“Polarizar, polarizar sempre. Para a “nova” direita só a radicalização compensa…” Texto de Boaventura de Sousa Santos

A política do ressentimento exige, além de bodes expiatórios, teorias da conspiração, demonização dos opositores, ataque sistemático aos media, à ciência e a todo o conhecimento que invoque especial perícia, incitamento à violência e ao ódio para eliminar argumentos, auto-glorificação do líder como único defensor fiável das vítimas.”

Donald Trump – Facebook/Reprodução

Fascismo 2.0: “como usar a democracia para destruir”

Por Boaventura de Sousa Santos

É impossível prever o que vai acontecer nos Estados Unidos nas próximas semanas. Várias perguntas cruciais ficam por agora sem resposta. Houve ou não fraude eleitoral? Se houve, foi suficiente para inverter os resultados? Será a transição de Trump para Biden, de Trump para Trump? Ou de Trump para um acordo de compromisso no Congresso em que, tal como aconteceu em 1876, o candidato que ganhou as eleições assume a presidência na condição de aceitar o compromisso extra-eleitoral?

Haverá violência nas ruas qualquer que seja a solução, uma vez que qualquer delas marginaliza uma parte importante e polarizada da sociedade? Por enquanto, tudo isso são incógnitas. Mas há algumas certezas, e essas são bem sombrias para o futuro da democracia. Concentro-me numa. Refiro-me ao curso intensivo de fascismo 2.0 que Donald Trump tem ministrado, ao longo destes quatro anos, aos aspirantes a ditadores, a líderes autoritários e fascistas.

O curso teve o seu momento mais alto na aula magistral que Trump começou a dar, a partir da Casa Branca, às 2h30 da madrugada (hora de Washington DC) do dia 4 de novembro. O tema geral do curso é “como usar a democracia para a destruir”. Desdobra-se em vários subtemas.

Neste texto refiro brevemente os principais. As três primeiras lições dizem respeito às eleições e as restantes, à política e à governação. O objetivo geral do curso é inculcar a ideia de que a democracia só serve para chegar ao poder. Uma vez no poder, nem a governação nem a rotação democrática é aceitável.

1 . Não reconhecer resultados eleitorais desfavoráveis. O tema da aula do dia 4 foi como recusar os resultados eleitorais quando não nos convêm, como criar confusão na mente dos cidadãos, inventando suspeitas de fraude que, independentemente dos fatos (que até podem existir), têm de ser formuladas da maneira mais extrema e mirabolante para produzirem efeito. Já na campanha eleitoral de 2016 Trump tinha abordado o tema e a lição tinha sido seguida pelos seus alunos mais diletos (que ele considera amigos pessoais), Rodrigo Duterte das Filipinas e Jair Bolsonaro do Brasil.

Este último disse em setembro de 2018: “não aceito resultado diferente da minha eleição”. Mas muitos outros alunos estiveram muito atentos naquela madrugada. Entre outros, Recep Tayyip Erdoğan, na Turquia e, no Egipto, Abdel Fattah al-Sisi, que Trump considera “o meu ditador favorito” e ainda Narendra Modi, na Índia. Outro aluno atento foi Yoweri Museveni, o presidente do Uganda que está no poder desde 1986 e pretende candidatar-se de novo no próximo ano. Na Europa, a turma foi numerosa e incluiu Viktor Orbán, Matteo Salvini, Marine Le Pen, Santiago Abascal e André Ventura.

2 . Transformar maiorias em minorias. Sempre que as maiorias eleitorais não favoreçam a causa fascizante é urgente convertê-las em minorias sociológicas. Por esta via as eleições perdem legitimidade e a democracia transforma-se numa manobra dos grandes interesses económicos e mediáticos. O aluno português, André Ventura, aprendeu esta lição mais rapidamente do que qualquer outro. Em declarações ao Expresso (7-11) disse sobre a vitória de Biden: “Temo, no entanto, que tenha vencido a voz das minorias que preferem viver à custa do trabalho dos outros”.

3 . Critérios duplos. Nada do que é desfavorável à causa pode ser avaliado pelos mesmos critérios aplicáveis ao que é desfavorável. Por exemplo, se se souber com grande probabilidade que a grande maioria dos votos por correio são a favor da causa fascizante, devem esses votos ser considerados não só legais como especialmente recomendáveis em tempo de pandemia. Caso contrário, deve insistir-se que são um instrumento de fraude e que retiram aos eleitores o momento único de proximidade física e social à democracia. A prova de fraude não interessa, desde que a suspeita seja lançada de imediato e com invenção de estratégias fraudulentas imaginárias.

4 . Nunca falar ou governar para o país e sempre e apenas para a base social. Esta lição é crucial porque é a que mais diretamente contribui para minar a legitimidade da democracia. Se a lógica é promover uma corrente de opinião antissistema, não faz sentido governar para aqueles que, mesmo tendo queixas, ainda não desistiram de as ver atendidas pelo sistema democrático.

O ideal é que a base social seja da ordem dos 30% pelo menos, e cultivar a sua fidelidade sem ambiguidade e ao longo do tempo, tanto na oposição como no governo. O contato com essa base tem de ser direto e permanente. Ela manter-se-á unida e organizada, na medida em que deixar de confiar em qualquer outra fonte de informação. A partir daí, deixam de ser relevantes quaisquer fatos que desmintam o líder. Ao longo de quatro anos, Trump foi capaz de manter a sua base, tal como Orbán na Hungria e Modi na Índia. O mesmo se pode vir a dizer de Bolsonaro.

