Sobre as qualidades do Padre Ticão como defensor da democracia e símbolo da luta pelos pobres

O incansável Padre Ticão

Por João Antonio

Conheci Antonio Luiz Marchioni, o nosso querido Padre Ticão, numa abordagem policial na porta de uma metalúrgica chamada Foz, no bairro da Penha, Zona Leste da cidade de São Paulo. Eu, com 19 anos de idade, militante da Pastoral da Juventude na Regional Episcopal de São Miguel Paulista. Ele, padre recém-formado. Naquele período o bispo na região era Dom Angélico Sândalo Bernardino.

Aquela manhã de 1979 não saiu mais da minha mente. O Brasil estava sob a égide de uma ditadura militar. Tempos difíceis, pois falar de liberdade, defender melhores condições de trabalho ou se reunir para falar de política eram atos considerados “subversivos”.

Naquela manhã lá estávamos eu e Cicero do Crato convidando os trabalhadores da Foz para uma reunião no Salão paroquial da Catedral da Penha. Distribuíamos uma “filipeta” –que era como denominávamos à época um quarto de uma folha de papel impressa de forma rudimentar. Nela estavam os seguintes dizeres: “Trabalhadores da Foz: precisamos lutar por melhores condições de trabalho. Convidamos todos para uma reunião, no salão paroquial da Catedral da Penha, sexta feira as 19hs. Contamos com vossa presença!”.

De repente, três viaturas e policiais sem nenhuma identificação apareceram e, numa abordagem rápida, os policiais nos deram voz de prisão. Padre Ticão lá estava, juntamente com o ainda diácono e hoje Padre Assis e o Padre Renato Silveira Martins. Todos, na tentativa de impedir nossa prisão, se identificaram aos policiais, argumentando que se tratava de um convite para uma reunião da Pastoral Operária, sem nenhuma conotação partidária. Não obtiveram sucesso.

Lá estávamos todos nós, padres e leigos, detidos e conduzidos ao Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (DEOPS-SP), órgão responsável pela repressão política no Estado. Graças à intervenção do Arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns e do bispo Dom Angélico em menos de 20 horas estávamos todos livres das garras da repressão.

Eu posso dizer que conheci o nosso Padre Ticão literalmente na resistência democrática. Era um defensor incansável dos fracos e dos oprimidos que nos deixou no dia primeiro de janeiro de 2021.

Para quem o conheceu e teve o privilégio de com ele conviver, falar do Padre Ticão é falar de seus traços marcantes:

1. Determinado: para ele não havia obstáculos intransponíveis em se tratando de defesa dos oprimidos, dos fracos e dos excluídos.

2. Intransigente: Padre Ticão Sabia como ninguém conjugar o verbo “transigir”. Para ele, acordo era diferente de submissão e o verbo acordar era sempre relacionado a resolução um resolver conjuntamente.

3. Pacificador: ele sabia que as desigualdades sociais decorrentes da ganância pelo lucro a qualquer custo eram a causa da desarmonia social. Por isso adotou o lema: “A paz é fruto da Justiça” como modo de vida. Travou o bom combate sempre do lado certo da história.

4. Perseverante: nunca desistia dos seus sonhos. Para o Padre Ticão, o Reino dos Céus começa aqui na terra, com mais igualdade social, reconhecimento do ser humano como ele é, com seus sentimentos, suas idiossincrasias, seus desejos – enfim, para ele respeitar era ver o outro como sua imagem e semelhança.

Um lutador genuíno, que nunca esmoreceu! Para ele a justiça era prima-irmã da solidariedade. E assim se comportou durante todos os seus anos de vida.


Viva o Padre Ticão e sua história!

Veja abaixo uma entrevista com Padre Ticão: Histórias de encontros

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MULHERES DE ATENAS – CHICO BUARQUE DE HOLANDA, VISTO COM OLHAR FEMININO

Mulheres de Atenas é uma música brilhante de Chico Buarque. É uma música única e profunda: Chico nos pede para olharmos para nós mesmas, para refletirmos, para enfrentarmos nossa estrutura de valores e nos questionarmos se somos mulheres de Atenas. E nos pergunta: Estão vendo que é de verdade o que vocês pensam que é de mentira?

A música é o palco onde se expressa o ritmo social: nela encontramos os valores, aceitos ou impostos, que regem todas as nossas relações. Encontramos os modelos: o que entendemos por heróis e por anti-heróis. A música é a grande foto do contexto onde ela nasce. Apresenta o que nós mesmos gostamos, respeitamos, desejamos…E o que já não aceitamos. Ousaria dizer que a música e o direito são medidores e tradutores de nós mesmos e dos nossos limites.

Mulheres de Atenas é uma música que Chico escreveu, com a magnificência que só um gênio da MPB poderia fazer, transcrevendo para um pedaço de papel um pedaço de nós, mulheres do Brasil, mulheres do mundo, mulheres de Atenas. Essa música sempre me provocou arrepios. Arrepios de nostalgia, um quase sofrer por compaixão, porque as mulheres de Atenas são atemporais e se encontram em todos os espaços.

A música é um pedido: Desperta mulher de Atenas! Te liberta, não te deixe secar. A letra é brilhante, a estrutura medieval é riquíssima e a melodia parece adentrar pelos poros.

Chico faz uma costura entre a Ilíada e a Odisséia, ambas de Homero, duas das maiores obras de todos os tempos. Trata especialmente de Penélope e de Helena de Tróia, dois símbolos de mulheres.

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Penélope, mulher de Ulisses, herói de Odisséia, como símbolo de fidelidade e dignidade frente a seu amado. Ela o espera durante os 20 anos de sua ausência. 

Helena, que desperta a paixão de París, filho do Rei de Tróia, por quem é raptada deixando para trás Menelau, rei de Esparta, deu origem a guerra de Tróia e é o símbolo da beleza. Ela mantém o encanto sobre os homens, despertando o desejo deles de regressarem: “quando se entopem de vinho costumam buscar um carinho de outras falenas. Mas no fim da noite, aos pedaços, quase sempre voltam pros braços de suas pequenas Helenas”.

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Não é necessário ser um doutor em “direitos das mulheres”, como eu me ocupo em ser, para compreender uma parte repulsante da nossa história – a nossa como um todo, desde sempre, em todos os lugares e culturas – de posição e função de mulher “coisificada”. Especialmente as mulheres de Atenas de hoje, que se colocam ou se deixam colocar na posição das mulheres de Atenas: aceitam ser, mesmo que não sejam mais obrigadas, mulheres no molde de Atenas, da Grécia antiga. Ou seja, mulheres que “vivem, sofrem, despem-se, geram, temam e secam”, que “não têm gosto ou vontade, nem defeitos nem qualidade. Têm medo apenas”.

Os valores cravejados na cultura contemporânea ainda são maculados com uma imagem de mulher perfeita nos moldes do patriarcado. “Uma mulher boa”, que cuida dos filhos, do marido, que trabalha fora, que tem renda, que seja feliz, que aceite, que não conteste, que se faça bela. Resumindo: a beleza, assim como a de Helena, para manter o amor do seu amado, e a fidelidade, como a de Penélope, para ser “digna” do amor dele.

Abrir mão do seu próprio ser como sacrifício legítimo para a função social que exerce. Essa é a grande ironia. Mulheres de Atenas é uma música pautada na ironia: “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas”. Quer dizer justamente o contrário: Cuidado mulheres, para não caírem no modelo das mulheres de Atenas! Mirem-se no exemplo e façam o contrário! Para aquelas que não se dão conta que vivem nesse modelo de séculos atrás, se deixando secar por seus amores, para que assim sejam amadas ou dignas, mesmo que esse amor seja só delas para eles.

