O Último Combate de Sá Carneiro: Razão do Estado versus Razão do Amor

“Apesar disso, ao contrário do que os seus opositores poderiam esperar e mesmo contra a opinião de alguns dos seus apoiantes, o primeiro-ministro assumiu publicamente Snu Abecassis como a sua mulher, que esteve sempre presente ao seu lado em todos os atos públicos mais importantes, oficiais e protocolares. Ou, pelo menos, em quase todos.”

Por Sérgio Figueira

Numa era em que a política se faz no Twitter, sendo o pior exemplo o agora cessante Presidente dos EUA, e a popularidade dos políticos se mede pelo número de seguidores nas redes sociais, ou pela disponibilidade para tirar selfies, voltar 40 anos atrás no tempo, em Portugal, revisitando a praxis política e os líderes de então, é uma viagem fascinante e uma comparação em que os protagonistas atuais saem a perder.


Francisco Sá Carneiro é um caso notável de um político que marcou uma época, num espaço de tempo relativamente curto, e que ficará seguramente na História do Portugal democrático. Pela vida política, mas também pelas circunstâncias da sua vida pessoal, que terminou de forma trágica a 4 de dezembro de 1980.


Esse ano começara em glória para o homem que esteve na génese do PPD (atual PSD), partido de que foi, indubitavelmente, o líder mais relevante. Após uma vitória expressiva nas eleições legislativas, intercalares, de 2 de dezembro de 1979, com a sua Aliança Democrática, Sá Carneiro foi nomeado primeiro-ministro de Portugal à frente do primeiro governo de centro-direita, a seguir ao 25 de Abril.


O seu propósito claro passava pelo fim da tutela militar do poder político, exercida pelo Conselho da Revolução, cuja extinção considerava indispensável para a normalização democrática do Estado. Tal posição, ainda no rescaldo dos tempos revolucionários, trouxe-lhe, inevitavelmente, muitos inimigos e muitas batalhas; mas isso era coisa que não o incomodava. Os inimigos enfrentou-os sempre com panache, e nunca se furtou a um bom combate. O ano de 1980 foi disso um grande, talvez o maior, exemplo.


A estratégia de Sá Carneiro passava pelo fim da instabilidade que tinha marcado os primeiros anos após o PREC, e tal só era possível com uma maioria clara no Parlamento, e de um Presidente, sintonizado com a mesma. Esse propósito veio a ser condensado no slogan: uma maioria, um Governo e um Presidente.


A maioria que lhe possibilitou um governo estável, o país deu-lha, duas vezes; a primeira na já referida vitória de dezembro de 1979, a segunda, em outubro de 1980, reforçando a conseguida menos de um ano antes. O Presidente foi-lhe recusado, mesmo, e, apesar, da sua morte trágica três dias antes da eleição.


Ramalho Eanes, seu adversário, então Presidente, candidato à reeleição, estaria no centro de uma inimizade que se acentuou ao longo desse ano, também por motivos pessoais. Aliás, 1980 foi para Sá Carneiro, de facto, o ano do seu grande combate, como Homem, para lá do político, que, ironicamente, se tornou numa batalha política.
Os valores e as convenções sociais eram, então, em Portugal, ainda muito marcadamente conservadores, principalmente no universo de que Sá Carneiro era originário, bem como da sua base de apoio (de direita, católica). E o simples facto de o primeiro-ministro viver maritalmente com uma mulher, Snu Abecassis, que não era aquela com que estava ainda casado pela Igreja, foi um escândalo e considerado, por muitos, como uma afronta à moral e à religião.


Por que razão não se divorciara então?
Apenas porque a lei portuguesa na época não permitia o divórcio contra a vontade de um dos cônjuges, antes de decorridos seis anos sobre a separação de facto, como era o caso (a primeira mulher do político opôs-se ao divórcio), tendo Sá Carneiro de esperar ainda mais dois anos até o poder fazer (Snu estava já divorciada do seu primeiro marido).


Apesar disso, ao contrário do que os seus opositores poderiam esperar e mesmo contra a opinião de alguns dos seus apoiantes, o primeiro-ministro assumiu publicamente Snu como a sua mulher, que esteve sempre presente ao seu lado em todos os atos públicos mais importantes, oficiais e protocolares. Ou, pelo menos, em quase todos.


Quando da visita do Presidente americano Jimmy Carter em junho de 1980, os convites, a cargo do protocolo da Presidência de Ramalho Eanes, não incluíram Snu no programa social da primeira-dama americana. É fácil perceber que Sá Carneiro não gostou.


As eleições presidenciais que se realizariam a 7 de dezembro tornaram-se então, também por esse motivo, no seu mais importante combate e que seria o derradeiro. Tanto assim, que, na iminência da derrota da eleição do seu candidato Soares Carneiro (todas as sondagens previam a vitória de Eanes), Sá Carneiro faz saber aos seus correligionários políticos que se demitirá do cargo de primeiro-ministro caso Eanes seja reeleito, dando-o a entender ao país no último tempo de antena que gravou da campanha eleitoral, e que não chegará a ser transmitido devido à sua morte.


Apesar da tendência desfavorável, não desiste do combate até ao fim. A decisão de última hora de se deslocar ao Porto, para participar num comício de apoio a Soares Carneiro, é um forcing para captar mais votos. Essa viagem tornar-se-á fatal com a queda do avião em que Sá Carneiro viajava com a sua mulher Snu, Adelino Amaro da Costa e mulher, António Patrício Gouveia e os dois pilotos. Todos morreram em consequência do que várias Comissões de Inquérito Parlamentares consideraram atentado, ao contrário da Justiça, que nunca julgou o caso, adensando a aura de tragédia e mistério neste desenlace.


Natália Correia, protagonista na aproximação de Sá Carneiro e Snu, recordou, quando a entrevistei na RTP em 1990, “essa paixão maravilhosa” e como Sá Carneiro desafiou convenções ao impor “à razão do Estado a mulher que amava”, invertendo, desse modo, a lógica de Pedro e Inês.
A razão do Amor venceu pois a razão do Estado e deu-me o mote para escrever o romance “O Fim do Tempo” (ed. Passado Presente, 2017), em que revisitei a história de Sá Carneiro e Snu.
Que esse exemplo de carisma e coragem possa também inspirar os políticos de hoje. Ficávamos todos a ganhar com isso.

Sérgio Figueira é historiador e Escritor
Investigador integrado do CITCEM

Publicado originalmente no jornal Português – Diário de Notícias. Acesse: https://www.dn.pt/

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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