Poema Todas as cartas de amor são ridículas poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Os poemas modernistas se revelam pela sua liberdade formal: estrofes e métrica irregulares, ausência de rimas, vocabulário próximo da linguagem coloquial, etc.

A criatividade, em se tratando de versos amorosos, tem um singularidade. No caso do poema “Todas as cartas de amor são ridículas” destaca-se uma ideia repetitiva ao longo da composição como se o poeta quisesse “impor” um ideia aos seus leitores.

Todas as cartas de amor são ridículas

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Por que sentir vergonha das palavras ditas em momento de paixão?

Amar é envolver-se, é querer estar perto, é estar consciente de que a razão vai perder terreno para a emoção.

Em “Todas as cartas de amor são ridículas”, o genial Fernando Pessoa, com suas estrofes e métricas irregulares, traça o perfil de um apaixonado ou apaixonada.

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O juiz parcial que era viciado em condenar!

A suspeição do ex-Juiz Sérgio Moro recentemente foi julgada pelo STF, que acabou por ser favorável ao entendimento de que, de fato, houve parcialidade no julgamento dos processos envolvendo o ex-Presidente Lula, no âmbito da Operação Lava Jato, decisão que monopolizou o debate público nos últimos dias. O Professor Lenio Streck, no podcast de hoje, fala um pouco sobre os contornos da imparcialidade no processo penal.

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Pelo fim da política de paridade com os preços de importação de combustíveis

“A política de paridade com os valores de importação têm muitos inconvenientes. Os consumidores brasileiros pagam mais caro. Energia cara provoca inflação e faz a economia nacional perder a competitividade. Com preços elevados, a Petrobras perde mercado, suas refinarias ficam ociosas. Empresarialmente é melhor vender mais a preços módicos. Aliás, a modicidade dos preços é um dos princípios legais da política energética brasileira.”

Política de reajuste de preços de combustíveis para o mercado interno é nociva na medida em que transfere flutuações do preço internacional do petróleo – Petrobrás

Por Ricardo Maranhão

A política foi iniciada, em 2016 por Pedro Parente, ex-presidente da Petrobras, praticando preços de paridade internacional. Mantida por Parente, Ivan Monteiro e Castello Branco, evoluiu para Preços de Paridade de Importação, também chamados de PPI.

A paridade de importação é, ainda, mais nociva, pois inclui os custos de saída do mercado norte-americano, até um Porto, carregamento dos navios, taxas portuárias, frete, seguro, descarga e taxas portuárias no Brasil. Custo de internação no Brasil.

Esta política faz os preços praticados pela Petrobras dependerem, fundamentalmente, dos preços do óleo, dos derivados e da taxa de câmbio.

O mercado do petróleo é, sabidamente, imperfeito. Os 13/14 países componentes da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) mais a Rússia, a eles associada, produzem cerca de 40% do petróleo mundial.

:: Leia também: Petrobras “endividada” e as falácias do discurso que prega a venda da estatal ::

Periodicamente esses países se reúnem na Sede da OPEP (Viena) combinando restringir cotas de produção, para gerar escassez artificial, elevando os preços. O Brasil nada pode fazer, pois não integra a OPEP.

O mercado do petróleo e, obviamente, o dos derivados, também sofre influências de fatores geopolíticos e climáticos.

Os furacões, tufões, tsunamis e as nevascas com baixíssimas temperaturas, comuns no Golfo do México e nos Estados Unidos, paralisando plataformas e refinarias elevam os preços. O mesmo ocorre com os preços do gás e derivados utilizados para aquecimento residencial. No Brasil, praticamente, não temos estes transtornos.

A região do Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz, por onde passam milhões de barris de petróleo diariamente, é caracterizada por conflitos permanentes envolvendo Irã, Israel, Arábia Saudita, etc. Outros conflitos na Síria, na Ucrânia, desentendimentos com a China, Coréia do Norte, tudo contribui para a instabilidade nos preços do petróleo. 

Também a taxa de câmbio sofre a influência de fatores múltiplos. Tudo isto gera uma enorme volatilidade / instabilidade / variação nos preços do petróleo e dos derivados.

Nós, brasileiros, milhões de consumidores, não temos qualquer controle ou influência sobre esses fatores de instabilidade. Cabe a pergunta: por que preços internacionais se não temos renda per capita, PIB per capita, IDH, internacionais?

Dessa política de preços de importação, se prevalece a Abicom – Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis – somente fundada em 2016 após adoção desta política de preços para acusar a Petrobras de praticar “preços predatórios”, quando inferiores aos de importação. Ou seja, a Abicom exige preços da Petrobras mais elevados para que as sete ou oito empresas que a integram  possam importar derivados…

Veja o leitor, a propósito, o artigo Vender mais barato é crime, do ex-presidente da AEPET engenheiro Diomedes Cesário da Silva. Registre-se aqui a pouca representatividade da Abicom, com menos de dez associadas, quando há centenas de importadores de combustíveis registrados na ANP.

A prática de preços elevados só favorece aos importadores e às refinarias estrangeiras, sobretudo as norte-americanas.

Resumindo

A política de paridade com os valores de importação têm muitos inconvenientes. Os consumidores brasileiros pagam mais caro. Energia cara provoca inflação e faz a economia nacional perder a competitividade. Com preços elevados, a Petrobras perde mercado, suas refinarias ficam ociosas. Empresarialmente é melhor vender mais a preços módicos. Aliás, a modicidade dos preços é um dos princípios legais da política energética brasileira.

