tão seca comigo. Em seguida, tentei entender o que ela havia dito. Era como se cada uma daquelas palavras tivesse sido dita por uma estrangeira, em um idioma completamente desconhecido por mim. Quando finalmente entendi, desabei. Minha irmã vai morrer, pensei. Naquele momento, minha maior preocupação era com que a minha mãe não soubesse o real estado da Miriam.

Dada a gravidade do caso, a Miriam deu início ao tratamento no Hospital das Clínicas no dia seguinte. No prontuário, câncer de cabeça e pescoço. Ali se iniciava uma longa caminhada de consultas, exames e muitas, muitas sessões de quimio e radioterapia. O cabelo não demorou a cair. Os enjoos, as náuseas e todos os efeitos colaterais do tratamento também não tardaram a chegar.

Vivi uma espécie de luto antecipado. Definhei. Eu me sentia feito uma alma penada, vagando. Hoje tenho uma infinidade de críticas ao kardecismo, mas não posso deixar de dizer que a religião me deu forças e alguma serenidade para atravessar esse momento tão difícil e doloroso. A escola também. Meus alunos não sabem, mas encontrava coragem e alegria no nosso convívio diário. Serei sempre grata. Sempre.

Miriam entrou em um jogo cujo resultado já estava definido.

“Luana, em 15 anos de profissão, nunca vi um paciente com um quadro igual ao da sua irmã se recuperar”, disse o doutor Munir, que a acompanhou durante todo o processo.

Mesmo com esse prognóstico, minha irmã recebeu toda assistência no HC, hospital mantido pelo SUS. Do início ao fim, foi tratada de maneira digna e acolhedora. Ela fez valer o artigo 196 da Constituição, que justificou a criação do Sistema Único de Saúde em 1988: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.

Não fosse o SUS, não sei o que seria dela. Além da minha família não ter condições financeiras de arcar com o tratamento, é certo que um plano de saúde não a aceitaria devido ao estágio da doença. Além disso, é muito comum pessoas que recebem o diagnóstico de câncer na rede privada procurarem o SUS, porque os convênios não cobrem ou se recusam a fornecer determinados procedimentos. Muitos pacientes precisam entrar na Justiça para conseguir atendimento.

Apesar da impossibilidade de cura, Miriam lutou bravamente. Até o fim. Sua travessia se encerrou na manhã do dia 9 de julho de 2013, aos 32 anos. Trezentos e sessenta e dois dias após o telefonema da doutora Fátima. Ela não deixou filhos. Deixou algumas camisas do Galo, nosso time do coração. Deixou uma coleção homérica de livros e revistas de culinária, sua maior paixão, depois do Clube Atlético Mineiro. Deixou a minha mãe. Deixou muita saudade entre aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ela ao longo de três décadas.

Trago minha irmã à lembrança, revivo todo o calvário pelo qual ela passou em meio a mais uma tentativa de privatização do SUS. Em função da repercussão extremamente negativa e dos posicionamentos de parlamentares e representantes da sociedade civil contrários à medida, o presidente Jair Bolsonaro se viu obrigado a revogar o decreto 10.530/20, que autorizava a realização de estudos para parcerias entre a iniciativa privada e o poder público para a construção e administração de Unidades Básicas de Saúde (UBS).

É bem verdade que há falhas e dificuldades, que podem e devem ser superadas, sem a necessidade de entregar um patrimônio brasileiro, com importância reconhecida mundialmente, a grupos e empresas que visam somente ao lucro. A pandemia da Covid-19 escancarou uma série de questões, uma delas é o valor do SUS, cuja rede de UPAs, hospitais e laboratórios atenderam a maior parte dos pacientes infectados pelo vírus, formada sobretudo por pessoas pobres e de baixa renda. Sem o Sistema Único de Saúde, a tragédia que se abate sobre nós teria sido ainda maior.

Da Miriam, sinto muita saudade. Em relação a mais essa tentativa de ir contra os princípios que regem a Constituição Federal, tenho uma certeza: quem defende a privatização do SUS frequenta o Albert Einstein e o Sírio Libanês.

Luana Tolentino
LUANA TOLENTINO Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente é professora universitária. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

Publicado originalmente no portal Carta Capital. Acesse: https://www.cartacapital.com.br/

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Quem defende a privatização do SUS frequenta o Albert Einstein e o Sírio Libanês

  1. SEBASTIAO G NASCIMENTO disse:

    A dignidade humana deve está presente do nascer ao fenecer do ser humano. Quando isso ocorre qualquer resultado da vida é aceitável pela família. O SUS trabalha primeiro com a dignidade e muitas vezes falta recursos e a vida supera as dificuldades. Viva o SUS.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Jota Henrique disse:

    Sinto muito pela sua irmã, de verdade. Também perdi alguém muito importante recentemente e entendo a dor que está sentindo.

    No entanto, o decreto revogado não tinha um único parágrafo dizendo que privatizaria o SUS ou que estariam sendo feito estudos para tal privatização. O que o decreto 10.530/20 propunha era que os pacientes sem condição de pagar por consultas, exames ou cirurgias poderiam procurar os hospitais particulares e que a conta seria paga pela União, ou seja, governo. Tudo através de uma parceria entre o SUS e empresas que administram esses hospitais particulares. Era isso.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s