Os homens de Atenas, ironicamente enaltecidos por Chico, os heróis bravos, orgulhosos e poderosos, guerreiros e procriadores, que se deliciam com as falenas (prostitutas, sereias…) são na verdade aventureiros infiéis e ausentes, muitas vezes agressivos, violentos e irresponsáveis.

Essa suposta supremacia masculina é resultado de uma distorção de valores. Uma divisão sexista, com leis que até pouco tempo atrás protegiam o homem como senhor da verdade e da honra, um direito que ainda está engatinhando para deixar de ser discriminatório e que foi mantenedor de uma cultura Ateniense.

É a nossa MPB, nossa música popular brasileira que pede para nós mesmas deixarmos de sermos mulheres de Atenas e que tem a sensibilidade de sentir que há muitas mulheres de Atenas em terras canarinhas. A música suplica, em nome de todos, para as mulheres de hoje: não se deixem secar! 

Não haverá mais nenhum homem de Atenas, aventureiros infiéis e ausentes, agressivos, violentos e irresponsáveis, se não houverem mais mulheres dispostas a serem mulheres de Atenas.

laislocatelli

LAÍS LOCATELLIDe alma cigana, de curiosidade espontanea…Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo. .
Saiba como escrever na obvious.

Publicado originalmente no site Óbvious. Acesse: http://obviousmag.org/

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‘Diante do avanço do bolsonarismo no que ele tem de pior, poder-se-á dizer que fracassamos’, escreve Roberto Amaral

“Diante de tanto progresso do atraso, e do avanço político do bolsonarismo no que ele tem de pior – suas raízes protofascistas –, poder-se-á dizer que fracassamos, ou não fizemos o que era necessário. A nos desafiar, permanece intocada a aliança do capitão com as estruturas comandantes das forças armadas, fonte de seu poder e de sua petulância, dando fôlego ao movimento conservador e autoritário que penetra mesmo nos setores populares, os quais, teoricamente, deveriam estar mais infensos às teses da direita e da extrema-direita. Aí reside a questão nodal. O fascismo como expressão de poder foi derrotado no campo de batalha, mas sobrevive como ideologia. Não bastará derrotar o governo do capitão, se não derrotarmos sua representação junto às massas.”

Sem ruptura, não haverá progresso

(Fotos: Elineudo Meira/ @fotografia.75/Fotos Públicas)
(FOTOS: ELINEUDO MEIRA/ @FOTOGRAFIA.75/FOTOS PÚBLICAS)

Por Roberto Amaral

Chegamos ao final da segunda década de um século que, consumidas as alegrias de 2002, logo se anunciou encoberto por nuvens de maus presságios: 2013 com os idos de junho chegou sem pedir licença, anunciando o que não queríamos ver. O ano de 2020, continuará em 2021, com a pandemia do novo coronavírus, seu lastro absurdo de 200 mil mortos (mais de 600 por dia) entre nós, acentuando a pobreza e as desigualdades sociais, como se não fosse já suficiente para a humanidade a barbárie que é o capitalismo em si. O capitão insiste em negar a gravidade da pandemia, e na data de hoje não sabemos quando teremos vacinas à disposição de nosso povo. Não bastaram ao Brasil, como mazelas, nem a pandemia nem a exasperação capitalista do neoliberalismo triunfante, pois nossos erros construíram ainda o bolsonarismo. E como na política, tanto quanto na vida, não existe almoço grátis, estamos pagando o preço, pena que nos espera por mais dois anos, pelo menos.

O próximo ano se anuncia duro para o povo trabalhador, e desfrutável para os especuladores e o grande empresariado. Cessará o auxílio emergencial, aumentando a miséria dos extremos da pobreza do país mais desigual do mundo. O salário mínimo não sofrerá reajuste real e os operadores do dito “mercado” preveem crescimento da inflação. Continuará a quebradeira das pequenas e médias empresas, avanço do desemprego (segundo o IBGE já somamos mais de 14 milhões de brasileiros fora do mercado de trabalho) e com ele o precariado e o lupenato. Seguirá a uberização da força de trabalho, sem previdência ou qualquer garantia trabalhista. Esses dados não emocionam a tecnocracia fazendária, pois são anunciados cortes nos programas sociais sobreviventes e aumento de impostos, sempre incidindo sobre o consumo e jamais sobre a renda ou a riqueza ou a transmissão de herança, ou os sagrados lucros do capital especulativo.

Prosseguirá a devastação ambiental, avançará a desconstituição do Estado como instrumento de desenvolvimento, com as privatizações de empresas essenciais (como a Eletrobrás) no foco da classe dominante, que mais tem fome de lucro fácil quanto dele mais se alimenta. Para a indiferença dos pelegos de entidades como a CNI e a FIESP e suas quejandas, o “Brasil-potência” cantado em verso e prosa pela ditadura militar de 1964 foi transformado por Bolsonaro e os generais que aí estão em uma economia agroexportadora, como éramos no Império, como éramos nos anos 30 do século passado, governados pelos interesses da plutocracia cafeeira de São Paulo.

Diante de tanto progresso do atraso, e do avanço político do bolsonarismo no que ele tem de pior – suas raízes protofascistas –, poder-se-á dizer que fracassamos, ou não fizemos o que era necessário. A nos desafiar, permanece intocada a aliança do capitão com as estruturas comandantes das forças armadas, fonte de seu poder e de sua petulância, dando fôlego ao movimento conservador e autoritário que penetra mesmo nos setores populares, os quais, teoricamente, deveriam estar mais infensos às teses da direita e da extrema-direita. Aí reside a questão nodal. O fascismo como expressão de poder foi derrotado no campo de batalha, mas sobrevive como ideologia. Não bastará derrotar o governo do capitão, se não derrotarmos sua representação junto às massas.

Ninguém mais contesta que as esquerdas, capitaneadas pelo PT, perderam a batalha ideológica junto à classe média e consideráveis segmentos populares – nada obstante o caráter anti-povo e anti-nação, autoritário e negacionista, reacionário e obscurantista do bolsonarismo. Mas talvez tenhamos feito o que as contingências da vida real permitiam, considerando nossas dificuldades e o desencontro das forças progressistas na interpretação do desafio político.

Em que pese tudo, ainda há os que pensam que estamos sob as asas de um governo como outro qualquer, e tudo voltará ao normal após as eleições de 2022, anunciadoras de uma transição de governo, como a que tivemos em 2003. Subjacente a esta tese está a política de conciliação, que só serve à casa-grande, à conservação da ordem dominante, a serviço da sociedade de classes, que depende da intocabilidade do statu quo para conservar o domínio de uma minoria mínima sobre os interesses da população como um todo. Por isso, qualquer aceno à ruptura, sem a qual não haverá progresso, é recusado como pecado capital.

Pouco se avançou na oposição congressual, mas não sei se mais poderíamos esperar quando nossa presença física é relativamente muito pequena na câmara e no senado. Mesmo assim, o aumento do valor do auxílio emergencial foi uma conquista de nossos partidos (que não soubemos ou não pudemos explorar), como, ao final da legislatura, a derrota imposta ao governo quando conseguimos, ouvindo as entidades de classe, ajudar a salvar o Fundeb e com ele a escola pública. Mas é preciso dizer que foi decisiva a mobilização sem precedentes de entidades como CNTE, Fineduca e Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Houve também vitórias a contabilizar na frente judicial, que, por exemplo, pôs um freio nos atentados às instituições. Isso mostra que, sem vitórias estratégicas, pudemos impor derrotas táticas ao inimigo.