A autoestima da base social é o único serviço político sérioSlogans que invocam autoestima e grandeza devem ser reciclados. “Make America Great Again” foi usado antes por Ronald Reagan. E podem ser reciclados slogans das ditaduras, até porque estas foram com o tempo sendo legitimadas. A reciclagem pode ser integral (“Brasil: ame-o ou deixe-o”) ou modificada (em vez de “Angola é nossa”, “Portugal é nosso”).

5 . A realidade não existe. O líder mostra o controle dos fatos sobretudo (1) quando faz parar a realidade supostamente adversa, ou (2) quando, não podendo pará-la, lhe retira toda a sua dramaticidade. Trump mostrou o caminho: pára-se a pandemia se se deixar falar dela e, para deixar de ser grave, basta parar a testagem intensiva. Ter medo da pandemia é sinal de fraqueza.

Trump quis sair do hospital com a T-shirt do Superman; segundo Bolsonaro, ter medo da pandemia é coisa “de maricas”. Por sua vez, desvaloriza-se a pandemia comparando-a com as pandemias que o sistema criou (desemprego, perda de soberania, falta de acesso aos serviços de saúde, etc.) ou, em versão tropical, apelando para a fatalidade da morte (Bolsonaro: “um dia todos vamos morrer”).

Como para o fascismo a mentira é tão verdadeira quanto a verdade, quanto mais dramático for o contraste da invenção com a realidade tanto melhor. Exemplos de verdades “irrelevantes”: a administração Trump aumentou em vez de diminuir as desigualdades sociais; durante a pandemia a riqueza dos bilionários aumentou em 637 biliões; nos últimos meses, 40 milhões de norte-americanos perderam o emprego; 250 mil morreram com a covid-19, a mais elevada taxa de mortalidade do mundo; a fome nas famílias triplicou desde o ano passado e o aumento das crianças subnutridas foi de 14%.

Ademais a moratória nos despejos foi levantada e milhões podem ser lançados na rua. Tudo o que não se pode negar é natural ou humanamente incontrolável. O altíssimo número de mortos no Brasil é obra do destino e o mesmo se diga dos incêndios na Amazônia, já que, por definição, os fogos são incontroláveis e ninguém é responsável por eles.

6 . O ressentimento é o recurso político mais precioso. Governar contra o sistema é impossível, até porque é parte dele que financia o fascismo 2.0. É por isso crucial ocultar as verdadeiras razões do descontentamento social e fazer crer às vítimas do sistema que os verdadeiros agressores são outras vítimas.

A base organizada quer ideias simples e jogos de soma-zero, isto é, equações intuitivas entre quem ganha e quem perde. Por exemplo, o aumento do desemprego é causado pela entrada de imigrantes, mesmo que esta seja mínima e realmente irrelevante; o operário branco empobrecido deve ser levado a crer que o seu agressor é o operário negro ou latino ainda mais empobrecido que ele; a crise da educação e dos valores é causada pela astúcia dos coitadinhos que, graças aos “empresários dos direitos humanos”, têm direitos a mais, sejam eles mulheres, homossexuais, ciganos, negros, indígenas. Não faltam bodes expiatórios; é só preciso saber escolhê-los. Esta é a habilidade máxima do líder fascista.

A política do ressentimento exige, além de bodes expiatórios, teorias da conspiração, demonização dos opositores, ataque sistemático aos media, à ciência e a todo o conhecimento que invoque especial perícia, incitamento à violência e ao ódio para eliminar argumentos, auto-glorificação do líder como único defensor fiável das vítimas.

7 . A política tradicional é a melhor aliada sem saber. Desde o momento em que desapareceu da cena política a alternativa socialista, a política perdeu credibilidade como exercício de convicções. Esse momento coincidiu com o reforço do neoliberalismo enquanto nova versão do capitalismo. Essa versão, uma das mais anti-sociais da história do capitalismo, conduziu à destruição ou erosão das políticas de proteção social e das classes médias onde elas existiam, à crescente concentração da riqueza e à aceleração da crise ecológica.

Os valores liberais da Revolução Francesa (liberdade, igualdade, fraternidade) foram perdendo sentido para a grande maioria da população, que se considera abandonada, marginalizada, qualquer que seja o partido no poder. Com o descrédito dos valores liberais, perderam sentido as ideologias democráticas que lhes estavam associadas, tais como, convivência pacífica, respeito pelos adversários políticos, moderação e contraditório na argumentação, rotação do poder, acomodação e negociação.

Esses valores e ideologias, que sempre corresponderam à vivência prática de apenas uma parcela pequena da população, são hoje lixo histórico que há que varrer. O vazio de valores tanto permite o desprezo pela verdade como a imposição de valores alternativos, como sejam a prioridade da família, a hierarquia de raças, o nacionalismo étnico-religioso, o mito da era de ouro, mesmo que o passado tenha sido, em realidade, de chumbo. Este é o caldo da cultura da polarização.

8 . Polarizar, polarizar sempre. O centrismo político morreu e só a radicalização compensa. Nas atuais circunstâncias, a polarização reforça sempre a direita e a extrema-direita. A polarização já não é entre esquerda e direita. É entre o sistema (deep state) e as maiorias deserdadas, entre o 1% e os 99%.

