Mulheres conquistam espaço no futebol porque merecem, não porque são mulheres

“Desde a década de 1960, algumas dezenas de árbitros já apitaram o Mundial, todos homens. É possível e até provável que alguns deles tenham cometido erros importantes. Mas, daí, ninguém tirou a conclusão que “homens não são capazes de apitar”. Se uma mulher erra, todas pagam o preço.”

Edina Alves durante semifinal do Mundial feminino, em 2019, entre Inglaterra e Estados Unidos
Edina Alves durante semifinal do Mundial feminino, em 2019, entre Inglaterra e Estados Unidos – Denis Balibouse – 2.jul.2019/Reuters

Fifa escolheu árbitra Edina Alves e assistente Neuza Back para Mundial pela competência delas

Por Renata Mendonça

Ainda sem entrar em campo, o Brasil já fez história no Mundial de Clubes da Fifa de 2020 (que começa em 2021, mais precisamente na quinta-feira (4). A presença da árbitra Edina Alves Batista e da assistente Neuza Back no quadro de arbitragem do torneio já representam um feito inédito para as mulheres no futebol. É a primeira vez que elas estarão representadas dentro das quatro linhas em um Mundial masculino organizado pela Fifa.

Aliás, se considerarmos o histórico todo do torneio, incluindo também as edições em que ele não teve a chancela da Fifa, são mais de 60 anos até que finalmente uma mulher (no caso, duas) tivesse a oportunidade de participar dele na arbitragem. E depois de todo esse tempo, Edina e Neuza ainda carregam nas costas o peso de saber que qualquer erro delas pode custar a chance da próxima candidata ao feito. 

Como disse a própria árbitra à Folha: “Se você vai mal, cai tudo por terra. Todo mundo vai dizer ‘mulher não tem capacidade'”.

Desde a década de 1960, algumas dezenas de árbitros já apitaram o Mundial, todos homens. É possível e até provável que alguns deles tenham cometido erros importantes. Mas, daí, ninguém tirou a conclusão que “homens não são capazes de apitar”. Se uma mulher erra, todas pagam o preço.

A história de Edina está tendo um final feliz e, aos 41 anos, ela está prestes a realizar mais um sonho, apitando uma competição importante da Fifa. Mas até hoje deve ouvir de colegas: “Está conseguindo isso porque é mulher”. 

Essa frase está na moda. E quanto mais mulheres ocupam espaços no futebol, um meio ainda tão fechado para elas, o primeiro comentário dos homens é sempre esse. Não passa na cabeça deles que, se a mulher em questão fosse um homem, ela provavelmente já teria conseguido esse espaço há muito mais tempo. Afinal, assim eram todos os que vieram antes dela.

Também costumam dizer: “não tem que ser mulher ou homem, tem que ser competente”. Fico impressionada que esse é o tipo de comentário que só aparece quando a pessoa contratada (ou, no caso, escalada para apitar um Mundial) é mulher, e/ou negro, e/ou gay. Quando um homem branco heterossexual é anunciado em qualquer cargo, ninguém diz: “olha, mas não pode ser só porque é homem, branco, heterossexual, tá? Tem que ser competente!”.

E ser competente em qualquer carreira não é (ou deveria ser) premissa básica para uma pessoa conseguir qualquer cargo? A Fifa não escalou Edina e Neuza porque elas são mulheres. A escolha foi justamente pela competência, pela precisão nos lances e pela firmeza nos jogos.

A mesma lógica acontece para criticar as narradoras e comentaristas que começam a conquistar um espaço nas transmissões de futebol. São centenas, milhares de homens exercendo essa função há décadas, e pouquíssimas mulheres que conseguiram furar essa bolha nos últimos tempos.

Vale aqui repetir o óbvio: ser exceção é muito mais difícil do que ser a regra. Para ser mulher e estar nesse espaço, a cobrança é dobrada, não dá pra disfarçar competência.

Mas é fato que o esforço de Edina, Neuza e das mulheres que desbravam esse universo ainda tão hostil do futebol em todas as áreas está dando resultado.

É só ver cenas como as da pequena Helena, de quatro anos, narrando um gol do Internacional simulando o lance no campinho de brinquedo. Ela joga futebol e brinca até de ser árbitra, como Edina. Se vai narrar, jogar ou apitar no futuro, ainda é cedo pra saber. Mas, vendo mulheres atuando em todas essas áreas hoje em dia, Helena já sabe que pode ser o que quiser.

Renata MendonçaJornalista, comenta na Globo e é cofundadora do Dibradoras, canal sobre mulheres no esporte.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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