Estamos em face do projeto de um novo regime civil-militar, de fonte autoritária e burguesa (de uma burguesia desapartada dos interesses nacionais), com forte apoio no capital financeiro nacional-internacional e, ainda hoje, com arrimo em segmentos ponderáveis da classe-média e do proletariado, perdidos pela esquerda a partir de 2014, perda que não conseguimos sanar, por carecermos de ânimo para identificar suas dolorosas causas. Por isso mesmo, o passado está sempre presente, ameaçando preservar-se. A alternativa de luta compreende todas as formas democráticas e institucionais conhecidas, como a ação parlamentar, mas a esta não pode ser circunscrita, em face de suas limitações. Exemplo claro do vazio ideológico é a ausência do debate político na disputa (circunscrita à direita) das presidências das mesas da câmara e do senado federal. Nesse episódio as oposições findaram como força coadjuvante, e, por não fazer seu próprio caminho, terminaram sem o direito de escolha.

Não há como pensar em enfrentamento ao bolsonarismo no curto e no médio prazos longe de uma frente comprometida com a defesa das instituições democráticas e da vida. Essa frente deve compreender as forças sociais e políticas mesmo ideologicamente heterogêneas, quando unificadas em uma perspectiva crítica do capitalismo, o que nos tem faltado, quando mais clara é a evidência de que os países do submundo subdesenvolvido, satélites do subsistema periférico, não encontrarão autonomia no capitalismo, embora possam lograr alguma sorte de desenvolvimento econômico com contração social, como nos anos do “milagre” dos militares. Neste vasto campo, a esquerda socialista — repito: sem abandonar a via parlamentar — deve priorizar, como urgente e inadiável, a organização popular e sindical, aquela de há muito descurada, esta vivendo certamente sua maior crise, mercê de inumeráveis erros táticos e estratégicos, mas sem duvida alguma uns e outros agravados pela crise do trabalho decorrente dos avanços das novas tecnologias e da automação das relações de produção.

Dizer “que viemos de várias derrotas e estamos na defensiva e num descenso das lutas sociais e populares” é um ponto de partida, mas cai no vazio se nos detivermos na constatação pura e simples. É preciso ir adiante, identificar as razões do recuo, e, principalmente, apontar saídas. Em primeiro plano devemos considerar que um dos fatores, dentre muitos, para o óbvio recuo, não só das esquerdas mas das forças progressistas e democráticas de um modo geral, é a quase anomia de nossas organizações (e é sempre necessário pôr de manifesto, pelo seu significado, a crise existencial do PT, paralisando-o e suas principais lideranças). Para enfrentar tais desafios o mecanismo ainda é a frente de esquerda como ocorreu nas eleições paulistanas deste ano. Vencida esta etapa, segue-se a frente ampla democrática. E não descurar, seja da denúncia do capitalismo – que presentemente nos enseja tantos argumentos! –, seja da defesa do socialismo, que, não pode ser reduzido a uma mera utopia, ou sonho para um amanhã distante. O capitalismo não cairá como jenipapo maduro. É preciso balançar a árvore. O socialismo não cairá do céu, nem resultará de uma lei histórica: será ou não o fruto da ação dos homens e mulheres livres. Lutar por ele é preciso.

Roberto Amaral
ROBERTO AMARAL – Cientista político, ex-ministro da Ciência e Tecnologia e ex-presidente do PSB. Autor de “Socialismo, Morte e Ressurreição” (Editora Vozes).

Publicado originalmente no portal Carta Capital. Acesse: https://www.cartacapital.com.br/

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Jackson do Pandeiro – o rei do ritmo

Foto: reprodução

Por Rebeca Fuks – doutora em Estudos da Cultura

Biografia de Jackson do Pandeiro

José Gomes Filho, conhecido como Jackson do Pandeiro (o Rei do Ritmo), foi um importante instrumentista, compositor e cantor que gravou uma série de forrós e sambas e ajudou a popularizar a cultura nordestina.

O artista nasceu em Alagoa Grande (Paraíba) no dia 31 de agosto de 1919.

Origem

O rapaz era filho de José Gomes (oleiro) e Glória Maria da Conceição (também conhecida como Flora Mourão, uma cantadora de coco famosa na sua cidade natal).

José Filho viu desde cedo a mãe se apresentar e ficou interessado no universo da música. Percebendo a curiosidade do filho, Flora ofereceu quando o menino tinha oito anos um pandeiro.

O garoto começou a tocar com a mãe nas festas de Alagoa Grande.

Quando o menino tinha 13 anos ficou órfão de pai e a família se mudou para Campina Grande.

Carreira musical – os primeiros passos

Fruto de uma família humilde, José começou a trabalhar cedo e foi engraxate, biscateiro e entregador de pão.

Aos 17 anos abandonou o emprego na padaria e foi substituir o baterista do Clube Ipiranga, tendo logo depois se tornado o percursionista oficial do grupo.

Em 1939 fez uma dupla com José Lacerda (irmão de Genival Lacerda) e começaram a se apresentar em Campina Grande.

A mudança de cidade

No princípio da década de 40, o artista se mudou para João Pessoa. Na capital da Paraíba atuou em cabarés e na rádio Tabajara durante seis anos. 

Em 1948 se mudou para Recife onde trabalhou na Rádio Jornal do Comércio. Foi durante esse período que abandonou de vez o nome de batismo para adotar o nome artístico Jackson. Nessa época fez dupla com o apresentador e compositor Rosil Cavalcanti.

Seu primeiro grande sucesso a estourar foi Sebastiana, que ganhou a boca do povo quando o artista já tinha 35 anos.

A saída do Nordeste

Depois de participar de programas em duas rádios importantes (a Mayrink Veiga e a Tupi), Jackson acabou por ser contratado pela Rádio Nacional.

Vivendo no Rio de Janeiro (para onde se mudou em 1954), foi ganhando fama com a música Forró em Limoeiro.

Jackson também participou, durante a década de 50, de uma série de filmes ao lado da sua então companheira Almira.

A vida pessoal do artista

Jackson foi casado com Almira Castilho de Albuquerque (a cerimônia aconteceu em 1956), sua parceira no mundo artístico e na vida até 1967, ano em que se separaram.

O artista se casou pela segunda vez com a baiana Neuza Flores dos Anjos.

Morte de Jackson do Pandeiro

Vítima de uma embolia cerebral e pulmonar, Jackson do Pandeiro faleceu aos 62 anos, em Brasília, durante uma excursão (após um show), no dia 10 de julho de 1982.

O artista foi enterrado no Cemitério do Caju (no Rio de Janeiro).

Rebeca Fuks

Rebeca Fuksdoutora em Estudos da CulturaFormada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).

Fonte: https://www.ebiografia.com

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O desafio da renovação, após o fosso ético que o golpe de 2016 nos jogou

“Com efeito, São Oscar Romero, o Arcebispo de São Salvador assassinado por defender os mais empobrecidos daquela sociedade tão desigual teve a alcunha de “A voz dos que não têm voz”. Tamanho foi o ódio dos poderosos contra o verbo dos despossuídos que lhe tiraram a vida, mas continuou a ecoar, com ainda mais força.”

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A cultura, o conhecimento e o diálogo em muito podem-nos ajudar a entender o porquê das coisas e interpretar as saídas do poço’

Por Milton Randó

No ano novo que se aproxima, teremos o desafio posto da renovação, em meio ao velho, ao decrépito, ao obsoleto.

Não se trata de tarefa de pouca monta, tendo em vista o fosso ético, jurídico e político em que fomos lançados com o golpe de estado de 2016.

A cultura, o conhecimento e o diálogo em muito podem-nos ajudar, na medida em que nos auxiliam a entender o porquê das coisas e interpretar as saídas do poço – que sempre existem – mas que muitas vezes não reconhecemos.

Um grande escritor nicaraguense, Fernando Silva, médico, romancista e poeta, em seu livro “O Comandante” afirma: “A riqueza do homem é a tranquilidade”.

