“O perfume da Rosa” – é a crônica de Gabriel Chalita desse domingo

Por Gabriel Chalita

Faz tanto tempo e o perfume, ainda, preenche. Os azulejos da cozinha são os mesmos. Envelhecidos pelo ar da idade. O azul se acalmou. As minhas inquietudes, também.

Era Rosa o nome da minha avó. Rosa é mais do que um nome, é uma vocação.
Meu avô, eu conheci pequeno e, pequeno, dele me despedi. Ouvi, desde sempre, o som de uma tosse perturbadora e o som de um amor cuidador. Rosa cozia a vida para iluminar aquele quarto onde foram tão felizes.

Eu gostava de ficar imaginando o que conversavam quando tinham um futuro. Ela era mais alta do que ele. Mais decidida, decidi eu que pouco conheci seus tempos de independência.

Quando minha mãe morreu, foi com ela que escrevi os dias. Sobre lembranças, posso escrever um tratado. Da minha volta da escola. Do sono com ela, depois do almoço. Seus dedos brincando de desarrumar os meus cabelos e de cantar canções de calmaria. 

De quando quebrei o braço. Mal sabia ela que era um desejo que eu, secretamente, alimentava. De ter gesso. Das pessoas escreverem dizeres. De quando chorei por ter sido reprovado no coral da escola. A gente afina e desafina, é assim a vida. E eu enxugava o resmungo e ia viver.  

Meu avô ouvia do quarto a conversa e gritava uns sons querendo entender. 
Ela socorria os dois. E também minha tia, a mulher mais namoradeira que já conheci. Pelo menos nas falas. Todo homem tinha propensão a querer viver uma história com ela. Mas era ela muito inteligente e eles se afastavam, era o que ela explicava. “Alessandro”, vou te ensinar a vida, dizia minha tia, que pouca vida teve antes de partir. 

Minha avó enterrou as duas filhas. E enterrou a tristeza, depois de um tempo. E encerrou as incompreensões de um fardo tão carregado. E viveu os dias sem reclamos. Seu semblante me inspirava. Os seus movimentos, eu imitava brincando.
Havia um roseiral no quintal. E eu gostava de ver as podas, os cuidados, as conversas. Uma Rosa dizendo às outras rosas os seus sentimentos. 

Digo isso, hoje, porque acordei com o cheiro da torta  de maçã  que ela fazia. 
Nunca soube que as memórias cheiravam. Cheiram. Cheiram saudade. Cheiram um tempo. O tempo doce das rosas. O prazer que minha avó tinha de cortar as maçãs, de preparar a calda, de enfeitar cada instante do seu dia para alimentar a vida.

No sepultamento do meu avô, lá estava ela. Altiva. Digna. Sabedora de ter feito o necessário. Chorou a despedida e, de mãos dadas, fomos para casa. Por algum tempo, ficou sozinha no Roseiral. Eu vi da janela. Eu fotografei na minha alma. 
No dia seguinte, arrumou o quarto. Separou o que o agasalhava e agasalhou outras pessoas.

Invariavelmente, ela levava tortas de maçãs para um asilo que ficava no quarteirão onde morávamos. Eu ia junto. Cresci indo junto com ela viver a generosidade. Sei que sofrimento não é escolha, escolha é o que fazemos com o sofrimento. Aturdido por barulhos insanos, é comum gritarmos a dor. Rosa gritava a coragem ou silenciava até encontrar forças. 

Na sala em que ela guardava boa parte dos seus livros, havia um sofá confortável onde eu me deitava no seu colo e pedia conselhos. Mesmo depois de crescido. Mesmo depois de liderar centenas de funcionários em uma empresa. Tirava o paletó, os sapatos e me deitava em Rosa e me perfumava de um amor inesquecível. Ela ora apenas ouvia, ora dizia. 

Ela morreu no despedir de um dia comum.
Já não morávamos juntos. Fiz de tudo para ela ir comigo. Agradecia sempre e sempre me explicava que gostava das recordações de onde vivia. Era um dia comum, como disse. Passei cedo na sua casa,  e ela estava na cozinha fazendo a tal torta. Falamos da morte, porque uma atriz amada havia morrido. “Que privilégio morrer trabalhando”, disse Rosa. E disse mais,  que a morte era apenas uma luz que mudava de lado, um caminhante que atravessava a margem de um rio, uma primavera que devolvia perfume às flores que o inverno levava. Gostava Rosa dos livros. Gostava de ler ou contar histórias para mim. Eu disse que passaria no fim do dia. E passei.

Na poltrona, Rosa estava, confortavelmente, sentada com um livro nas mãos. Os olhos cerrados indicavam a partida. As rosas no vaso antigo enfeitavam. E a música ainda prosseguia explicando o amor. Sem dores ela se foi, aos 93 anos. O cabelo impecavelmente arrumado. A leve maquiagem. O colar de pérolas que eu dei. E o cheiro da torta de maçã sobre a mesa, preparada para comermos juntos.

Faz tanto tempo e tudo é tão ontem dentro de mim.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantoniofilho

João Antonio da Silva Filho é Mestre em Filosofia do Direito pala PUC - SP. É autor dos livros "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", "A Era do Direito Positivo" e "O Sujeito Oculto do Crime - Reflexões Sobre a Teoria do Dominio do Fato", publicados pela editora Verbatin. Advogado, foi vereador da capital por três mandatos consecutivos e deputado estadual por São Paulo. João Antonio nasceu em São João do Paraiso - norte de Minas Gerais. Atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do municipio de São Paulo.
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