Por que os brasileiros são os maiores consumidores mundiais de antidepressivos, ansiolíticos e remédios para dormir?

Público abaixo um lindo texto da colunista de Mirian Goldenberg. Hoje, em sua coluna no jornal Folha de São Paulo ela aborda o tema tristeza de um jeito positivo e, ao mesmo tempo, dialogando com o “triste” momento em que a humanidade está atravessando. Na sua forma elegante de abordar o tema ela escreve: “Qual é o meu antídoto para a tristeza? Vivê-la por inteiro e escrever sobre ela. Não preciso me curar da tristeza, pois não estou doente. É apenas o que sinto nesse momento tão triste de viver.” Eu concordo.

Tristeza não é doença

Por Mirian Goldenberg

Acordei em um sábado cinza e chuvoso. E escrevi:

“Hoje eu acordei triste.

Na verdade, hoje eu acordei mais triste.

Todos os dias eu acordo e vou dormir triste.

Mas hoje a minha tristeza é ainda maior.

Uma tristeza sem esperança, sem lágrima, sem nada.

Somente triste.

Uma tristeza que já desistiu de ser alegre.

Uma tristeza muito cansada de ser triste.

Uma tristeza sem saudade de um tempo que não volta mais, que também era triste, muito triste.

Uma tristeza exaurida pela dor, pânico e desespero.

Uma tristeza que se alimenta da solidão, do sofrimento e da impotência.

Uma tristeza velha, muito velha, desde criança sempre triste.

Uma tristeza resignada, que sempre foi e sempre será triste.

Uma tristeza que sabe que é impossível ficar alegre hoje e amanhã.

Hoje eu acordei triste”.

Compartilhei o texto nas minhas redes sociais como costumo fazer com algumas reflexões. Recebi um bombardeio de mensagens:

“Estou muito preocupada com você. O que aconteceu?”

“Você precisa urgentemente se tratar, procurar ajuda, ir ao psiquiatra e tomar algum remédio para curar essa tristeza. Você não pode se entregar à depressão, ao desespero e à angústia. A tristeza é perigosa, faz mal à saúde”.

“O texto é ficção? Não acredito que você está tão triste. Logo você que tem um sorriso tão lindo? Você não tem o direito de ficar triste. Confie em Deus: vai passar”

Mas recebi também inúmeras mensagens de quem se identificou com a minha tristeza:

“Senti um alívio enorme ao ler o seu texto sensível e corajoso. Até chorei. Eu me senti menos só. Também estou muito triste, e sofro uma enorme censura e repressão quando digo que estou triste. É proibido falar de tristeza aqui em casa. Parece que tenho uma doença grave e contagiosa”.

“Desde quando tristeza é sinônimo de doença? Estou triste porque não consigo ter esperança no amanhã. Estou triste porque não acredito mais que essa tragédia vai passar. Não consigo imaginar que um ser humano consiga rir, brincar e gozar no meio desse horror, a não ser que seja um sádico genocida. Quem não está triste está doente no coração e na alma”.

Muitos perguntaram: “O que aconteceu com você?”, como se eu precisasse explicar ou justificar a minha tristeza por algum motivo pessoal.

Estou triste, profundamente triste, como milhões de brasileiros estão. Como tantos que estão impotentes, exaustos, massacrados, sufocados por tanto ódio, violência e perversidade.

Achei estranho acharem o meu texto corajoso. Desde quando falar sobre tristeza é um ato de coragem? Mas depois de dizerem que não tenho o direito de ficar triste, de me recomendarem antidepressivos e dezenas de tratamentos, cheguei à conclusão de que é sim uma escolha corajosa.

Em uma cultura em que existe uma ditadura da felicidade, a obrigação e o imperativo de ser feliz mesmo em tempos de horror, sentir-se triste é um exercício da liberdade de resistir ao egoísmo, à mentira e à maldade. Não irei esconder a minha tristeza em um armário, pois não tenho vergonha dela. Na verdade, depois de provocar tantas reações, ela se tornou ainda mais poderosa, empática e generosa. Mais humana!

Qual é o meu antídoto para a tristeza? Vivê-la por inteiro e escrever sobre ela. Não preciso me curar da tristeza, pois não estou doente. É apenas o que sinto nesse momento tão triste de viver.

Tristeza não é coisa de maricas. Tristeza não é frescura. Tristeza não é mimimi.

Você também está triste?

Mirian Goldenberg – Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio, é autora de “A Bela Velhice”

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo.

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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