Papa cita D. Hélder e resgata o melhor da tradição católica brasileira

‘Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista’ foi a frase do brasileiro usada por Francisco na mensagem de Natal

D. Hélder Câmara, arcebispo emérito de Recife e Olinda (PE), em 1969
D. Hélder Câmara, arcebispo emérito de Recife e Olinda (PE), em 1969 – Acervo UH – 1969/Folhapress

Por Fernando Haddad

A história de Portugal e do Brasil têm relação peculiar com o cristianismo.

O cisma do Oriente (1054) e a tomada de Jerusalém pelos turcos seljúcidas (1078) deram ensejo às Cruzadas que impulsionaram a retomada da Península Ibérica pelos cristãos.

Em 1139, Afonso Henriques foi aclamado rei de Portugal, aceito pelo reino de Leão quatro anos depois. Mas só com a bula Manifestis Probatum (1179) a independência de Portugal foi reconhecida pelo papa, de quem o rei passou a ser vassalo. Nascia o primeiro Estado-nação europeu, que se transformaria, três séculos depois, num império global.

Nesse longo percurso, estabeleceu-se um acordo entre o papa e o monarca português denominado “padroado régio”, que deu ao último enorme poder sobre assuntos religiosos nos territórios conquistados e por conquistar, como nomear para cargos religiosos e controlar a cobrança do dízimo. No Brasil, depois da independência, esse regime vigeu até a proclamação da República, quando o Estado tornou-se laico.

Apesar disso, a Igreja Católica sempre manteve estreitos laços com o poder e, sobretudo na área social, mantinha relação de parceria contraditória com a República, querendo, de forma louvável, para suprir a omissão do Estado, realizar com recursos públicos aquilo que fazia, inicialmente, com doações privadas.

Essa relação foi se ajustando, não sem percalços, inclusive recentes, como na regulamentação do Fundeb.

Cabe notar, não menos importante, a participação da Igreja Católica no processo de redemocratização. Muitos líderes católicos abraçaram com tal vigor a causa das liberdades individuais e da justiça social que passaram a ser referência internacional. Um deles, D. Hélder Câmara, patrono brasileiro dos direitos humanos, foi indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz.

Duramente combatido pela ditadura militar, D. Hélder foi citado pelo papa Francisco na sua mensagem de Natal, na qual resgatou a famosa frase do bispo brasileiro: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”.

A lembrança resgata o melhor da tradição católica brasileira, num momento em que nossa gente padece com um governo que atenta reiteradamente contra a vida, sobretudo a dos mais pobres.

Ao longo da sua história, a Igreja Católica já teve que rever suas posições sobre temas delicados. Uma coisa, porém, é certa: quando reafirmou sua autonomia em relação ao poder e optou por agir contra a injustiça, ela honrou seu compromisso com os fundamentos da sua existência.

D. Hélder não poderia ser mais inspirador.

Fernando Haddad – Professor universitário, ex-ministro da Educação (governos Lula e Dilma) e ex-prefeito de São Paulo.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog Traço de União.

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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