Esta polarização foi tentada em anos recentes pela esquerda institucional e extra-institucional, mas qualquer delas acabou por se submeter servilmente às instituições. Quando se revoltou, foi neutralizada. Isso não pode acontecer ao fascismo 2.0 porque simplesmente este, longe de estar contra o 1%, é financiado por ele. A polarização contra o 1% é meramente retórica e visa disfarçar a verdadeira polarização, entre a democracia e o fascismo 2.0, para que o fascismo prevaleça democraticamente.

A velha direita pensa que domestica a extrema-direita, mas, na verdade, é o contrário que vai ocorrer. Um exemplo português: o partido de centro-direita, PSD, dispõe-se a coligar-se com o partido Chega, de extrema-direita, “se este se moderar”; resposta imediata do líder do Chega: não é o Chega que se vai moderar, é o PSD que se vai radicalizar. Neste caso, o aprendiz do fascismo 2.0 é o melhor profeta dos tempos.

Boaventura de Sousa Santos Diretor Emérito do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog.

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Resistência de Trump em reconhecer a derrota não decorre apenas de suas idiossincrasias narcisistas e sociopatas

A botija está recheada dos negócios suspeitos de Trump que aparecem na investigação sob o pseudônimo de co-conspirador. Como diz meu amigo Mino Carta, até as pedras das ruas de Nova York sabem que o co-conspirador é o presidente Trump, protegido pela imunidade que o cargo de Chefe de Estado lhe confere.

Trump e Michael Cohen. Foto divulgação

Lá como cá, desespero há

Por Luiz Gonzaga Belluzzo

No dia 13 de novembro, a jornalista investigativa do New York Times, Jane Mayer, concedeu entrevista ao site Democracy Now. Nos últimos anos, Jane se dedicou a investigar as escorregadelas e tropeções de Donald Trump.

Os eleitores de Bolsonaro diriam que a “capivara do Trump” é parruda, certamente tão parruda quanto aquela preenchida por rachadinhas e rachadonas da turma do Jardim das Milícias.

O rolo começa com o advogado de Trump, Michael Cohen, O causídico Trumpista curte uma cana de três anos depois de ter sido apanhado pelo procurador Cyrus Vance Júnior com a mão na botija.

A botija está recheada dos negócios suspeitos de Trump que aparecem na investigação sob o pseudônimo de co-conspirador. Como diz meu amigo Mino Carta, até as pedras das ruas de Nova York sabem que o co-conspirador é o presidente Trump, protegido pela imunidade que o cargo de Chefe de Estado lhe confere.

Jane Mayer informa que a investigação criminal se concentra na apuração de todos os tipos de fraude praticados por Trump em seus negócios antes de se tornar presidente – fraude bancária, fraude de seguros, evasão fiscal e outros tipos de fraude.

“É um poço sem fundo. Entrevistei Michael Cohen, o ex-advogado de Donald Trump que também escreveu um livro. São inúmeras as acusações registradas no livro. Esta é uma situação séria. Jamais enfrentamos no país um caso como esse, um presidente enfrentar um processo sério por comportamento criminoso.”

A resistência de Trump em reconhecer a derrota não decorre apenas de suas idiossincrasias narcisistas e sociopatas. Outros relatos de jornalistas e observadores que circulam nas redondezas da Casa Branca confirmam o desespero do presidente Trump diante da possiblidade de perder a imunidade. Dizem alguns que ele e seus auxiliares se entregam à busca a uma forma jurídica capaz de justificar o autoindulto.

Corre também entre os mais informados que Trump poderia recorrer a uma fuga para países governados por oligarcas estrangeiros corruptos. Como é sabido, ele claramente lisonjeou alguns dos líderes mais ricos e corruptos do mundo, incluindo Putin e Duterte. A situação sugere que algumas de suas posições de política externa eram muito autointeressadas. Certamente, diz Jane, essa questão foi levantada sobre sua relação com a Turquia.

Mas estes todos acumulariam enormes passivos nos balanços de Joe Biden e nenhum deles, salvo Vladimir Putin, tem pólvora no bacamarte para enfrentar a situação.

Luiz Gonzaga Belluzzo

LUIZ GONZAGA BELLUZZO – Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

Publicado originalmente no portal Carta Capital. Acesse: https://www.cartacapital.com.br/

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog.

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Brasil precisa de muito mais do que clones do novo presidente dos EUA

Nenhum dos arremedos brasileiros de Joe Biden demonstra compromisso para resolver os graves problemas estruturais do país

Por Silvio Almeida

Encerradas (ou quase) as eleições nos Estados Unidos, aqui no Brasil já começam a se apresentar futuros candidatos à versão brasileira do democrata Joe Biden. Vencedor do pleito, Biden é visto como um moderado, ou seja, um candidato que não está nos extremos do espectro politico, um “centrista”. Por isso, é tido como alguém que, embora mediano, poderia apaziguar um país profundamente dividido.

Dado que no Brasil estamos à mercê de um governo de destruição nacional, que miseravelmente tenta imitar as práticas do candidato derrotado nos Estados Unidos, Donald Trump, setores da oposição ao governo Bolsonaro defendem uma saída “nem à direita e nem à esquerda”.

