Até onde vai a individualidade de uma pessoa e onde começam os interesses coletivos? – por João Antonio

Neste diapasão é que ganha importância o termo sincretismo. É nele que se molda a cultura da tolerância – síntese de diferentes elementos que possuem sua origem em pontos de vista, teorias filosóficas, religiosas ou visões de mundo distintas – é nela que se constrói o equilíbrio estável entre expectativas individuais e necessidades coletivas.”

Por João Antonio

Há milhares de anos a humanidade tem buscado responder a este questionamento. No fundo, o equilíbrio entre o “eu” e o “nós”, elemento fundamental para se alcançar a sonhada harmonia social, está posto como um desafio permanente para a humanidade. E como a história não caminha em linha reta, a tortuosa marcha de homens e mulheres segue se equilibrando nas contradições, modelando atitudes e construindo novos conceitos. Homens e mulheres seguem seus percursos e, cada um a seu modo, com suas idiossincrasias, seus talentos e suas expectativas buscam, à sua maneira, um caminho para a sua felicidade.


No que se refere às expectativas individuais, qualquer juízo de valor é relativo. As probabilidades, uma vez transformadas em metas, acabam por guiar o futuro dos indivíduos e são elas que estimulam a marcha da história. Quero dizer: não se mede e, por consequência, não se valora aquilo que ainda não existe.


Por outro lado, como a história é contada com base em coisas, fatos e interpretações e como o inexistente é imensurável, as expectativas – aquelas transformadas em metas – têm peso relativo: quase não influenciam as interpretações históricas.


A pergunta é: o que movimenta a roda da história, o já feito ou a expectativa?


Sim, sem sombra de dúvidas, são as expectativas que movimentam a marcha da humanidade. O já concretizado pertence à história, mas não faz história.


Por decorrência, a resposta ao questionamento acima nos faz pensar sobre suas consequências. Se é verdade que as expectativas transformadas em metas estimulam a marcha da história, então a composição entre desejos individuais e desejos coletivos é uma espécie de antessala da harmonia social. Em outras palavras, as expectativas individuais quando não sintonizadas com o projetado para todos (coletividade) acaba por aguçar os conflitos sociais, neste caso a soma das parte acaba por não formar um todo.


Esta questão – metas individuais x expectativas coletivas – vista de um outro ângulo, porém com o mesmo prisma social, nos leva à seguinte reflexão: sobrepor os interesses coletivos aos interesses individuais de forma absoluta, ou seja, sufocar as individualidades argumentando a supremacia dos interesses coletivos, via de regra resultante de comportamentos autoritários – conduziu a humanidade ao caos. Exemplos: Alemanha Nazista, Itália facista, Chile ditatorial, Rússia stalinista, Brasil de 1964 – para ficar em alguns exemplos.


É claro que não estamos aqui a falar de qualquer expectativa. Estamos falando daqueles desejos ou posturas que se relacionam com o todo social. Por exemplo: posturas racistas, a ambição material desmedida, misoginia, intolerância religiosa, ideológica etc. Enfim, trata-se de todos aqueles temas que se relacionam com a vida em sociedade – é isso que importa.


Neste diapasão é que ganha importância o termo sincretismo. É nele que se molda a cultura da tolerância – síntese de diferentes elementos que possuem sua origem em pontos de vista, teorias filosóficas, religiosas ou visões de mundo distintas – é nela que se constrói o equilíbrio estável entre expectativas individuais e necessidades coletivas.

Então podemos afirmar como principal tarefa do Estado – aqui entendido como principal instrumento de coesão social – não só dar um sentido coletivo às criações humanas e produtos da natureza – mas também organizar as expectativas dos seus indivíduos, dando-lhes oportunidades de consorciá-las às potencialidades de toda a sociedade.


Neste tempos difíceis que vive a humanidade, período em que a intolerância em seu sentido amplo tem conduzido indivíduos e entidades diversas com repercussão importante na política, minha principal expectativa é que o Brasil possa buscar o seu equilíbrio estável. Estabilidade que só será viável quando as dúvidas forem ponto de partida das certezas; quando as perguntas não incomodarem as respostas e quando o hoje não ofuscar o amanhã.


Portanto, seguimos, todos os democratas, buscando fazer com que todas as potencialidades individuais deságuem nas correntes águas coletivas rumo a um mundo mais fraterno, onde termo igualdade não soe apenas como um “chavão” (frase que se repete abusivamente) – um clichê – ou um termo apenas para o mundo dos utópicos.

João Antonio da Silva filho é graduado em direito, mestre em filosofia do direito pela PUC-SP, autor dos livros: A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio”; “A Era do Direito Positivo” e o “O sujeito Oculto do Crime – Considerações Sobre a Teoria do Domínio do Fato”. Foi vereador por São Paulo por três mandatos consecutivos, Deputado Estadual e secretário de articulação política da prefeitura Paulistana (2013 a 2014), atualmente é presidente do Tribunal de Contas do Município de São Paulo.

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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Uma resposta para Até onde vai a individualidade de uma pessoa e onde começam os interesses coletivos? – por João Antonio

  1. Aristóteles, ao definir o holismo, destacou que o todo é maior do que a soma individual de todas as suas partes.

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