Com efeito, sem ela dificilmente conseguiremos identificar as formas de superação de obstáculos, impasses e medos.

Com ela, podemos subir e ver de cima os problemas, dimensionando-os melhor e buscando saídas adequadas.

Na obra citada, o protagonista – referindo-se a um dos outros personagens – procede à seguinte reflexão: “Este velho está só, pensava eu, e precisa falar, porque o único que pode curar a solidão é a voz, a voz cura o medo também”.

Com efeito, São Oscar Romero, o Arcebispo de São Salvador assassinado por defender os mais empobrecidos daquela sociedade tão desigual teve a alcunha de “A voz dos que não têm voz”. Tamanho foi o ódio dos poderosos contra o verbo dos despossuídos que lhe tiraram a vida, mas continuou a ecoar, com ainda mais força.

O mesmo impulso teve Edward Snowden ao denunciar o controle ilegal e massivo das comunicações de todo o mundo, por parte do governo dos Estados Unidos da América.

Deu voz aos que não sabiam que suas escutas estavam sendo devassadas, não apenas violando sua privacidade, mas tendo conversas e imagens – inclusive dentro dos próprios lares – ilegalmente invadidas, com finalidades políticas as mais torpes, como a preparação do referido golpe de estado no Brasil e em outros países, por exemplo.

A esse respeito, recomendo a leitura de “Snowden, um herói do nosso tempo“, de Ted Rall, publicado pela Editora Martins Fontes.

Trata-se de obra seminal para entender em que nível de controle vivemos, valendo observar que tanto os aparelhos de telefone quanto os de televisão, mesmo desligados, podem transmitir sons e imagens para as centrais de espionagem. O governo dos EUA obtém-nos sem qualquer legalidade, consentimento ou pudor, de cidadãos estrangeiros e nacionais, aos bilhões.

Snowden, o ex-agente da CIA que se rebelou contra essas práticas ilegais, asseverou: “Eu tinha as credenciais para grampear qualquer um, desde você ou seu contador até um juiz federal e até mesmo o presidente, se eu tivesse um e-mail pessoal”.

Vale recordar que essa amplitude de espionagem foi obtida após os atos de terrorismo de 11 de setembro de 2001, que destruíram as Torres Gêmeas em Nova York, matando e ferindo milhares de pessoas.

Como resultado e como bem conclui o autor do livro em apreço: “Numa era de terror, muitos acreditavam que a legalidade era um luxo”.

Os reflexos dessa prática – de considerar um luxo a legalidade – foi o que justificaria o golpe de estado de 2016 no Brasil, com a consequente perda, de fato, da soberania nacional, do retorno da fome e do desemprego ao país; pior, acometido por uma pandemia e sob um desgoverno genocida, que sequer tem um plano de vacinação, quando países vizinhos como a Argentina e o Chile já iniciam a imunização de suas populações mais vulneráveis.

Em contraponto, Noam Chomsky, em “O debate Chomsky – Foucault, natureza humana, justiça vs. poder“, fez as seguintes reflexões: “Ficando no que interessa e esquecendo os legalismos, o que acontece é que o estado está tentando processar pessoas por expor crimes dele, Estado. Em suma, é isso que está acontecendo.

Ora, é claro que isso é absurdo, e não devemos dar a mínima atenção a essa distorção de qualquer processo judicial razoável. Além disso, creio que o sistema legal até mesmo explica por que ele é absurdo. Mas se não o fizesse, então teríamos que nos opor a esse sistema legal”.

Chomsky arremata: “O conceito de legalidade e o conceito de justiça não são idênticos, mas também não são inteiramente distintos. Na medida em que a legalidade incorpore a justiça – no sentido de uma justiça melhor, que diga respeito a uma sociedade melhor -, então deveríamos seguir e obedecer à lei e obrigar o Estado a obedecer à lei, e obrigar as grandes corporações a obedecerem à lei, e obrigar a polícia a obedecer à lei, se tivermos o poder de fazê-lo.

É claro, naquelas áreas em que o sistema legal acaba não expressando uma justiça melhor, mas, pelo contrário, expressa as técnicas de opressão que foram codificadas em um sistema autocrático específico, então um ser humano razoável deveria desconsidera-las e opor-se a elas, ao menos em princípio. Pode ser que, por alguma razão, ele não possa fazê-lo de fato”.

Em 2021, teremos muito a discernir: será um belo desafio, poderá ser uma aurora.

Milton Rondó
MILTON RONDÓ – Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

Publicado originalmente no portal Carta Capital. Acesse: https://www.cartacapital.com.br/

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog Traço de União.

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Quadro A Noite Estrelada, de Vincent van Gogh

O quadro A Noite Estrelada, de Vincent van Gogh, foi pintado em 1889. É um óleo sobre tela, com 74 cm X 92 cm, e se encontra no Museu de Arte Moderna de São Francisco (SFMOMA).

A pintura retrata a vista da janela do quarto do artista no hospício de Saint-Rémy-de-Provence.

noiteestrelada

Análise, interpretação e contexto

Vincent van Gogh pintou esta tela quando estava no hospício de Saint-Rémy-de-Provence, onde se internou voluntariamente em 1889, após ter cortado a sua própria orelha. Van Gogh sofria de depressão e de surtos psicóticos.

Durante este período ele realizou vários estudos de lugares dentro do hospício, como o corredor e a entrada. As saídas de Van Gogh eram controladas. O pintor tinha pouco contato com o mundo exterior, o que o deixou com limitações de temas para a pintura. O artista resolveu se dedicar mais a interpretações de obras de outros artistas.

Dentro do hospício, Van Gogh tinha acesso a duas celas: uma onde dormia, e outra no térreo, onde podia pintar as suas telas. A Noite Estrelada é a vista da cela na qual ele dormia, pouco antes do nascer do sol. O pintor não podia fazer suas telas nesse quarto, porém ele tinha carvão e papel, no qual fazia esboços em que trabalhava mais tarde na cela dedicada à pintura.

Van Gogh era pós-impressionista e foi considerado um dos pioneiros da arte moderna. Podemos observar em suas obras uma representação do mundo, com pinceladas fortes, mas quase nenhuma abstração. O quadro A Noite Estrelada é considerado um dos mais importantes de Van Gogh pois conta com algumas pequenas abstrações, que se tornarão matéria essencial para o modernismo.

Principais elementos da obra

Essa tela é uma das mais importantes de Van Gogh. Faz parte de uma série de telas que representam a vista que ele tinha da janela de seu quarto no hospício. Todas estas obras têm em comum os montes no horizonte. A Noite Estrelada é o único registro feito dessa paisagem durante o horário noturno.

O uso das espirais

colinas

As espirais são a primeira coisa que chama a atenção neste quadro. As pinceladas rápidas em sentido espiral dão uma sensação de profundidade e movimento ao céu. Esse aspecto do quadro pode ser considerado impressionista.

pinceladas

Estas espirais são características das obras de Van Gogh desse período. São diversas as pinceladas usadas para dar esse efeito.

A Vila

vila

A pequena vila representada na quadro de Van Gogh não fazia parte da paisagem vista pelo seu quarto. Alguns críticos acreditam que ela é uma representação da vila na qual o pintor passou a infância. Outros acreditam que seja a vila de Saint-Rémy. Para todos os efeitos, a vila é uma inserção no quadro feita pelo artista, sendo um componente imaginado.

O cipreste

cipreste

O cipreste é um elemento comum nas obras de Van Gogh. Está árvore está associada à morte em diversas culturas europeias. Elas eram usadas nos sarcófagos egípcios e nos caixões dos romanos. O cipreste passou a ser comum para ornamentar cemitérios e quase sempre está relacionado à morte.