Os caminhoneiros, desesperados com os elevados preços e constantes reajustes do diesel (na gestão PARENTE, mais de cem em um ano), fizeram greve que, embora justa, com apoio popular, paralisou o país. Milhões de donas de casa, sobretudo as mais humildes, não podendo pagar preços exorbitantes pelos botijões de GLP, são obrigadas a usar lenha e carvão, com prejuízos para o meio ambiente e queimaduras.

O AGRONEGÓCIO perde competitividade, pois o preço do diesel eleva os fretes em um país onde o escoamento das safras é feito em grande parte pelo transporte rodoviário.

O país importa derivados de petróleo desnecessariamente, enquanto seu Parque de Refino fica subutilizado. A ociosidade das refinarias aumenta o custo unitário dos derivados.

O petróleo não refinado é exportado, sem agregar valor e importamos derivados mais caros.

Esta política nefanda e entreguista desconsidera a vantagem competitiva da PETROBRÁS, grande produtora, de cru, com um dos maiores Parques de Refino do mundo, moderno e com custos de processamento inferiores aos das refinarias americanas.

Diante de tantos malefícios, por que a insistência na manutenção desta política? Sua continuidade é necessária para viabilizar a venda das refinarias da PETROBRÁS. Esta operação, que se pretende efetivar a preços vis, como no caso escandaloso da RLAM, ensejará o surgimento de MONOPÓLIOS PRIVADOS ESTRANGEIROS, como indicados em estudos recentes do Departamento de Engenharia Industrial da PUC-RJ e do CBIE ADVISORY –Estudo sobre a Indústria Brasileira de Combustíveis.

O Estado Brasileiro ficará inerme, sem condições de influir nos preços dos derivados e os consumidores indefesos.

*Ricardo Maranhão, engenheiro, é Conselheiro Vitalício do Clube de Engenharia.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do blog Traço de União.

Texto publicado originalmente no portal Brasil de Fato. Acesse: https://www.brasildefato.com.br/

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HERANÇA DO MEU PAI – poema de Paulo Gabriel

Envelhecer aproxima do essencial:

a gratuidade do amor no beijo amigo,

uma tarde de sol na serra do Curral,

A paixão por Dostoiévski.

Manoel de Barros me olhando sorrateiro

e o tempo dedicado à oração para aliviar o tédio.

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Aprendi do pobres a compaixão e a beleza,

com seus gestos de amor tão leves

reorientam para a luz este mundo obsceno.

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A pé caminho e sou feliz,

não uso cartão de crédito e não preciso,

me basta a bondade no olhar dos excluídos.

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Se sou poeta, é graça divinal,

herança maior que meu pai me deixou ainda menino.

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MINHA ALMA ESTÁ EM BRISA – poema de Mário de Andrade

Este poema bonito é para aqueles que com o passar dos anos buscaram na racionalidade um significado para emoção. Leia com calma, você vai gostar.

MINHA ALMA ESTÁ EM BRISA

Mário de Andrade

Contei meus anos e descobri que tenho menos tempo para viver a partir daqui, do que o que eu vivi até agora.


Eu me sinto como aquela criança que ganhou um pacote de doces; O primeiro comeu com prazer, mas quando percebeu que havia poucos, começou a saboreá-los profundamente.


Já não tenho tempo para reuniões intermináveis em que são discutidos estatutos, regras, procedimentos e regulamentos internos, sabendo que nada será alcançado.


Não tenho mais tempo para apoiar pessoas absurdas que, apesar da idade cronológica, não cresceram.


Meu tempo é muito curto para discutir títulos. *Eu quero a essência, minha alma está com pressa … Sem muitos *doces* no pacote …

Quero viver ao lado de pessoas humanas, muito humanas. Que sabem rir dos seus erros. Que não ficam inchadas, com seus triunfos. Que não se consideram eleitos antes do tempo. Que não ficam longe de suas responsabilidades. Que defendem a dignidade humana. E querem andar do lado da verdade e da honestidade.


O essencial é o que faz a vida valer a pena.


Quero cercar-me de pessoas que sabem tocar os corações das pessoas …


Pessoas a quem os golpes da vida, ensinaram a crescer com toques suaves na alma


*Sim … Estou com pressa … *Estou com pressa para viver com a intensidade que só a maturidade pode dar.*


Eu pretendo não desperdiçar nenhum dos doces que eu tenha ou ganhe… Tenho certeza de que eles serão mais requintados do que os que comi até agora.


Meu objetivo é chegar ao fim satisfeito e em paz com meus entes queridos e com a minha consciência.


Nós temos duas vidas e a segunda começa quando você percebe que você só tem uma…

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Bolsonaro e Guedes são feitos do mesmo material

A liberdade, na visão dos considerados teóricos do neoliberalismo, se materializa na ordem da concorrência, e não no contrato social. Trata-se, portanto, de construir o mercado blindado das demandas democráticas e de redistribuição igualitária, “livre” de constrangimentos sobre o investimento e a lucratividade capitalista. Isso explicaria o movimento para desmantelar os sistemas de proteção social, a oferta pública, gratuita e universal de saúde e educação e a facilitar a captura do orçamento público por interesses privados.”

