E se… um pouco de fantasia para suportar a distopia

“Convido você a imaginar como seria o Brasil, se não tivesse ocorrido o golpe militar de 1964”, escreve Florestan Fernandes Jr., do Jornalistas pela Democracia. “Por mais tentadora que seja a realidade sonhada, voltemos à realidade vivida, ao nosso espanto cotidiano. É aqui a nossa esfera de combate”, diz ele

Por Florestan Fernandes jr

Pouca gente sabe, mas o físico Stephen Hawking foi um ávido estudioso da teoria dos multiversos. Seu colega brasileiro, Mário Schenberg, me disse certa vez que existiriam universos paralelos que se ligariam uns aos outros por aberturas, que poderiam ser os tais buracos negros. Embora a teoria ainda não tenha comprovação cientifica, segue sendo estudada e povoa o imaginário coletivo. Prova disto é o sucesso de filmes e séries, desde os clássicos como Planeta dos Macacos e Terra de Gigantes, aos populares títulos disponíveis nas plataformas de streeming, como Dark, Stranger Things e O Homem do Castelo Alto.

Para nos desprendermos um pouquinho dessa realidade disruptiva na qual estamos – que, diga-se, causaria inveja aos mais inventivos escritores distópicos, convido você a imaginar como seria o Brasil, se não tivesse ocorrido o golpe militar de 1964. Vamos lá…

João Goulart teria terminado seu mandato, e seu cunhado Leonel Brizola teria sido eleito Presidente da República. Darcy Ribeiro continuaria no Ministério da Educação, e teria grandes chances de se eleger governador do Rio de Janeiro. Jango teria feito as reformas de base, inclusive a Reforma Agrária. Com isso, não haveria o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e muitos trabalhadores não teriam sido forçados a migrar para as grandes cidades em busca de oportunidades.

Lula, que migrou ainda criança para São Paulo, teria voltado para Garanhuns e se estabelecido com a família em um assentamento rural. Lá, certamente alçaria voos altos, se elegeria para cargos públicos e, por seu perfil combativo, confrontaria o coronelismo. Ou seja: bem longe dos sindicatos e dos movimentos operários, mas definitivamente envolvido com causas libertárias.

Sarney e Antonio Carlos Magalhães continuariam sendo apenas deputados da UDN e não teriam ganho concessões públicas de rádio e televisão. Paulo Maluf seria um empresário medíocre, provavelmente levando as empresas da família à falência.

Não teríamos presos políticos e nem pessoas sendo mortas nos porões da ditadura militar. Com isso, quem sabe, hoje o presidente da TV Cultura seria o jornalista Vladimir Herzog. Também não existiriam as campanhas da Anistia e das Diretas Já. Tancredo seria, se muito, governador de Minas Gerais, e Fernando Collor seria apenas o playboy, filhinho de papai, em Alagoas.

Fernando Henrique Cardoso teria continuado sua carreira acadêmica, como sociólogo da USP. O mesmo teria ocorrido com Michel Temer, que seguiria como professor de Direito Constitucional da PUC de São Paulo. Sem a quebra na democracia, Dilma Rousseff não teria ido para a luta armada. Como economista, se dedicaria à pesquisa ou trabalharia numa grande empresa. Certamente teria se envolvido com causas feministas e de políticas afirmativas. Por seu caráter, por sua personalidade aguerrida, a “Coração Valente”, exerceria protagonismo nas esferas públicas.

E quanto a Jair Bolsonaro? Eis a incógnita. Sabe-se lá onde estaria… realidades alternativas não implicam em mudança de caráter. Qualquer que fosse a realidade ou universo possível, ele seria apenas o “Cavalão”, apelido que ganhou ainda nos quarteis. Mas sem a ditatura, não existiria a Polícia Militar e nem ex-PMs formando grupos milicianos nas periferias das cidades. Com isso, Bolsonaro não teria uma de suas bases, um de seus nichos de popularidade, e certamente não teria se aventurado na política. Quem sabe teria se tornado líder de garimpeiros em Serra Pelada? O fato é que nessa realidade alternativa ele jamais chegaria à Presidência da República. Estaríamos livres do seu desgoverno terraplanista, negacionista, genocida e fascista.

Bom, por mais tentadora que seja a realidade sonhada, voltemos à realidade vivida, ao nosso espanto cotidiano. É aqui a nossa esfera de combate, de insubmissão ao estado de coisas que nos é posto. É aqui, nesse apanha-apanha diário, que precisamos encontrar a força necessária para defender a vida, a democracia, o futuro. Este sim, construído individual e coletivamente por mim e por você.

Artigo publicado originalmente no Brasil 247.

Florestan Fernandes Júnior é um jornalista brasileiro. Filho do renomado sociólogo Florestan Fernandes, passou pelas principais redações e emissoras do país. Florestan Fernandes Júnior se formou em jornalismo em 1977.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa o que pensa o blog Traço de União.

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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Uma resposta para E se… um pouco de fantasia para suportar a distopia

  1. SEBASTIAO G NASCIMENTO disse:

    Texto maravilhoso, brilhante que nós açoita a algumas realidades e tempos diferentes. Quem nos dera uma ordem ordinária para passarmos sobre essas desgraças cotidianas reais.

    Curtido por 1 pessoa

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