Uma das perguntas mais difíceis de responder hoje em dia é “tudo bem? Como você vai?

Parece que as medidas mais drásticas de distanciamento social, como o fechamento do comércio, chocam e indignam mais do que colapso do sistema de saúde – Pixabay License

Olá, tudo bem? Não!

Por Igor Felippe Santos

Uma das perguntas mais difíceis de responder hoje em dia é “tudo bem? Como você vai?”.

As regras mínimas de convivência em sociedade cristalizaram como convenção dar uma resposta padrão, do tipo “sim, e com você?”, seguida por algo na mesma linha… 

Em situações normais, esse papo não é levado muito a sério. É só uma forma educada de começar uma conversa, com uma introdução para o assunto. 

Agora, o contraste dessa pergunta e a dureza da vida faz da resposta, que era uma convenção ingênua, em expressão de resignação e comiseração de todos nós. 

A preocupação com a disseminação da doença, o medo de pais e avós se contaminarem, as dificuldades para trabalhar e pagar as contas, a angústia de não poder sair pra tomar uma bebida ou ouvir uma música transformaram a nossa vida em um martírio.

A agonia de ver nossos filhos presos dentro de casa, a tristeza de passarem semanas sem encontrarem outras crianças, a dificuldade de acompanhar as aulas online em uma tela fria nos angustiam. 

“Não, não está tudo bem. Está tudo péssimo. Não é por que eu seja ranzinza. É porque não tem mais condições de fingir que as coisas estão normais. Não estão!”

Assistir ao noticiário é como ver um filme de terror. O número de casos e de mortos crescem, enquanto diminuem os estoques de vacinas, o número de leitos de UTIs em diversas cidades e os insumos básicos, como tubos de oxigênio. 

A incapacidade das instituições tomarem uma atitude e uma sociedade anestesiada temperam o sadismo do presidente Jair Bolsonaro diante da tragédia que vivenciamos dia a dia. 

Não, não está tudo bem. Está tudo péssimo. Não é que eu seja mal educado. É porque não dá para aguentar mais essa situação. 

Chegou a hora de falar a verdade. Não dá mais para ignorar o que vivemos no nosso cotidiano e sentimos no nosso íntimo.

Às vezes fico pensando que existe uma relação entre a resposta “sim está tudo bem” com essa apatia da sociedade. Virou algo banal morrer 1,5 mil, 2 mil ou 2.8 mil pessoas em um mesmo dia ou a abertura de valas em escala industrial com retroescavadeiras. 

Parece que as medidas mais drásticas de distanciamento social, como o fechamento do comércio, chocam e indignam mais do que colapso do sistema de saúde e a demora para retomar o auxílio emergencial… 

“Não, não está tudo bem. Está tudo péssimo. Sabe o que é pior? As coisas estão piorando, enquanto quase nada muda nas políticas dos governos e no comportamento das pessoas “

A maioria das pessoas, que tem que trabalhar para sustentar a família, enfrenta o medo da doença e do desemprego, pega ônibus e metrô e mantém as atividades. Segura a onda com o amor pela família e a fé em Deus. 

Aqueles que têm condições de se preservar e ficar em casa enclausurado muitas vezes se fecham em uma realidade paralela, se distanciando da realidade da maior parte da população.

Não, não está tudo bem. É hora de dizer a verdade e, quem sabe, começar a reverter essa sensação de impotência e tirar todos ao nosso redor da zona de conforto do “sim, tudo bem”. 

Quem sabe quando a maior parte dos brasileiros que vivenciam essa verdadeira tragédia absorver que as coisas não estão bem seja possível começar a mudar essa situação.

*Igor Felippe Santos é jornalista

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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