Por Silvio Almeida

A cada entrevista ou pronunciamento fica mais evidente que Paulo Guedes é o homem certo. Suas ideias, seu comportamento, sua gestão à testa do Ministério da Economia provam a cada dia que outro homem não estaria à altura —ou à baixeza, no caso— exigida para esse cargo. Nenhum outro ministro representa de forma tão essencial as forças políticas que levaram Jair Bolsonaro à Presidência da República.

O presidente da República e o ministro da Economia são absolutamente complementares e encarnam, ainda que em corpos distintos, um só espírito. São, portanto, apenas aparentes as suas contradições. 

De um lado um sujeito cuja falta de modos é lida como “autenticidade”. Manda jornalistas se calarem, desdenha do sofrimento da pandemia e agride quem dele discorda. Encarna o autoritário, que muitos pedem.

Na outra ponta, o “intelectual”, reconhecido pelo mercado como grande gestor e homem de sucesso. É o campeão da liberdade, que o mercado deseja. Mas nada como os momentos de crise para erodir as aparências e fazer emergir das profundezas a natureza gemelar dos dois personagens. Quando acossados, o ódio que nutrem a pobres, a trabalhadores, a pequenos empresários e a aposentados emerge de forma primordial e sem freios.

Mas que espírito é esse que no governo brasileiro habita dois corpos e que tem o poder de se apresentar simultaneamente como defesa intransigente da liberdade e ameaça à democracia? Há alguns anos as ciências sociais, nas mais variadas áreas, têm se esforçado para compreender o fenômeno que alguns denominam como neoliberalismo autoritário. Acho que nenhum outro termo pode explicar melhor o “bolsoguedismo”.

O uso do termo neoliberalismo autoritário é controverso. O termo se refere às condições objetivas e subjetivas surgidas com as transformações no regime de acumulação e no modo de regulação do capitalismo provocadas pelas crises do fordismo e do Estado de bem-estar social. Tais mudanças levariam à atualização das formas de regulação estatal na economia e a processos de reorientação ideológica conduzidos pelas exigências da concorrência de mercado.

O que os mais diversos autores têm apontado é que desde as suas origens o neoliberalismo esteve relacionado com o esvaziamento da democracia, já que medidas para limitar o poder econômico são consideradas interferências políticas que ameaçam à liberdade.

A liberdade, na visão dos considerados teóricos do neoliberalismo, se materializa na ordem da concorrência, e não no contrato social. Trata-se, portanto, de construir o mercado blindado das demandas democráticas e de redistribuição igualitária, “livre” de constrangimentos sobre o investimento e a lucratividade capitalista. Isso explicaria o movimento para desmantelar os sistemas de proteção social, a oferta pública, gratuita e universal de saúde e educação e a facilitar a captura do orçamento público por interesses privados.

Mas há os que considerem um absurdo a vinculação entre autoritarismo e neoliberalismo e, para tanto, fornecem exemplos de governos e países democráticos que adotaram o receituário neoliberal.

Pierre Dardot denuncia a confusão teórica daqueles que acusam essa incompatibilidade. Segundo o autor francês, é preciso distinguir: 1) autoritarismo como regime político; 2) autoritarismo político neoliberal e 3) a dimensão autoritária irredutível do neoliberalismo. O primeiro não é exclusividade de governos neoliberais. O segundo é resultado da acomodação das políticas neoliberais a distintos regimes políticos, democráticos ou autoritários, o que é determinado pelas circunstâncias históricas. Já o terceiro é o que Dardot chama de “restrição do deliberável”, o que, em outras palavras, é a decomposição das instâncias de participação popular por meio de “reformas” e uso de medidas jurídicas excepcionais, especialmente no que se refere a decisões econômicas. 

Guedes e Bolsonaro personificam a versão brasileira do centauro do neoliberalismo, que é metade liberdade econômica para o andar de cima da pirâmide social e metade repressão e violência para o andar de baixo. De vez em quando somos forçados a lembrar que é um único ser, com os mesmos projetos e o mesmo negacionismo da realidade social. No fundo, quem quer a liberdade de Guedes pede por autoritarismo; quem quer o autoritarismo de Bolsonaro é porque demanda a liberdade de Guedes.

Silvio AlmeidaProfessor da Fundação Getulio Vargas e do Mackenzie e presidente do Instituto Luiz Gama.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa o que pensa o blog Traço de União.

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O tempo dos senhores da morte – eles são numerosos e estão em muitas instituições brasileiras com a caneta na mão

“Reconhecer e participar das ações humanitárias que vêm mobilizando coletivos em todo o pais, de modo a assegurar a sobrevivência de amplas parcelas da população, pode ser um caminho. Proteger, fortalecer, cobrar de nossas instituições que cumpram seu papel de assegurar o direito pleno à saúde de toda a população, conforme preconiza a Constituição Cidadã, me parece ser nosso dever.”

Por Cida Bento

O desafio é escrever com mais leveza… é ser capaz de encontrar oásis no meio de tanta dor, é encontrar um cantinho, dentro de nós mesmas, para recuperar as energias, para retomar o passo.

Tempo difícil para preservar a nossa vida e a das pessoas que amamos. Tempo difícil para grande parte da humanidade, mas muito mais difícil pra quem vive num país que tinha muitas condições de evitar mortes pois teve chances de testar a população, de recorrer à vacina ainda em 2020 e evitar tornar-se o epicentro da pandemia no mundo.