E já há quem se ofereça para desempenhar o papel de “Joe Biden brasileiro”, até mesmo algumas figuras diretamente responsáveis pela corrosão das instituições nacionais e que já foram aliadas ao governo de Jair Bolsonaro.

Por mais que seja um alívio para o mundo se livrar de um homem como Trump, é importante lembrar que Biden e sua vice, Kamala Harris, foram eleitos dentro da lógica das disputas internas e dos interesses particulares da sociedade americana.

Em outras palavras, o futuro governo Biden-Harris foi eleito para restaurar o mínimo de normalidade necessária à reprodução das relações socioeconômicas desenvolvidas no plano interno, e, no plano internacional, para reposicionar os Estados Unidos no velho jogo do imperialismo.

O enorme equívoco na leitura que se faz sobre a eleição de Biden é achar que sua chapa recebeu apoio instantâneo do eleitorado simplesmente porque queriam se ver livres das insanidades de Donald Trump.

Ainda que interromper a marcha de um governo com pendores fascistas e incompetente tornou-se prioridade para boa parte das oposições nos EUA, a verdade é que Biden e Harris tiveram que negociar para conseguir apoio. Mais do que a importante conquista de uma vice-presidente mulher e negra, a chapa Biden-Harris encampou em suas propostas a reforma das polícias e a ampliação do sistema de saúde, questões essenciais para a comunidade afro-americana.

Comprometeram-se os eleitos também com pautas ambientalistas e com as alas mais à esquerda do Partido Democrata no que se refere ao uso de energia renovável e de respeito aos acordos internacionais.

E tiveram que se sentar com organizações de trabalhadores e sindicatos, com propostas para a criação de empregos.

A questão é que nenhum dos arremedos brasileiros de Joe Biden demonstra compromisso ou mesmo disposição para resolver os graves e históricos problemas estruturais do Brasil. E muito menos para negociar com trabalhadores e movimentos sociais um projeto para o Brasil. A aparência de moderação que aqui se apresenta é uma armadilha para dar aparência civilizada e democrática ao radical desmonte do Estado brasileiro e à destruição da rede de proteção social tocadas pelo governo que ocupa o Palácio do Planalto.

Todavia, será impossível pacificar o país sem que uma resposta às desigualdades sociais que nos atravessam seja dada. Governos como os de Donald Trump e Jair Bolsonaro se nutrem de uma sociedade organizada pela lógica da violência e da desigualdade. São mais sintoma do que causa das mazelas de seus países.

Um país como o Brasil, em que são assassinadas em média 50 mil pessoas por ano e que assiste a um presidente desdenhar da morte de mais de 164 mil brasileiros vitimados pela Covid-19, precisa de bem mais do que clones bizarros e descontextualizados do moderado Joe Biden.

Silvio Almeida – Professor da Fundação Getulio Vargas e do Mackenzie e presidente do Instituto Luiz Gama.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. acesse: https://www.folha.uol.com.br/

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog.

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O Quinto Império – Fernando Pessoa

Triste de quem vive em casa,

Contente com o seu lar,

Sem que um sonho, no erguer de asa,

Faça até mais rubra a brasa,

Da lareira a abandonar!

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Triste de quem é feliz!

Vive porque a vida dura.

Nada na alma lhe diz

Mais que a lição da raiz –

Ter por vida a sepultura.

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Eras sobre eras se somem

No tempo que em eras vem.

Ser descontente é ser homem.

Que as forças cegas se domem

Pela visão que a alma tem!

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E assim, passados os quatro

Tempos do ser que sonhou,

A terra será teatro

Do dia claro, que no atro

Da erma noite começou.

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Grécia, Roma, Cristandade,

Europa – os quatro se vão

Para onde vai toda a idade

Quem vem viver a verdade

Que morreu D. Sebastião?

Breve comentário: trata-se de um poema que afirma uma filosofia sobre o homem e o viver. Para o poeta, a única coisa que faz sentido na vida é o sonho – “Triste de quem vive em casa/ contente com o seu lar, Sem que um sonho, no erguer de asa,/ Faça até sua rubra brasa/ Da lareira a abandonar”. Sem o sonho capaz de mover montanhas, a vida é triste, ainda que no conforto do lar. Triste de quem é feliz (paráfrases do livro “para compreender Fernando Pessoa”)

Tire suas conclusões…

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A luta é árdua, mas venceremos a extrema-direita

O preço dos naufrágios, porém, é sempre pago pelo povo, cada dia mais paupérrimo. Já os que ocasionaram estão cada vez mais privilegiados, em soldos, pensões etc.

FOTO: ALAN SANTOS/PR

Por Milton Rondó

A luta será árdua e longa, mas a vitória é certa, como foi na Argentina, no Chile, na Bolívia e nos Estados Unidos.

Receberemos um país diminuído ao seu mínimo: de 6a maior economia do mundo nos governos Lula e Dilma, para 12a, sob a extrema-direita incompetente de Bolsonaro e Guedes.

Poucos países perderam tanto em tão pouco tempo. Não me recordo de nenhum outro que tenha passado por desastre de tal magnitude.

Desse ponto de vista, a intervenção militar que autorizou o golpe de estado de 2016 demonstra-se ainda mais nefasta do que o golpe de 1964, ao final do qual o Brasil era a 8a economia do mundo.

Confirma-se que todos os golpes militares – de 1889, 1964 e 2016 – resultaram em enorme fracasso socioeconômico.