Para Van Gogh, o interesse nos ciprestes tem um carácter formal. O pintor apreciava muito as formas pouco comuns que o cipreste apresenta e a sua fluidez. Os belos movimentos que esta árvore faz ao vento estão representados nesse quadro.

As estrelas

estrelas

As estrelas são um dos elementos mais importantes do quadro. Além da sua beleza plástica, elas são representativas pois demonstram uma grande abstração no quadro. Em um primeiro momento Van Gogh não ficou satisfeita com a tela. Para ele, as estrelas eram muito grandes. Ele diz que se deixou levar pelas ideias abstracionistas ao compor estrelas tão grandes.

Interpretação da obra

A obra de Vicent van Gogh é um marco na história da arte. Sua beleza plástica é notável e os elementos que compõem a obra mostram o trabalho de um artista maduro. Muitos críticos consideram a obra um marco na carreira de Van Gogh, mesmo não tendo apreço do pintor quando foi feita.

A pintura é muito expressiva, a visão do céu noturno turbulento com as espirais é marcante e faz contraste com a calmaria da pequena vila pouco abaixo das linhas dos montes.

Um cipreste que sobe na vertical toma a frente do quadro, como uma figura de destaque no meio da paisagem. Ao seu lado, a torre da igreja também se projeto para o alto, mas de uma forma um pouco mais tímida. Ambos projetam uma ligação entre a terra e o céu. Esses são os dois elementos verticais nessa pintura de Van Gogh.

Fonte portal Cultura Genial. Acesse: https://www.culturagenial.com/

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Aqui, vende-se a liberdade como liberação do peso regulatório do Estado – texto Jacqueline Muniz

“Esta liberalidade perversa tem vencido porque é vendida como libertária. Este tem sido o jogo governamental: oferta desmedida de repressão violenta na esquina contra a “bandidagem” e o liberou geral para o “cidadão macho, branco, hétero de bem”. Tiro, porrada e bomba e pagação de moral de cima, de baixo, ao redor e entre nós.”

Ele, o “não vou tomar vacina e o problema é meu”, teve vontade e coragem de ver a gente! – Alan Santos / Fotos Públicas

Liberação e libertinagem ainda que tardias

Por Jacqueline Muniz

Aglomerados, juntos e misturados com o Presidente na CEAGESP: comerciantes, funcionários, policiais, militares, políticos. Ufa, Zé Gotinha não foi. E ele ainda continua com elevada intenção de votos? Veja: Ele, o “não vou tomar vacina e o problema é meu”, teve vontade e coragem de ver a gente!

Vende-se a responsabilidade como algo somente individual. Aqui, vende-se a liberdade como liberação do peso regulatório do Estado, da pressão civilizatória da sociedade para ocultar a pilhagem no mercado e o cassino no governo.

Esta liberalidade perversa tem vencido porque é vendida como libertária. Este tem sido o jogo governamental: oferta desmedida de repressão violenta na esquina contra a “bandidagem” e o liberou geral para o “cidadão macho, branco, hétero de bem”. Tiro, porrada e bomba e pagação de moral de cima, de baixo, ao redor e entre nós.

O regime da esculachocracia posto em funcionamento requer o falso gozo do escracho libertário, do chutar o pau da barraca, do praticar o politicamente incorreto. Porque se está nu em direitos e com as mãos vazias no bolso, se pode ser verdadeiramente “autêntico”, ser o que se é despido das “aparências da sociedade” e liberto das exigências do Estado de direito.

Viva! Não é mais preciso “dar conta” e “prestar contas” a ninguém. Pode-se gastar sozinho a fartura do miserê material e existencial para se segurar no aqui-agora frente a certeza da escassez de futuro no daqui a pouco.

Desafiar as normas do Estado e as regras da sociedade se tornou o lugar da revolução libertária de quem experimenta e se beneficia da mobilidade social reversa e da desigualdade cultural, social e material vividas. Assiste-se ao “tamu-junto” dos possuidores insatisfeitos com sua acumulação de horizontes e dos despossuídos revoltados com sua falta do amanhã.

E daí? Este é um coro uníssono de forte apelo que aponta para o rendimento da ruptura do pacto político. O distrato coletivo é a nova lei áurea dos devotos de si portadores de baixa estima social. Naturalmente desiguais e, por isso, unidos na crença de que estão emancipados da Sociedade e do Estado.

Este é o unguento moral que anestesia os traumas sociais e permite acordos político-econômicos particulares: a culpa é sua para você poder colocar em quem quiser: no “sistema”, na constituição, no partido, no SUS, na vacina, na favela, enfim, na natureza humana.

Desregular, desregulamentar e desinstitucionalizar são o modo de governo. Todos são transformados em empresários de si e que “fizeram por merecer” a herança, o berço e as oportunidades recebidas.

Este não é um mundo de gados, robôs, isentões e adesionistas desprovidos de vontade, infantilizados e desresponsabilizados politicamente por estas desqualificações tutelares. Este é um mundo de lacradores, da escolha individualista em sua plena streap-tease, do arbítrio levado as últimas consequências da arbitrariedade das nossas razões particulares de cor, gênero, orientação sexual, classe, etc.

Quanto mais se assume o preconceito e se tira a discriminação do armário melhor. Afinal, o lugar ao sol na sociedade do dislike requer generalizar a engrenagem da exclusão social para ficar na frente da fila dos direitos transformados em privilégios. Quanto menos gente no cercado VIP da reprodução social melhor.

Cada um no seu quadrado porque está tudo ficando dominado pela exaustação emocional, cansaço existencial e incerteza material. “Tem que mexer nisso daí”, nesta nossa visão de mundo que cria e dá vida a ventríloquos que vocalizam “libertação e libertinagem ainda que tardias”. Pois é esta nossa mentalidade que tem vencido as eleições.

Jacqueline Muniz é Antropóloga, especialista em segurança pública e professora da UFF.

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Confira 16 fatos curiosos sobre as corujas

As  corujas são algumas das mais fascinantes e misteriosas aves de rapina que existem no mundo. Elas chamam atenção pela beleza e marcam presença. Não é para menos que alguns dos fatos apresentados na lista a seguir são surpreendentes.

Foto: Reprodução

1. Espécies de corujas

Existem mais de 150 espécies de corujas no mundo. Algumas contas podem até indicar um número maior, cerca de 220 espécies, isso vai depender de como as diferenças serão classificadas. A maior variedade delas está na Ásia, enquanto somente 10 são encontradas nos Estados Unidos e no Canadá.

2. Em todo lugar

Essas aves podem ser encontradas em diferentes habitats, exceto na Antártica. Você irá encontrar um número maior de corujas em florestas, mas elas estão em qualquer lugar que ofereça presas em abudância para a caça, incluindo áreas urbanas.

3. Visão

Todas as corujas têm uma postura ereta e olhos para frente, o que as dá visão binocular, como a dos seres humanos. Entretanto, os olhos delas não são esferas, mas sim tubos que providenciam uma percepção de profundidade melhor e permite que elas vejam suas presas a grande distância – por outro lado a visão aproximada não é tão clara.

4. Audição

Muitas espécies possuem orelhas assimétricas, ou seja, de tamanhos e posições na cabeça diferentes. Isso as concede uma audição superior e a habilidade de identificar onde está a presa, mesmo sem conseguir vê-la.

5. Cabeça flexível

Os olhos de uma coruja têm uma estrutura óssea como suporte, o que não permite que eles se virem. Ao invés disso, a ave tem a capacidade de rodar cabeça em até 270 graus (135 graus para cada lado). Em outras palavras, elas possuem uma boa flexibilidade, mas não é verdade que elas conseguem dar uma volta completa com a cabeça, o que muitas pessoas acreditam.