Se como população brasileira sofremos ao ver milhares de pessoas morrendo a cada dia, tudo fica muito mais difícil quando a morte chega ao nosso convívio mais íntimo.

A pandemia levou minha cunhada. E as buscas por alternativas de curas, as correntes de orações, os laços de cooperação e solidariedade que unem nossa grande família desde sempre não foram capazes de mantê-la conosco.

As memórias de um grupo que se encontrava para cozinhar em família, para tocar e cantar samba, para comer e brincar juntos são memórias de vida insuficientes para enfrentar o tempo dos senhores da morte.

Eles são numerosos e estão em muitas instituições brasileiras com a caneta na mão, tomando decisões. Senhores da morte se propagam e aparecem em todo o canto, quando o território é fértil para isso.

Nosso ministro da Economia afirmou na terça(27) que não foi a pandemia que tirou a capacidade de atendimento do setor público, mas sim o “direito à vida”. O direito fundamental, grande vilão que incomoda tanto segmentos expressivos de nossas lideranças da economia na atualidade.

Todo o mundo quer viver cem anos, diz ele, destacando que a elevação das despesas em saúde decorre do processo de envelhecimento da população, que demanda mais serviços de saúde. Será que o ministro ficaria mais aliviado ao saber que em 2020, com a pandemia e as milhares de mortes diárias no Brasil, o tempo estimado de vida se reduziu em um ano em relação ao período anterior?

No cenário trágico em que vivemos, os senhores da morte focam as suas velhas agendas que ampliam a concentração brutal de riquezas e o aumento da extrema pobreza constatados nas manchetes dos jornais neste triste período pandêmico. Será que, quando alguns teóricos da economia afirmam que o “mercado” está fora dos territórios nos quais estão vigendo as normas da afeição humana, a empatia, a ética e a moral, eles estão sendo apenas realistas?

O significado da necropolítica conceituada por Mbembe nos ajuda a entender por que lideranças de organizações públicas e privadas se omitem ou agem ampliando os números de mortes a cada dia. E nós, aprisionados nos medos e desesperos e na frustração, como podemos recriar e ressignificar a vida?

Como viver o outro lado deste drama, exercitando a solidariedade, a empatia e a compaixão?

Reconhecer e participar das ações humanitárias que vêm mobilizando coletivos em todo o pais, de modo a assegurar a sobrevivência de amplas parcelas da população, pode ser um caminho. Proteger, fortalecer, cobrar de nossas instituições que cumpram seu papel de assegurar o direito pleno à saúde de toda a população, conforme preconiza a Constituição Cidadã, me parece ser nosso dever.

E finalizo rememorando uma filosofia africana —Ubuntu, que tem em sua essência respeito, solidariedade, empatia, valorizando a alteridade: “Eu sou porque nós somos”. Ubuntu é como uma ética social ligada à história da luta contra a violação da cidadania e dos direitos humanos. Uma sociedade com Ubuntu é acolhedora, hospitaleira, generosa e disposta a compartilhar.

É tudo de que precisamos neste momento!

Cida Bento

Cida Bento – Diretora-executiva do CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), é doutora em psicologia pela USP

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa o que pensa o blog Traço de União.

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Concerto da Orquestra Juvenil da Bahia em Paris termina em frevo

A orquestra Juvenil da Bahia encerrou na noite desta segunda-feira (12), em Paris, sua turnê na Europa. Os jovens sob a batuta do maestro Ricardo Castro e acompanhados pela pianista argentina, Martha Argerich, impressionaram o público pela qualidade musical do repertório apresentado na grande sala da Filarmônica de Paris e pela energia em cena.

Concerto da orquestra juvenil da Bahia na Filarmônica de Paris encerrou turnê europeia.
Concerto da orquestra juvenil da Bahia na Filarmônica de Paris encerrou turnê europeia. RFI

A Juvenil da Bahia foi a primeira orquestra brasileira a se apresentar na sala Filarmônica de Paris. A casa estava lotada. Os ingressos, colocados à venda em maio, esgotaram em 24 horas. 

Contrariando a tradição, o maestro e pianista Ricardo Castro entrou no palco com um microfone para dar boa noite ao público e explicar a história da orquestra, que é a principal formação do projeto educativo e social Neojiba (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia). Ele dedicou o concerto ao jovem estudante de violoncelo Marcelo que morreu assassinado, no último sábado (10), em um bairro carente de Salvador sem poder realizar o sonho de integrar o grupo. “Tocar, cantar e lutar nunca foram tão necessários”, afirmou o maestro.

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Deixe de lado seu amor ou ódio pelo réu em questão e responda: juiz pode grampear escritório de advocacia? Pode?

“Mas, então, por qual razão o STF é esculachado —e essa é a palavra— ao mais alto ponto? Simples: porque sua decisão desgostou determinados setores que são os mesmos que elogiam a corte quando julga a favor de suas opiniões políticas e morais. STF só é bom quando decide ficha limpae reforma trabalhista.”

STF é mais criticado por acertos do que por erros

Por Lenio Streck e Marco Aurélio de Carvalho

Decidido que Sergio Moro atuou como juiz parcial e incompetente para julgar o ex-presidente Lula, “iniciou-se a continuidade” dos ataques ao Supremo Tribunal Federal.