O preço dos naufrágios, porém, é sempre pago pelo povo, cada dia mais paupérrimo. Já os que ocasionaram estão cada vez mais privilegiados, em soldos, pensões etc.

Ao lado dessas trevas, temos aquelas literais, delas resultantes, pela entrega do patrimônio público à privatização: o estado do Amapá passou quase uma semana às escuras, por causa da incúria da empresa espanhola concessionária.

Para o conserto, foi convocada a estatal Eletronorte.

Vale notar que o mesmo ocorre com o Sistema Único de Saúde: as intervenções mais complexas não são feitas pelo sistema privado, mas pelo público.

Sobre o descalabro no Amapá, que deixou UTIs – inclusive neo-natais – às escuras, nem uma palavra dos militares nacionalistas, o que parece indicar que já não os há, como desconfiávamos.

Com efeito, como permitiram que o país chegasse tão baixo, completamente indefeso com relação a governos e empresas estrangeiras.

A relação Bolsonaro-Trump não poderia ter sido mais tóxica para o país, reduzido à condição de colônia, de fato

Os erros foram tais que comprometem a seriamente uma relação frutífera com o novo governo dos EUA, o país mais importante do Hemisfério.

Com nossos vizinhos, o desastre não é menos profundo: todas as apostas da diplomacia brasileira resultaram em fracassos.

No caso da Venezuela, foi-se ainda mais longe, com provocações na fronteira, algumas delas milionárias, como as recentes manobras militares contra um inimigo imaginário, as quais custaram fortunas aos cofres públicos, além de imenso desgaste internacional.

Quanto à Bolívia, além de ter conspirado para o golpe, o país se fez representar na posse do novo presidente pelo nível diplomático mais baixo, o embaixador em La Paz.

Até os EUA, igualmente golpista, mandaram um vice-ministro, chefiando delegação especial.

A Espanha mandou o próprio rei, acompanhado do vice-chefe de governo, do Podemos.

A Argentina, o próprio presidente, ovacionado.

Até o Chile, que mantém apenas relações consulares com a Bolívia, pelo diferendo fronteiriço, mandou seu chanceler.

Somos um pária, cada dia mais pária.

Entretanto, até na noite mais trevosa a luz se insinua.

A mudança de orientação política na Casa Branca transforma por completo a situação da colônia. Tal não seria se não estivéssemos reduzidos à situação de vassalos, sem defesa ou política externa próprias.

A extrema-direita local não poderá se sustentar sem apoios externos, que a permitiram reemergir da cloaca da história.

No entanto, haverá muito trabalho a ser feito, principalmente no que tange às eleições municipais.

Em São Paulo, Boulos e Luiza; no Rio, Benedita; em Porto Alegre, Manuela e Rossetto; no Recife, Marilia; em Vitória, Coser; em Fortaleza, Luiziane.

Depois dos pleitos, muita conversa, muita costura, muita altivez para formar a frente ampla democrática contra o fascismo.

Sem ilusionistas, como Huck e Moro, combinação do dedo podre com o todo podre.

Esses, como as oito famílias donas da grande imprensa nacional, só geram ilusões, que, na prática, redundam em sacrifícios, vergonha e morte para a população.

Que belo ver o presidente da Bolívia chorar ao ouvir o hino nacional que diz “antes morrer do que ser escravo”.

Lembremos, com Antônio Gramsci, em “Odeio os indiferentes”, que: “Os que semeiam pânico não são uma invenção moderna”.

De fato, a extrema-direita, para ascender, sempre se valeu do medo, do pânico, do preconceito. Jamais da confiança, da tolerância, da abertura ao outro e à outra.

No momento em que o desemprego atinge as maiores taxas históricas no Brasil, com mais pessoas desempregadas do que empregadas, vale lembrar – para as eleições que se aproximam – estas palavras de Gramsci na obra antes citada: “O que é a liberdade para quem não sabe o que fazer dela, para quem ela não é um valor econômico, a possibilidade de trabalhar, de produzir, de alguma maneira? A liberdade individual, a segurança contra os abusos de autoridade são conquistas do trabalho, da produção, das sociedades bem organizadas”.

Lembremos disso no próximo domingo, nas urnas e às urnas!

Milton Rondó
MILTON RONDÓDiplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

Publicado originalmente no portal Carta Capital. Acesse: https://www.cartacapital.com.br/

Este é um texto de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog.

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O Cântico da Terra – poema de Cora Coralina

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranquilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

Cora Coralina

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Crises, aprendizados e eleições: uma oportunidade para lutadores do povo

Passados dois anos de mandato, nossa classe dominante, e seus meios de comunicação e também os poderes da República – Judiciário e Legislativo -, convivem com ameaças constantes a ciência, a verdade, a democracia, as instituições com enorme tolerância. Pois, lhe é conveniente o autoritarismo.”

“As eleições são oportunidade de conversarmos com familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalho: a vida está boa? Que tipo de vereador e prefeito precisamos?” – Créditos: Reprodução

As eleições de 2020 são uma oportunidade de enfrentamento a esse projeto subserviente aos interesses internacionais

Por Frederico Santana Rick

Vivemos uma grave crise econômica, iniciada em 2014, desde a decisão das nossas elites de desestabilizar o governo federal. Buscavam uma vitória nas urnas que permitisse a implementação de um programa de retirada de direitos, venda das empresas públicas, flexibilização da legislação trabalhista e ambiental, e alinhamento aos interesses norte-americanos.