6. Ratos

Uma coruja-das-torres pode comer até mil ratos por ano, normalmente engolindo o animal inteiro. Muitos fazendeiros usam de diferentes truques para atrair a espécie e controlar a população de roedores em suas propriedades e plantios.

7. Alimentação

As corujas são animais carnívoros e irão comer roedores, mamíferos de pequeno ou médio porte, insetos noturnos e outros pássaros, incluindo corujas menores. Depois de digerirem a comida, elas regurgitam pelotas duras de osso comprimido, pelo, dentes, penas e outros materiais que não conseguiram digerir. Cientistas estudam essas pelotas para aprender mais sobre a dieta desse animal.

8. Pés

As corujas possuem pés zigodáctilos com dois dedos apontando para frente e dois dedos apontando para trás. Todos os dedos possuem calcanhares afiados. Isso traz mais firmeza, força e poder, tornando-as predadoras mais eficientes.

9. Penas

As penas são especiais e possuem franjas que ajudam a camuflar o som que elas produzem quando estão voando. Suas grandes asas e corpos leves também fazem com que elas sejam voadoras praticamente inaudíveis, o que as ajuda a perseguir presas sem serem notadas com facilidade.

10. Machos e fêmeas

Na maior parte das espécies as fêmeas são maiores, mais pesadas e mais agressivas do que os machos. Além disso em muitas delas também é possível perceber que a fêmea é mais colorida.

11. Noturnas?

Nem todas as corujas são noturnas. O quão frequentemente uma coruja é vista durante o dia depende da quantidade de comida que ela encontra nesse período e de seu habitat. Em tempos de stress ou quando a comida está escassa, essas aves podem caçar a qualquer momento, só para terem alimento suficiente.

12. Nômades

A maior parte das corujas não migra, mas elas podem ser nômades em procura das melhores fontes de alimentação. A coruja-das-neves, por exemplo, possui ‘casas’ regulares, mas, ás vezes, irão aparecer inesperadamente bem longe de sua área regular.

13. Fósseis

Existem documentações de fósseis com mais de 58 milhões de anos. O maior já documentado na história tinha 91 centímetros de altura.

14. Simbologia

As corujas têm sido símbolos culturais há bastante tempo, e foram encontradas em pinturas rupestres na França, em hieróglifos egípcios e até mesmo na arte Maia. Hoje, elas são vistas como símbolo de inteligência por alguns. Algumas culturas supersticiosas ligam o animal à má sorte e morte.

15. Ameaças

As maiores ameaças de vida para as aves são a perda de habitat, pesticidas que envenenam e excassez de comida e mercado negro.

16. Sons

As corujas conseguem emitir uma grande variedade de sons, como ganidos, assobios, latidos e sílvios. Durante a estação de reprodução, os chamados delas corujas conseguem ser ouvidos de uma boa distância. As fêmeas normalmente possuem vozes mais agudas do que os machos.

Fonte: https://wwwcanaldopet.ig.com.br

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Papa cita D. Hélder e resgata o melhor da tradição católica brasileira

‘Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista’ foi a frase do brasileiro usada por Francisco na mensagem de Natal

D. Hélder Câmara, arcebispo emérito de Recife e Olinda (PE), em 1969
D. Hélder Câmara, arcebispo emérito de Recife e Olinda (PE), em 1969 – Acervo UH – 1969/Folhapress

Por Fernando Haddad

A história de Portugal e do Brasil têm relação peculiar com o cristianismo.

O cisma do Oriente (1054) e a tomada de Jerusalém pelos turcos seljúcidas (1078) deram ensejo às Cruzadas que impulsionaram a retomada da Península Ibérica pelos cristãos.

Em 1139, Afonso Henriques foi aclamado rei de Portugal, aceito pelo reino de Leão quatro anos depois. Mas só com a bula Manifestis Probatum (1179) a independência de Portugal foi reconhecida pelo papa, de quem o rei passou a ser vassalo. Nascia o primeiro Estado-nação europeu, que se transformaria, três séculos depois, num império global.

Nesse longo percurso, estabeleceu-se um acordo entre o papa e o monarca português denominado “padroado régio”, que deu ao último enorme poder sobre assuntos religiosos nos territórios conquistados e por conquistar, como nomear para cargos religiosos e controlar a cobrança do dízimo. No Brasil, depois da independência, esse regime vigeu até a proclamação da República, quando o Estado tornou-se laico.

Apesar disso, a Igreja Católica sempre manteve estreitos laços com o poder e, sobretudo na área social, mantinha relação de parceria contraditória com a República, querendo, de forma louvável, para suprir a omissão do Estado, realizar com recursos públicos aquilo que fazia, inicialmente, com doações privadas.

Essa relação foi se ajustando, não sem percalços, inclusive recentes, como na regulamentação do Fundeb.

Cabe notar, não menos importante, a participação da Igreja Católica no processo de redemocratização. Muitos líderes católicos abraçaram com tal vigor a causa das liberdades individuais e da justiça social que passaram a ser referência internacional. Um deles, D. Hélder Câmara, patrono brasileiro dos direitos humanos, foi indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz.

Duramente combatido pela ditadura militar, D. Hélder foi citado pelo papa Francisco na sua mensagem de Natal, na qual resgatou a famosa frase do bispo brasileiro: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”.

A lembrança resgata o melhor da tradição católica brasileira, num momento em que nossa gente padece com um governo que atenta reiteradamente contra a vida, sobretudo a dos mais pobres.

Ao longo da sua história, a Igreja Católica já teve que rever suas posições sobre temas delicados. Uma coisa, porém, é certa: quando reafirmou sua autonomia em relação ao poder e optou por agir contra a injustiça, ela honrou seu compromisso com os fundamentos da sua existência.

D. Hélder não poderia ser mais inspirador.

Fernando Haddad – Professor universitário, ex-ministro da Educação (governos Lula e Dilma) e ex-prefeito de São Paulo.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog Traço de União.

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O meu amanhã – poema de Mimila K Rocha

Foto: Diogo Losso/Divulgação/ND

No meu amanhã:

Não quero a escuridão sem o amanhecer…

Nem vou gesticular a pedidos,

Vou dar aos meus gestos um sentido…

Para poder pertencer.

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Vou dar preferência a agitação; sem desprezar o sossego.

Vou amar com reciprocidade, porém com desapego.

Caminhar com a multidão sem banalizar o complexo…

Para fazer da diversidade o cominho do certo.

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Não vou esperar a ordem de início para depois caminhar…

Nem vou me fazer de surdo para poder escutar,

Vou pregar a esperança como meio de ser feliz…

Me libertar das amarras sem medo do que virá.

Mimila K Rocha

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Democracia e desigualdade devem ocupar lugar central no debate político pós-pandemia

Tratar a questão da desigualdade será também assunto prioritário na próxima quadra histórica. Penso que o tema se desdobrará em duas grandes questões. O primeiro desdobramento será um novo debate sobre o papel do Estado na economia. Os delírios neoliberais de “cada vez menos Estado” mostraram-se um retumbante fracasso, inclusive para o mercado. Sem um sistema forte e coeso de proteção social, como é o caso do Sistema Único de Saúde, a tragédia da Covid-19 poderia ser muito maior.”

O Estado de bem-estar social apareceu no fim do século XIX com políticas que visavam a redução da desigualdade social.

Ano de 2021 começará com enormes desafios e não haverá mais lugar para pensamento idealista apartado dos conflitos da realidade.

Por Silvio Almeida

Utilizo esta última coluna do ano para tratar do que considero os principais assuntos sobre os quais a sociedade terá que se debruçar nos próximos anos: democracia e desigualdade.

O debate sobre democracia e desigualdade não é recente nem uma novidade. Entretanto, a pandemia, a crise econômica e a incapacidade política demonstrada por grande parte dos governos expuseram as imensas contradições do que se convencionou chamar de democracia e a insuficiência das medidas contra a desigualdade.