Já dá para fazer um “Dicionário de Dicas Chulas para Atacar o STF”, com pérolas como “exitosa construção da República da impunidade”, “para o Supremo, o crime compensa”, “plenário convalida chicana da Segunda Turma” e coisas desse nível.

Alguns críticos —incluídos jornalistas e advogados— parecem ter perdido o pudor e a elegância, partindo para o chutão. Às favas com o Estado de Direito. Esquecem do óbvio: acusação de crime exige apuração por juiz imparcial e juiz natural. No mundo todo, isso é sagrado: só se é considerado culpado por crime se foi obedecido o devido processo legal. Ou é linchamento.

A Constituição não é algo que se pode manipular ao bel-prazer das opiniões morais e políticas. Vejamos. Entre outros “pecadilhos” (sic), um juiz grampeia advogados do réu. Em qualquer lugar do mundo o juiz seria processado e preso. Pior: o juiz não era nem competente. E o réu ficou quase 600 dias preso por causa dos “pecadilhos”, a novilíngua para nominar crimes. Deixe de lado seu amor ou ódio pelo réu em questão e responda: juiz pode grampear escritório de advocacia? Pode? Ok. Estamos na barbárie.

Um médico não pode confundir a veia aorta com a perna torta. Também jornalistas não podem fazer terrorismo ao confundirem a suspeição, que é personalíssima, com uma nulidade que possa, automaticamente, ser estendida a outros réus. As palavras não possuem qualquer sentido. Isso tem nome: “hermenêutica da arbitrariedade jornalística”.

O STF mais é criticado por seus acertos do que por seus erros. Vejam que os dois casos que causam a perda das estribeiras dos críticos são tidos como “casos fáceis” na área jurídica (o da incompetência era tão simples que foi julgado monocraticamente por Edson Fachin). E, com a decisão de ambos, reitera-se, o Supremo reacreditou nosso sistema de Justiça, devolvendo parte importante da credibilidade perdida com o processo avançado de judicialização da política e de politização do Judiciário.

Mas, então, por qual razão o STF é esculachado —e essa é a palavra— ao mais alto ponto? Simples: porque sua decisão desgostou determinados setores que são os mesmos que elogiam a corte quando julga a favor de suas opiniões políticas e morais. STF só é bom quando decide ficha limpae reforma trabalhista.

Parece que não nos acostumamos à democracia. Em vez de festejarmos o STF por ter a coragem de dizer ao mundo que para combater crimes não se pode cometer crimes e que não somos menores do que o Tribunal Europeu de Direitos Humanos (que fulminaria atos como os de Moro, expulsando-o do cargo), fazemos o contrário, atacando a corte. E esquecemos de perguntar: direito vale menos do que a política?

Quando um jornalista é processado, ele quer ser julgado sem as garantias? No limite, o réu pode ser você. Então lembremos Tom Bingham: você pode odiar advogados, juízes, o direito etc. Imagine como seria o país sem essas coisas que você tanto ataca.

Só cresceremos como democracia se nos acostumarmos com ela. Quando perdemos, não podemos levar a bola para casa. E xingar o juiz. Simples assim.

Lenio Streck e Marco Aurélio de CarvalhoRespectivamente, advogado, jurista e professor e advogado; ambos são integrantes do Grupo Prerrogativas

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse:

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa o que pensa o blog Traço de União.

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“Terceira via é miopia – a ideia de aproveitar caras novas nunca deu certo.” Um texto de Ricardo Semler que precisa ser lido

“O Brasil só tem uma solução: redistribuição de riqueza enquanto cresce e não depois. Seja por impostos sobre fortunas, seja por pisos mínimos de seguridade social. Este é um país que precisa de caminhos socializantes, no sentido europeu.”

Por Ricardo Semler

Vez ou outra, eu dava um pulo no centrão de São Paulo para botar a prosa em dia com o Antônio Ermírio de Moraes. Saíamos para andar do jeitinho que ele gostava, de braços dados. Ele contava que a pior experiência da sua vida tinha sido se candidatar ao governo do estado. E dizia: “Não sei ser freira em bordel”.

A ideia de aproveitar caras novas para insuflar ar fresco num setor sórdido não é nova. E nunca deu certo. Acelera-se agora a corrida por um salvador da pátria, alguém que evite essa “escolha perversa”. Serve o Luciano Huck, mas serve também o Danilo Gentili —em breve, o Felipe Neto.

Os governadores famintos, sejam eles paulista ou gaúcho, também se oferecem. Ocorre que preparo para a Presidência requer 15 ou 20 anos de experiência profunda com deputados, juízes, polícia, povo. Significa comer muita empadinha no morro.

Por isso, Antônio Ermírio não era opção, Olavo Setubal foi um prefeito biônico que não deixou marca alguma e palhaços como Berlusconi e Sarkozy, ou mesmo o sério Bloomberg, maldizem o dia em que viraram terceira via.

Agora, com o sapo barbudo afiando a lâmina, a coisa entortou de vez. Ninguém imaginava mais um embate do PT com a direita.

Este país continua rodando no mesmo lugar há décadas. Somos agora o 85º no mundo em renda real per capita —com dólar a quase R$ 6— e éramos o 76º, com dólar a R$ 3, nos tempos do PT. Uma vergonha, tanto lá como cá. Parte dessa culpa é da elite, que sugou renda para si e financiou conservadores para lhes representar desde 1964. Emprestou uma bula simplória: fazer o bolo crescer para cada fatia ser mais gorda, para todos. O chamado “trickle-down economics”, que caducou desde a era “tech”.