Passados seis anos, a situação só se agravou. A crise econômica se transformou numa enorme crise social. São 13,8 milhões de pessoas desempregadas, 13,6 milhões com potencial de trabalho mas fora do mercado e seis milhões de desalentados que já nem procuram trabalho. A fome voltou a ser realidade de milhares de pessoas. A participação dos salários na economia vem caindo vertiginosamente. Aumenta o número de bilionários e o lucro dos bancos, e, ao mesmo tempo, a já enorme desigualdade.

Convergência de crises

Essa crise econômica e social é também ambiental. A classe dominante que deu o golpe do impeachment em 2016, avançou também sobre as riquezas naturais: minérios, biodiversidade, água, biomas, terras. As queimadas são parte do projeto. A violência sobre indígenas, quilombolas, ribeirinhos, vazanteiros, povos da Amazônia e do Cerrado, faz parte do projeto.

Com papel destacado dos meios de comunicação empresariais se gerou uma onda de antipolítica, que difundiu o descrédito com partidos, e sobretudo contra a esquerda, que nos levou a eleição de um candidato de extrema-direita e ideias fascistas.

Passados dois anos de mandato, nossa classe dominante, e seus meios de comunicação e também os poderes da República – Judiciário e Legislativo -, convivem com ameaças constantes a ciência, a verdade, a democracia, as instituições com enorme tolerância. Pois, lhe é conveniente o autoritarismo.

“Passados dois anos de mandato, nossa classe dominante demonstra enorme conivência com toda forma de autoritarismo”

É esse autoritarismo que garante a implementação de medidas de desmonte do Estado, a retirada de direitos, o esvaziamento das políticas públicas, a “desconstituição” da Carta Constitucional de 1988.

Este ano, soma-se às crises que já vinham em curso uma enorme crise sanitária. Agravada pelo negacionismo do presidente da República, pelo neoliberalismo do ministro da economia, e inépcia de um ministro da saúde sem nenhum conhecimento na área.

Nosso drama social – com 13% das mortes no mundo pela pandemia do coronavírus, tendo apenas 2,8% da população mundial – só não foi maior pela existência do Sistema Único de Saúde (SUS). Uma política pública ameaçada, pois não escondem o interesse em privatizar as Unidades Básicas de Saúde, para assim, abrir espaço para os planos privados.

Classe dominante e sua resistência a mudanças

Não é novidade. Na história do Brasil nossas elites econômicas não titubearam em restringir a democracia, golpear as instituições e interromper projetos, sempre que perceberam que seus privilégios poderiam ser ameaçados.

O momento atual, de relativa estabilidade após a prisão de Fabricio Queiroz, amigo da família Bolsonaro, não esconde os planos do presidente da república em fechar instituições, perseguir adversários, atacar a ciência, a imprensa, a educação e os direitos sociais.

A medida que o governo avança, a situação se agrava. Diminui, a cada medida, as bases do Estado que poderiam num futuro governo retomar um projeto democratizante.

Restringe-se ainda mais as margens de atuação e intervenção na economia e novas blindagens são instauradas, esvaziando de papel o Estado: reforma da previdência, reforma trabalhista, emendas constitucionais, congelamento dos gastos públicos, autonomia do Banco Central, leilões do pré-sal, fatiamento da Petrobras, privatizações, etc.

As medidas neoliberais, adotadas desde 2015, dificultam um processo de solução dos reais problema do povo. Dilapidam o patrimônio nacional e os mecanismos que poderiam possibilitar a retomada do desenvolvimento, garantir direitos, distribuição de renda e implementar políticas públicas universais.

Nossos limites

Tirar lições dos acontecimentos políticos dos últimos anos a luz da história do Brasil é fundamental.

Chama a atenção o fato de, após quatro vitórias eleitorais para a presidência da república (2002 a 2014), não termos tido força para impedir o caráter golpista da nossa classe dominante. Caráter esse já estudado e analisado por pensadores brasileiros que, como disse Florestan Fernandes, demonstra a existência de “resistência atávica a mudança” por parte da nossa classe dominante. E nenhum apreço a democracia.

Fato é que ficaram temerosos com a possibilidade de que com a continuidade do projeto que vinha em curso desde 2002, reformas estruturais poderiam ser realizadas. Com isso, buscaram conter as forças populares e consequentemente a possibilidade de democratização do Brasil.

“Na história do Brasil nossas elites não titubearam em restringir a democracia frente a ameaças a seus privilégios”

As lições da história passada e recente, deixam claro a necessidade de atuarmos para politizar a sociedade. Demarcando claramente os contornos de um projeto popular. Para isso, precisamos retomar um trabalho de diálogo com a sociedade, ser presença junto ao povo, fortalecer as organizações populares e da classe trabalhadora, fortalecer a participação popular.

Sobretudo, precisamos de um enorme esforço na disputa de ideias. Defender e construir, na teoria e na prática, valores humanistas e solidários.

Eis as lições que nos deixam os países latino-americanos que, também golpeados no período recente, conseguiram resistir em melhores condições, e obter vitórias em sequência. É o caso da Bolívia, do Chile, da Argentina e da Venezuela. E agora, a derrota de Trump, nos EUA, que precisa ser creditada também as lutas populares e antirracistas.

