“Gavetas da alma” é crônica dessa semana de Gabriel Chalita

GAVETAS DA ALMA

Por Grabriel Chalita

Foi no dia em que dormi pouco que percebi o tanto de guardado que tenho em mim. A noite grande prolongou os meus pensamentos se esquecendo dos meus cansaços.

Foi no dia em que os nossos olhos, depois de tempos, se cruzaram. Não fui eu quem fechou a porta. Não fui eu quem encontrou, em um outro, a disposição para prosseguir. Mas fui eu quem sofreu as ameaças, as acusações, a mentira. 

Juntos, resolveram viver de tentar retirar de mim o que não tinham. Os mentirosos sempre caem no cadafalso da infelicidade. E os seus risos riem nada, apenas ensaiam um enfeite para disfarçar o que, de fato, são. Custou a mim entender no que ela se transformou. 

Ela olhou e desviou. Disse nada. Talvez a vergonha tenha acelerado o seu passo. Devolveu ódio, depois de anos de amor. Namorávamos o dia, brincando de uma infância prolongada. Jurávamos eternidade. Espalhávamos pétalas de alívios quando os espinhos, tão comuns aos cotidianos, nos cortavam. 

E, então, um falador de baixa estatura a convenceu a mentir. Homem pequeno em tudo, inclusive no caráter. Será que ela não percebeu ou será que eu não percebi que a imagem linda dela fui eu quem construiu? Fazia tempo que não nos víamos. E não nos vimos, porque já não somos quem éramos.

Os pensamentos da noite grande me fizeram abrir as gavetas da alma. São muitas. A primeira que abri me entristeceu. Uma desconfiança na humanidade foi me convencendo de que amar é desperdício. Fiquei remexendo e limpando e vasculhando e a incompreensão me fez fechar. E abrir uma outra. Minha infância estava lá. Então, ri de tempos que, amontoados, faziam ver o que um dia fui antes do hoje. Da criança que pedia histórias e mais histórias para viajar. Em outra, estavam trabalhos por onde passei, pessoas lindas que calejavam as mãos para plantar mundos bons.

Abri uma outra e encontrei o olhar doce do meu pai. Sua voz foi dizendo frases e, então, adormeci. Acordei abrindo outra gaveta, era o sorriso de minha mãe. Inteiro. Lindo como os dias de sol. E abri outras, já calmo de lembranças ruins.

A gaveta da sabedoria que comanda as gavetas da minha alma não pode ficar fechada. É ela quem guarda e me oferece as chaves corretas para abrir no tempo correto e, quando necessário, limpar o que deve, apenas, servir de recordação. 

Decidi não odiar quem um dia amei. Abracei o resto que ficava da noite e, então, adormeci. A luz não perguntou se eu precisava de mais tempo. Chegou trazendo o dia e explicando o tempo do levantar. Estava bem, cheio de forças para abrir a porta de mais um dia e carregar comigo a disposição amorosa dos encontros. 

Gratidão viver o tempo dos encontros. A gaveta da sabedoria me empresta óculos de compreensão para agradecer por cada amigo que enfeita de vida a minha vida. Alguns estão há anos, outros vêm chegando e ficando. Vez em quando, nos estranhamos, imperfeitos que somos. A gaveta do perdão precisa ser grande; se não, a gaveta da felicidade, a primeira de todas, a razão pela qual nascemos, fica emperrada. 

Saio de casa e vejo o dia inteiro me esperando. E caminho no mundo respirando a vida grande que há mim.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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