O empresário costuma ser bom vendedor e ter uma inteligência lógica alta. Quase sempre com uma inteligência emocional e afetiva constrangedoras. Soa pitoresco achar que essa camada, de cultura rasa e visão política limitada, seja capaz de propor um candidato de terceira via.

Exemplo: 1.500 representantes da elite econômica demoraram mais de um ano para escrever um portentoso manifesto que sugere máscaras e distanciamento. Ora, em vez disso poderiam ter feito uma única reunião e dedicado exatos 11 dias de lucro das empresas da Fiesp e da Febraban para comprarem 500 milhões de vacinas. Em agosto do ano passado. Teriam gerado retorno de 20 vezes no PIB deste ano. Ou seja, falta até inteligência lógica-matemática.

Não é diferente quando empresários ovacionam o presidente, não precisando sequer do Zé Carioca da Havan como “cheerleader”.

O Brasil só tem uma solução: redistribuição de riqueza enquanto cresce e não depois. Seja por impostos sobre fortunas, seja por pisos mínimos de seguridade social. Este é um país que precisa de caminhos socializantes, no sentido europeu.

Quem ainda usa o termo comunista é um Neandertal —não existe mais um sequer no Brasil, nem no PSOL. Comunista é a China, que tem 150 cidades novas e modernas com 1 milhão de pessoas cada, pobreza em queda vertiginosa e uma economia que irá desbancar os EUA como a maior das potências.

Os mais desinformados acham que o PT inventou a corrupção e querem evitar a sua volta. Foi, sim, uma decepção imensa o PT, ou o PSDB, terem sido covardes e persistido na tentacular corrupção que já existia —mas que continuou inalterada desde então, ainda hoje com o Centrão S/A Balcão de Negócios no poder absoluto.

O governo atual vai se beneficiar da recuperação econômica que virá em 2022, polarizando com o PT. Fica a sugestão para colegas de elite: hora de repensar se o antiquado urdimento de uma terceira via ainda é uma estratégia inteligente. Afinal, tem como colocar um candidato modernizante sem se acertar com os partidos mais corruptos do país, dando ministérios em troca —onde poderão roubar à vontade? Isso é melhor do que o PT? em que sentido?

Querem morar numa Índia ou Nigéria e esquiar na Suíça ou finalmente terem orgulho de um país que avança? Proteger o seu capital é tirar pirulito dos pobres —nós, do dinheiro, fomos ironicamente muito bem durante a pandemia. Usem uns óculos de modernidade, gente: o Brasil é hoje um dos lugares mais chatos do planeta, mas colocar um animador de auditório não vai mudar nada.

Ricardo SemlerEmpresário, sócio da Semco Style Institute e fundador das escolas Lumiar; ex-professor visitante da Harvard Law School e de liderança no MIT (EUA)

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa o que pensa o blog Traço de União.

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“Um gato acariciando a janela” – crônica de Gabriel Chalita

Por Gabriel Chalita

Joaquim é o nome que dei a um gato que veio da rua e foi ficando.

Joaquim é o primeiro nome de Machado de Assis, o escritor que acariciou a alma da humanidade com os seus textos e os seus subtextos, com seus ditos e os seus mistérios. 

Joaquim, o gato, acaricia a janela, enquanto separo umas roupas para o bazar. O frio se aproxima, e eu fico incomodado cada vez que penso nos excessos e nas faltas. Tenho tanto e tanta gente tem nada.

Enquanto recolho, ouço música vinda de algum lugar. Deve ser da casa da Irene, contígua à minha. Ela gosta de revezar ópera com silêncio. Não me incomodo.

Na semana passada, fui encerrar o dia tomando chá em sua elegante mesa. Em silêncio, a música nos penetrava. De tempos em tempos, Irene explicava a canção. Havia algo de arrebatador em seus textos. Era sublime ouvir a sua voz entre vozes que preenchiam o mundo com a música. “Callas canta a dor como ninguém”, explica ela. Callas canta Carmen em uma explosão de beleza. Irene faz um movimento de devoção. É como um ritual sagrado em que o êxtase disfarça o cotidiano. 

Três lugares estavam cuidadosamente arrumados. O dela, o meu e um terceiro que, aos poucos, fui sabendo que era destinado a todos os ausentes. Irene não gosta das falas diretas. Mostra pouco do que é. E eu gosto de imaginar os seus mistérios. As luzes da casa são indiretas. Os abajures é que nos iluminam, na temperatura certa. Em cada canto, uma história.

Volto para casa e vejo Joaquim. Apago as luzes de cima e ligo um abajur próximo a uma poltrona antiga, herança do meu avô. 
Joaquim se preocupa nada com a vida. Mia de preguiça e percebe os movimentos sem grandes sobressaltos. Lambe o pelo limpando o que o incomoda. Come o que decide do que sirvo a ele. Quando quer, deita nos meus pés e oferece um afago. Quando quer, vai aos vizinhos examinar a noite. Não proibo nada. Veio por escolha e é por escolha que permanece.  