Eleições de 2020 são uma oportunidade

O projeto das elites não se sustenta. Mesmo detendo um enorme oligopólio dos meios de comunicação. Portanto, mesmo tendo a capacidade de construção de sentido, valores, leituras a partir da sua ideologia consumista e individualista, deturpando fatos, escondendo a realidade, perde espaço pouco a pouco.

As eleições de 2020 são uma oportunidade de enfrentamento a esse projeto subserviente aos interesses internacionais. São oportunidade de discutirmos a cidade que queremos. As políticas públicas que queremos. A sociedade que somos, e a que podemos vir a ser. Jogarmos luzes nas nossas contradições, na enorme desigualdade social, na persistência da violência, do machismo, do racismo e do preconceito.

As eleições são oportunidade de conversarmos com familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalho: a vida está boa? Que tipo de vereador e prefeito precisamos?

É oportunidade também para propagandearmos: partidos não são todos iguais, políticos não são iguais, projetos e propostas não são iguais. Quais partidos votaram a favor da reforma da previdência, da reforma trabalhista, do congelamento dos gastos públicos por vinte anos? Quais são os partidos que sustentam o atual governo federal?

O apoio ao governo federal se dá, dentre outros motivos, porque se acredita que o presidente tem força nos estados e nos municípios. Essas eleições podem intervir diretamente na disputa nacional.

Sobretudo, é oportunidade para construção de força social, estabelecermos vínculos, abrirmos contatos. Que possamos aproveitar das eleições para sairmos mais fortes e conscientes, nos aproximando do projeto popular que tanto sonhamos e precisamos.

Frederico Santana Rick é sociólogo e coordenador de políticas sociais do Vicariato Episcopal para Ação Social, Política e Ambiental da Arquidiocese de Belo Horizonte, militante da Consulta Popular e da Frente Brasil Popular.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a opinião do blog.

Fonte: BdF Minas Gerais

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Entenda o significado de Cálice, clássico de Chico Buarque

Por Dora Guerra

Quando falamos em músicas da ditadura, é comum lembrar de Cálice. Afinal, Chico Buarque é um compositor incrível e criou letras fenomenais para criticar um dos períodos mais duros da história brasileira. Como se expressar e driblar a censura em tempos tão difíceis?

Créditos: Divulgação

Você já deve conhecer um pouco da história da letra, mas você sabe que a gente adora fazer uma análise completa, né? Por isso, o nosso tema de hoje é a canção de Chico.

Análise da música Cálice

Vamos contar um pouquinho sobre a letra da música, verso a verso:

Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Esse primeiríssimo verso é uma passagem bíblica! Vem de Pai, se queres, afasta de mim este cálice (Marcos 14:36). Com uma pequena alteração, a referência é feita de um jeito interessante e aparentemente católico, mas, na verdade, é uma crítica ao regime. 

A ideia de Cálice nada mais é que um jogo do compositor para driblar a censura. Inclusive, a metáfora do cálice só é utilizada no refrão e em poucos versos. 

Afinal, cálice, na verdade, é cale-se. Ou seja, em pai, afasta de mim esse cale-se, Chico pede que possa se expressar em paz. Mas o cantor aproveita o jogo de palavras e estende a ideia: o cale-se é manchado do sangue vindo da repressão imposta pela ditadura.

Chico Buarque em protesto contra a ditadura militar
Chico Buarque em protesto contra a ditadura militar / Créditos: Divulgação

Como beber dessa bebida amarga?
Tragar a dor, engolir a labuta?

Como aguentar a repressão e prosseguir? Na dor de viver o regime militar, Chico se indaga sobre sua própria energia para sobreviver a essa época tão sofrida. Lembra do vinho tinto de sangue que comentamos ali em cima? É essa a bebida amarga que dói e é difícil de engolir.

Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta

Apesar de silenciadas, as pessoas não deixam de sofrer, apenas não são ouvidas. A boca está calada, mas a dor permanece. 

De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

A família Buarque de Holanda tem grande prestígio: a mãe de Chico, Maria Amélia, foi uma intelectual brasileira. Casada com Sérgio Buarque de Holanda, famoso sociólogo, tiveram sete filhos.

Chico Buarque e família
Chico Buarque e família / Créditos: Divulgação

Ao se chamar de filho da santa, Chico pode estar sendo literal e falando sobre vir de boa família, mas em uma época em que a filosofia, a sociologia e a crítica não valem muito. 

O mais importante em filho da santa/filho da outra, na verdade, é ele dizer que seria mais fácil se ele fosse filho da p*! Nesse ponto, de forma desafiadora, ele reflete que só não está sofrendo é quem é cruel e repressor. 

Em tanta mentira, tanta força bruta, o artista critica a alteração da verdade por parte da imprensa, controlada pelo Estado. E, claro, a violência desmedida.

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano

Na época, eram comuns os ataques “surpresa” da polícia militar, que invadiam casas e tiravam pessoas de suas camas. Alguns eram presos, alguns torturados, outros desapareciam. 

Enquanto tudo isso acontecia na calada da noite, Chico se via ainda mais angustiado por não poder agir ou falar a respeito.

Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Apesar de se sentir impotente e atordoado com a repressão, Chico mostra que não deixou de estar atento.

monstro da lagoa era uma expressão usada para falar dos corpos de pessoas desaparecidas, que emergiam em mares ou rios nessa época. Imagina que sofrimento encontrar um amigo seu dessa forma?