O ano de 2020 evidenciou que as garantias jurídico-formais da democracia não são suficientes para assegurar a participação popular no processo político. Governos autoritários, com propensões genocidas e “suicidárias” (na expressão de Paul Virillo) foram eleitos e, utilizando-se da forma democrática, desorganizaram social e economicamente seus respectivos países, instalaram desconfiança no próprio sistema que os permitiu chegar ao poder e foram direta ou indiretamente responsáveis pela morte de milhares de pessoas devido ao modo com que se portaram no contexto da pandemia.

Da mesma forma mostraram-se falhas e limitadas as instituições encarregadas de zelar pela democracia. O domínio das fake news, o ambiente anti-intelectual e a distorção provocada pelos algoritmos das redes sociais colocam em xeque um dos postulados máximos do processo democrático, a informação baseada na verdade. Parte do problema também repousa na maneira como os interesses econômicos e o alinhamento às políticas neoliberais têm se refletido na tolerância da grande imprensa e do sistema de justiça com governos autoritários e comprovadamente incompetentes. Caminhamos para um mundo em que a degradação das condições de vida, a destruição ambiental e a desorientação existencial faz com que se instaure um grave dilema entre democracia e ordem social.

Tratar a questão da desigualdade será também assunto prioritário na próxima quadra histórica. Penso que o tema se desdobrará em duas grandes questões. O primeiro desdobramento será um novo debate sobre o papel do Estado na economia. Os delírios neoliberais de “cada vez menos Estado” mostraram-se um retumbante fracasso, inclusive para o mercado. Sem um sistema forte e coeso de proteção social, como é o caso do Sistema Único de Saúde, a tragédia da Covid-19 poderia ser muito maior. Nesse sentido, a instituição de uma renda básica universal está definitivamente na agenda brasileira, não apenas por sua capacidade de fortalecer o sistema de proteção social, mas pelos impactos positivos da medida sobre o conjunto da economia.

O segundo desdobramento será a questão racial. A ascensão de governos ancorados em um “neoliberalismo autoritário” expôs a forma como o racismo é um elemento organizador da desigualdade. O silêncio teórico da economia acerca do racismo foi quebrado, o que revelou ao fim e ao cabo a insuficiência de políticas de desenvolvimento econômico que não tratam da desigualdade racial. A partir de reflexões sobre política industrial, relações de trabalho, tributação, ciência e tecnologia e empreendedorismo terão que observar os impactos sociais do racismo.

O ano de 2021 começará com enormes desafios teóricos e práticos e não haverá mais lugar para que democracia e desigualdade sejam pensadas de modo idealista e apartado dos conflitos da realidade.

Silvio AlmeidaProfessor da Fundação Getulio Vargas e do Mackenzie e presidente do Instituto Luiz Gama.

Texto publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog Traço de União.

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Tratado geral das grandezas do ínfimo – poema de Manoel de Barros

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.


Meu fado é o de não saber quase tudo.


Sobre o nada eu tenho profundidades.


Não tenho conexões com a realidade.


Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.


Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).


Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.


Fiquei emocionado.


Sou fraco para elogio.

Manoel de Barros

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Monica Albuquerque e Saulo Laranjeira catam desenredo de Paulo César Pinheiro e Dorival Caymmi

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Se deseja recuperar protagonismo, esquerda deveria ter candidato na Câmara – texto de Breno Altman

Ao contrário de Sofia, enclausurada pelo aparato nazista, aprisionam-se a si próprios os partidos que se conformam com essa dualidade conservadora. Jogam para dentro, não para fora, abdicando de disputar a opinião pública e fazer desse episódio um bom capítulo na acumulação de forças rumo ao que importa, a batalha pelo governo federal.”

O deputado Baleia Rossi concede entrevista coletiva junto com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia — Foto: Luis Macedo / Câmara dos Deputados

A FALSA ESCOLHA DE SOfIA

Por Breno Altman

Algumas vozes progressistas recorrem ao clássico livro “A Escolha de Sofia”, de William Styron, para definir a disputa pela chefia da Câmara dos Deputados, prevista para fevereiro de 2021. A personagem central da obra, prisioneira em Auschwitz, viu-se diante da opção de salvar apenas um de seus dois filhos, entregando o outro aos braços da morte.

Para setores de esquerda e centro-esquerda, somente seriam possíveis dois caminhos na eleição para o comando da principal Casa parlamentar: apoiar o candidato preferido de Jair Bolsonaro, Arthur Lira (PP-AL), ou Baleia Rossi(MDB-SP), escolhido pela oposição de direita.

A maioria das lideranças propõe sufragar o postulante indicado por Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, para derrotar o Planalto e supostamente garantir um Parlamento menos servil. Essa foi a principal razão aludida por PT, PC do B, PSB e PDT ao decidirem se integrar ao bloco articulado pelo atual comandante da Casa.

Ao contrário de Sofia, enclausurada pelo aparato nazista, aprisionam-se a si próprios os partidos que se conformam com essa dualidade conservadora. Jogam para dentro, não para fora, abdicando de disputar a opinião pública e fazer desse episódio um bom capítulo na acumulação de forças rumo ao que importa, a batalha pelo governo federal.

Mesmo dentro do PT, o principal partido de esquerda, com a maior bancada de deputados, é determinante o peso dos que defendem um papel circunstancialmente auxiliar à agremiação, refutando alternativa fora do pacto com a centro-direita. Insiste-se nessa tese ainda que seja em dois turnos o sistema de eleição para a presidência das Casas parlamentares. Trocando em miúdos: poderia ser apresentada, na primeira volta, uma candidatura do campo progressista, sem comprometer eventual composição, no segundo turno, que derrotasse o bolsonarismo.

O risco seria ficar, em caso de derrota, sem cargos na Mesa Diretora. A grande vantagem estaria em aproveitar as semanas de campanha para defender um programa independente, estruturado sobre três pontos fundamentais: votação da abertura do processo de impedimento contra Jair Bolsonaro, renda mínima emergencial de R$ 600 até junho de 2021 e revogação do teto de gastos, com o fortalecimento do SUS.

Se a esquerda pretende recuperar protagonismo para construir uma alternativa viável de governo que encante as classes trabalhadoras e a juventude, talvez devesse refletir sobre a prioridade de recompor sua identidade política, ideológica e cultural, enfrentando em todos os espaços a aliança estrutural entre neofascistas e neoliberais que domina a República.

Afinal, sem coerência permanente entre narrativa e prática, os discursos contra o golpismo e a crítica ao neoliberalismo, por mais aguerridos que sejam, perdem intensidade e credibilidade, dificultando a ruptura da inércia social sobre a qual viceja a extrema direita e avalizando o suposto caráter democrático da ala moderada do conservadorismo, que chefiou o enterro da Constituição em 2016.

Amarrados a uma falsa escolha, os partidos de esquerda podem deixar escapar a nobre chance de mostrar que são diferentes e capazes de animar o povo na luta por um novo rumo.

Breno Altman – Jornalista e fundador do site Opera Mundi

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog Traço de União.

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‘Antes da frente ampla, precisamos da frente de esquerda’, escreve Roberto Amaral

O bom caminho é retomar a luta político-ideológica, recolocando na ordem do dia as grandes questões do socialismo e as alternativas para enfrentar o capitalismo em sua fase atual, que no Brasil associa o império do capital financeiro monopolista com o neoliberalismo, um dos últimos estágios de sua degenerescência.”