Volto às roupas guardadas e ao necessário desapego. A música diminui de presença. E, então, ouço um intermitente som de torneira pingando. Vou ao único banheiro da casa e nada. A torneira da cozinha está fechada. É a torneira do quintal. Sento ao lado dela e fecho os olhos para diferenciar os sons que incomodam dos sons que arrebatam a alma. Penso em Callas e na história que ouvi de Irene. Queria eu ter tido o amor de Callas, queria eu ter medicado as suas feridas da alma. A água vai pingando, enquanto Joaquim vem deitar próximo a mim. 

A lua não autoriza a escuridão. E, então, eu vejo as árvores que rejeitam os muros descansando na noite. Penso nas minhas impermanências, quando contemplo a gigante figueira que me olha pequeno.

Fecho a torneira. Já poetizei demais os pingos d’agua. É melhor entrar.  Joaquim entra comigo. E se esfrega tentando espantar pensamentos que possam me entristecer. Explico a ele que a tristeza faz parte de mim. A infelicidade, não. A infelicidade vem de um espírito fechado. Vem de lamúrias, de reclamos diante da vida. Isso não. Gosto da vida e das suas estações.

Já não sou tão moço. Já sinto o tempo pesando em mim. Já doem em mim as ausências e as impossibilidades. Mas são dores boas. Não choro os que se foram sem antes agradecer por terem estado. E, se percebo que as roupas já não mais me servem, experimento outras ou até a nudez exata de quem precisa se enxergar como é. 

Tive diversos amores. Alternei sobressaltos e prazeres. Autorizei me rabiscarem de descuidos, era medo de solidão. E desvalorizei algumas poesias que me amanheciam, era imaturidade. 
Não. Já não tenho a idade das culpas. Passei o que passei e fiz as escolhas que fiz com o que sabia, até então. Hoje, prossigo sabendo nada. 

Gosto de olhar os mistérios do olhar de Joaquim e de ficar imaginando de onde vêm os gatos. Tem ele muitas vidas? E eu?
A minha janela é diferente de todas as janelas que há, porque ele a acaricia. Porque vejo todas as ruas do mundo, vendo ele. Quanta estupidez em quem desconfia dos gatos. Desconfio eu dos humanos. Principalmente dos que não gostam de música.

Agora ouço outra ópera, entrando pela minha janela. Não sei se é Callas, mas decido que é.  A voz combina com o gato que combina com a noite que combina com a minha alma. 

Amanhã, levo as roupas para doar e fico comigo mesmo e com o que ninguém nunca vai tirar de mim.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

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No dia 25 de abril de 1974 explode a revolução dos cravos que põe fim a 40 anos de fascismo em Portugal.

Foi o movimento que derrubou o regime salazarista em Portugal, em 1974, de forma a estabelecer as liberdades democráticas promovendo transformações sociais no país. Após o golpe militar de 1926, foi estabelecida uma ditadura no país. No ano de 1932, Antônio de Oliveira Salazar tornou-se primeiro-ministro das finanças e virtual ditador. Salazar instalou um regime inspirado no fascismo italiano. As liberdades de reunião, de organização e de expressão foram suprimidas com a Constituição de 1933.

Portugal manteve-se neutro durante a Segunda Guerra Mundial. A recusa em conceder independência às colônias africanas estimulou movimentos guerrilheiros de libertação em Moçambique, Guiné-Bissau e Angola. Em 1968 Salazar sofreu um derrame cerebral e foi substituído por seu ex-ministro Marcelo Caetano, que prosseguiu com sua política. A decadência econômica e o desgaste com a guerra colonial provocaram descontentamento na população e nas forças armadas. Isso favoreceu a aparição de um movimento contra a ditadura.

No dia 25 de abril de 1974, explode a revolução. A senha para o início do movimento foi dada à meia-noite através de uma emissora de rádio, a senha era uma música proibida pela censura, Grândula Vila Morena, de Zeca Afonso. Os militares fizeram com que Marcelo Caetano fosse deposto, o que resultou na sua fuga para o Brasil. A presidência de Portugal foi assumida pelo general António de Spínola. A população saiu às ruas para comemorar o fim da ditadura e distribuiu cravos, a flor nacional, aos soldados rebeldes em forma de agradecimento.

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O Supremo consagrou a vitória do devido processo legal, do Estado de Direito e da justiça e jogou Sergio Moro no lixo da história

“O que importa, porém, já está decidido. O Supremo consagrou a vitória do devido processo legal, do Estado democrático de Direito e da justiça. O ex-presidente Lula, impedido por Moro de concorrer em 2018, está livre para disputar em 2022. E Moro irá para o lugar reservado aos canalhas: a lata de lixo da história.”

Por Cristina Serra

Na sessão do STF que examinou a equivalência entre turmas e plenário como fóruns de decisão da corte, uma rápida discussão entre os ministros Luís Roberto Barroso e Ricardo Lewandovski resumiu o cerne do que estava em jogo: se vale tudo no Judiciário para perseguir e prender inimigos políticos ou se ainda podemos acreditar na prevalência do devido processo legal.

A Vaza Jato mostrou que o ex-juiz Sergio Morosugeriu pistas, informantes e estratégias aos procuradores da Lava Jato, ou seja, tramou fora dos autos como chefe da investigação. Violou o direito básico do réu a um juiz imparcial e desprezou o código de ética da magistratura. 

O ministro Barroso considerou que a Vaza Jato revelou apenas “pecadilhos”, “fragilidades humanas”, “maledicências”. A complacência não passou em branco para Lewandovski, que lembrou outros excessos de Moro muito antes da entrada em cena do hacker e do site The Intercept, como conduções coercitivas e prisões preventivas excessivas.

Acrescento aqui a interceptação telefônica de advogados de defesa e o vazamento do grampo ilegal de conversa entre Lula e a presidente Dilma Rousseff. À época, a ilicitude mereceu apenas leve reprimenda do então relator da Lava Jato, Teori Zavascki, morto em 2017, e o assunto foi encerrado com pedido de “escusas” de Moro. Lewandovski assinalou também que as críticas ao modus operandi do ex-juiz não podem ser confundidas com defesa da corrupção. É uma distorção costumeira e que desqualifica esse debate. 

Como o ministro Marco Aurélio Mello se aposentará em breve, espera-se que seja rápido na devolução do caso ao plenário. O Brasil precisa virar essa página. O que importa, porém, já está decidido. O Supremo consagrou a vitória do devido processo legal, do Estado democrático de Direito e da justiça. O ex-presidente Lula, impedido por Moro de concorrer em 2018, está livre para disputar em 2022. E Moro irá para o lugar reservado aos canalhas: a lata de lixo da história.

Cristina Serra é paraense, jornalista e escritora. É autora dos livros “Tragédia em Mariana – a história do maior desastre ambiental do Brasil” e “A Mata Atlântica e o Mico-Leão-Dourado – uma história de conservação”.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa o que pensa o blog Traço de União..

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Termômetro do tempo – texto de Mimila K Rocha

Hoje quando eu acordei a serração encobria o belo…

A serenidade do vento, quase imperceptível, encompridava o tempo do sereno,

e as folhas das árvores lentamente deixavam escorrer pingos de orvalhos fazendo sons para os ouvidos apurados.

Diferentemente de outros dias não se ouvia o canto dos pássaros,

Acho que eles estavam em compasso de espera…

esperavam o astro rei, com sua energia incontida, dispersar naturalmente tudo que ofuscava sua visão.

Naquela manhã, a tristeza disfarçada de cinza dobrava as curvas da estrada e, como se fosse esconder atrás do morro, fugia de mim…

A vida é assim: mesmo diante de tenebrosas expectativas ela insiste em querer superar as incertezas.

Mimila K Rocha

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O próximo Presidente, por Renato Janine Ribeiro

Pior (talvez) : em 2023, quando começar o próximo mandato, serão já quase dez anos de conflitos internos que romperam o tecido social, dissolveram o pacto de cavalheiros que manteve em temperatura aceitável as divergências capitaneadas por PT e PSDB e, ainda mais grave, desfizeram amizades e até laços de sangue.”

Não, não quero discutir quem será o próximo presidente. Fala-se disso o tempo todo. Quero falar do perfil que precisará ter.

Ele vai colher um Brasil devastado. Fomos um dos países que pior lidou com a pandemia. Quando a economia global voltar a crescer – e talvez cresça com fúria, com gula por commodities, como as que o Brasil fornece – nosso país estará com deficiências graves.

Vai demorar a recuperar-se dos danos à saúde. Terá morrido ou estará com sequelas sérias muita gente necessária ao desenvolvimento econômico. Os custos com a saúde serão bem mais altos do que se tivéssemos investido pesado na prevenção (máscaras, distanciamento etc etc).

Pior (talvez) : em 2023, quando começar o próximo mandato, serão já quase dez anos de conflitos internos que romperam o tecido social, dissolveram o pacto de cavalheiros que manteve em temperatura aceitável as divergências capitaneadas por PT e PSDB e, ainda mais grave, desfizeram amizades e até laços de sangue.

Isso, sem falar nos desastres para a economia, uns causados pela má gestão da pandemia, outros pela inépcia na direção dos assuntos econômicos.

O ódio terá sido nossa herança. 

Quer dizer que o próximo presidente precisaria ser alguém capaz de dirigir o País com firmeza e habilidade, de recompor diálogos, de agregar gente em vez de desagregar. Teremos tido quase dez anos de guerra civil verbal. Precisaremos de paz – mas paz com firmeza, não simplesmente uma passagem de pano.

Quando Dilma e Serra disputaram a presidência, em 2010, escrevi um artigo na Folha, dizendo que havíamos tido dois presidentes que eram líderes – FHC e Lula – e o cargo estava sendo disputado por dois gerentes. 

E comentei: é raro termos líderes. (O líder não precisa conhecer os dossiês técnicos, o que ele precisa é entender o que os especialistas explicam para ele e transformar isso em política, persuadindo os atores sociais e, também, a sociedade, o povo, o eleitorado). 

Agora, para recompor a economia, restabelecer os laços sociais, fazer o País avançar, será necessário um líder. Mas haverá? A grande maioria dos candidatos não tem esse perfil. E ficou tão grande a raiva, a divisão, aumentou tanto a fome e a mortalidade, que não vai ser tarefa para qualquer um.

Renato Janine Ribeiro é um professor de filosofia, cientista político, escritor e colunista brasileiro. Foi ministro da Educação do Brasil, entre abril e setembro de 2015. É Professor-titular da cadeira de Ética e Filosofia política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa o que pensa o blog Traço de União.

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