Quem não tem projeto próprio é condenado a encampar o projeto do adversário

Por Roberto Amaral

Este não é o melhor momento para pensarmos nas eleições de 2022. Ainda temos um longo percurso a vencer, e 2021 se anuncia sombrio: recidiva da pandemia, fim do auxílio emergencial, desemprego, fome e desalento. Essa discussão, que logo descamba para a cogitação de nomes, não nos ajuda, quando já estamos tão divididos, e mal-saídos de um pleito cujos resultados não podemos comemorar.

Ademais, relega a plano secundário a questão central, qual a definição do caráter da luta que as circunstâncias de hoje impõem: o quadro político que nos angustia desde o golpe de estado de 2016, com o governo Michel Temer, o lawfare contra as esquerdas e finalmente a ascensão do bolsonarismo, com os desdobramentos conhecidos.

O combate ao governo é o imã aglutinador das forças políticas de oposição, superando seus variados matizes ideológicos. Espera-se que tenham todos, pelo menos a partir de agora,  o compromisso da defesa da soberania popular e da ordem democrática abalada desde a deposição de Dilma Rousseff, afastada da presidência sem crime de responsabilidade.

O ponto de referência é a constituição de 1988 e os princípios fundamentais que consagra, nomeadamente aqueles contidos em seu artigo 3°: “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

Os desafios se colocam para todas as forças que hoje conformam as oposições brasileiras, e compreendem tanto as esquerdas e suas divisões quanto os atores políticos deste vasto campo denominado “democrático”, sob cujo guarda-chuva  abrigam-se aquelas forças e segmentos sociais que se apresentam como comprometidos com a preservação da ordem política derivada da soberania popular e expressa na ordem constitucional, em cujos limites, aos quais não é estranho o eventual impeachment do presidente, se circunscrevem os espaços de nossa luta. A prioridade democrática fala aos meios da luta e ao seu fim, a proteção dos direitos fundamentais de liberdade e de igualdade e o de resistência às tiranias (e seus assemelhados modernos).

A questão democrática, assim, é colocada como preliminar e, antes de restringir, facilita uma ampla política de alianças. Trata-se, porém, de aliança tática, pois os diversos atores tenderão a definir posições na medida em que as contingências da luta puserem na ordem do dia questões como o caráter da sociedade e do Estado. De toda sorte, a esquerda deverá estar no núcleo e na gênese de qualquer aliança ou frente democrática e popular, e deverá sustentar as políticas de frente, mas continuará caminhando, e não esconderá seu jogo, na busca das transformações econômicas e sociais que a justificam, e a diferenciam.

Os socialistas, por exemplo, lutam sinceramente pela democracia por elegê-la como conditio sine qua non da construção de uma sociedade sem classes, projeto do qual não abrem mão, nem podem relegar a plano secundário. Entendem que a democracia, mesmo nos marcos do regime burguês, mesmo a democracia assim como a praticamos, é fundamental para a defesa dos interesses dos trabalhadores e dos assalariados de forma genérica.

Trata-se, portanto, de condição essencial, mas que não encerra toda a luta.

Para as esquerdas de um modo geral, e para os socialistas mais especificamente, o caráter presente da luta é eminentemente político; mas, se visa a contestar o governo Bolsonaro, visa igualmente a substituí-lo por um governo comprometido com as forças populares e a soberania nacional. Pretendem, portanto, superá-lo. Fazem guerra sem quartel não só ao capitão, mas, igualmente, ao “bolsonarismo” – persistente após o governo do capitão e seus áulicos fardados –, projeto neofascista a serviço da dominação de classe, firmemente apoiado no grande capital e no aparelho repressivo do Estado, a começar pelas forças armadas. Nosso adversário, portanto, não é, em resumo, o capitão, mas o que ele representa, e seu enfrentamento se dá em todas as vias, mas principalmente no embate ideológico junto às massas.

O que se aguarda, portanto, é que as esquerdas, primeiro se aglutinem, para em seguida poderem  discutir o caráter da frente política que, nas diversas fases da luta, se oporá ao statu quo. Nessa frente, que ajudará a construir, cabe à esquerda definir  seu papel, em diálogo com a sociedade.

Antes da frente ampla, indispensável, precisamos da frente de esquerda.

Esse movimento também carrega consigo uma preliminar, a saber, o programa mediante o qual as esquerdas pretendem se credenciar. Não se trata, nosso projeto, de frente eleitoral, mas da retomada do trabalho de organização da sociedade, o retorno às periferias e ao “chão de fábrica”, com suas evidentes e inevitáveis repercussões junto às estratificadas burocracias de nossas estruturas partidárias.

Não me refiro a programa de implantação a curto prazo, como conjunto de sugestões para corrigir os descalabros do bolsonarismo. O pressuposto é um programa que supõe a superação da atual ordem econômica e social, autoritária e elitista, por uma nova ordem, de base democrática e popular. Portanto, a busca por essa nova ordem é a pedra de toque dos socialistas e por ela continuarão lutando, a despeito do destino de Bolsonaro e da súcia de celerados com a qual governa, se se pode usar o termo.

O bom caminho é retomar a luta político-ideológica, recolocando na ordem do dia as grandes questões do socialismo e as alternativas para enfrentar o capitalismo em sua fase atual, que no Brasil associa o império do capital financeiro monopolista com o neoliberalismo, um dos últimos estágios de sua degenerescência. Trata-se, portanto, de recuperar a iniciativa política, assumir o antagonismo e a contestação política, ou seja, recuperar nossas teses e nossas propostas postas de lado por uma equivocada tática eleitoral (que ademais se revelou frustrada), voltar a falar em socialismo e a denunciar a sociedade de classes. Trata-se de pôr de manifesto o caráter humanista do socialismo, esquecido até pela esquerda orgânica, de origem marxista.

O objeto, pois, não é elaborar mais um programa de governo, tão-só, e não é pouco, mas concertar uma plataforma política que aglutine medidas imediatas de organização popular e aponte os principais marcos para, com eles, com o nosso concurso, e se possível com nossa liderança, mudada a composição do poder, transformar a sociedade da  desigualdade social numa sociedade aspirante à democracia social, fundada  no direito de todos ao trabalho, à escola, à saúde, à justiça, à alimentação, à moradia digna e ao transporte. Tudo isso, evidentemente, pressupõe desenvolvimento e distribuição de renda. Pressupõe uma nova correlação de forças (que se forma na luta social) e, a partir dela, um novo pacto político.

Pressupõe, por exemplo, aquelas reformas que não fizemos nos governos  de centro-esquerda dos quais participamos, como a reforma agrária, a reforma tributária, a reforma da educação, a reforma universitária, a reforma política e a reforma do poder judiciário, altar dos interesses  da classe dominante. Evidentemente, nossas propostas não podem se encerrar em simples enunciados, como estes;  precisamos dizer, com clareza, o que significam e o que pretendemos com essas reformas, e dizermos ainda que anularemos as privatizações e recuperaremos os direitos trabalhistas e previdenciários surrupiados.

O que se propõe, em síntese, é que a esquerda, no centro da oposição, retome sua capacidade de iniciativa, pois, quem não tem projeto é condenado a encampar o projeto do adversário. É o que está ocorrendo na sucessão das mesas da câmara e do senado federal. Nas duas oportunidades, por não haver tomado a iniciativa política, a oposição segue a reboque da direita parlamentar, pois ficou sem alternativa ante a necessidade tática de opor-se, no congresso, aos interesses do governo. Seguiu, porém, como a água que obedece ao declive, sem explicitar suas diferenças e seus compromissos próprios. Ou seja, sem fazer política.

Roberto Amaral
ROBERTO AMARAL – Cientista político, ex-ministro da Ciência e Tecnologia e ex-presidente do PSB. Autor de “Socialismo, Morte e Ressurreição” (Editora Vozes)

Publicado originalmente no portal Carta Capital. Acesse: https://www.cartacapital.com.br/

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog Traço de União.

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