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta

A porca gorda é uma analogia para representar a ganância do governo corrupto que não consegue mais operar. Já a polícia, com toda a sua brutalidade, não corta: seu poder vai enfraquecendo, de tanto abusar da violência.

Polícia durante a ditadura militar
Polícia durante a ditadudra militar / Créditos: Divulgação

Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo

Com tudo isso acontecendo, fica difícil abrir a porta e sair de casa. É muito sofrimento preso na garganta, com as coisas de ponta-cabeça. Daí vem o pileque homérico: tudo estava tão fora do lugar que é como se o mundo tivesse bêbado. 

De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Não adianta querer se expressar, fazer arte e lutar pela democracia, a sensação de impotência é maior. Além disso, pode ser que esse verso seja outra referência a uma passagem bíblica, que diz Paz na terra aos homens de boa vontade. Com o regime militar, não adianta ter boa vontade, pois a paz não vem.

Mas a vida boêmia ainda existe, mesmo que reprimida. O pensamento crítico ainda existe, mesmo que calado. São esses os bêbados do centro da cidade: as pessoas rebeldes que tentam sobreviver em meio ao caos.

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado

Aqui, surge uma pontada de esperança por parte do compositor. Talvez a vida não tenha que ser assim tão sofrida e a ditadura não esteja garantida para sempre.

Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

Apesar do tom amargo dos versos, existe aqui ainda uma rebeldia. Chico quer ser dono do seu próprio corpo e escolher o que fazer com ele, sem acatar ordens. 

Há, ainda, uma referência aos métodos de tortura mais comuns da época (como cheirar fumaça de óleo diesel). Fica uma denúncia e tanto, né?

História da música

A canção foi composta pelo próprio Chico (com colaboração de Gilberto Gil) e foi submetida ao Phono 73, uma espécie de festival que reunia grandes artistas da gravadora Phonogram.

É claro que Cálice não passou pela censura e foi reprovada, mas isso não impediu o artista de apresentá-la com seu colega e amigo Gil.

Publicado originalmente no portal Letras. Acesse:https://m.letras.mus.br/

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Conheça o pássaro Trinca Ferro – uma beleza brasileira

O Trinca Ferro é uma ave passeriforme da família Thraupidae, sendo um dos pássaros silvestres mais apreciados pelo brasileiro, especialmente pelo seu canto.


No Brasil existem cerca de oito formas do gênero Saltator, todas relativamente parecidas. Apenas uma das espécies, o bico-de-pimenta é bem diferente, pois uma máscara preta desce até a garganta, e o bico tem uma cor laranja bem intenso. Muito caçado e apreciado por seu belo canto.

Também é chamado de trinca-ferro, bico-de-ferro, tempera-viola, pixarro, pipirão, estevo, papa-banana (Santa Catarina), titicão, tia-chica e chama-chico (interior de São Paulo).

Nome científico: Saltator similis⇒ dançarino semelhante ao tangará. Como os termos latino Saltator e tupi Tangara têm a mesma transliteração- dançarino- encontrou-se no termo similis para o Saltator similis a forma de se demonstrar o motivo da utilização dessa terminologia.

Hábitos Alimentares

O trinca-ferro-verdadeiro é um típico onívoro, se alimentando de frutos, insetos, sementes, folhas e flores (como as do ipê). Aprecia os frutos do tapiá ou tanheiro (Alchornea glandulosa). Na infância seu regime alimentar é predominantemente animal. O macho costuma trazer alimento para sua fêmea.

Hábitos Reprodutivos

O ninho é construído em arbustos a 1 ou 2 metros de altura, é uma tigela espaçosa, com cerca de 12 centímetros de diâmetro externo, feita com folhas grandes e secas seguras por alguns ramos, resultando uma construção frouxa; no interior são colocadas pequenas raízes e ervas. Os 2 ou 3 ovos, alongados, medem cerca de 29 por 18 milímetros e são azul-claros ou verde-azulados, com manchas pequenas e grandes no pólo rombo, formando uma coroa. Durante o período de reproduçao, vivem estritamente aos casais sendo extremamente fiéis a um território.

Distribuição e Habitat

Distribui-se na parte central do Brasil e nordeste, na Bahia ao sul do País, no Rio Grande do Sul e toda a região Sudeste. Além de fronteiras vizinhas internacionais como Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai.

Fonte: https://www.cobrap.org.br/

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“Caberia dizer que até um poste é melhor na presidência dos Estados Unidos do que Trump” – leia a opinião de Mino Carta

“Diz papa Francisco que a pandemia não é castigo divino, e sim a revolta da própria natureza agredida pelo ser humano de várias maneiras. Nem por isso, o Altíssimo está escanteado. Mas a desgraça que não nos poupa na minha visão tem a fisionomia de Donald Trump. Quando ele me aparece, caem quaisquer dúvidas que possam ter permanecido, como se suas expressões e seus comportamentos fossem simbólicos de tudo quanto padecemos.”

O EX-CAPITÃO DISSE A TRUMP” ‘I LOVE YOU’. FOTO: JORGE ARAUJO/FOLHAPRESS

Washington mudará a política em relação ao Brasil?

Por Mino Carta – diretor de redação da revista Carta Capital

Já causa espanto que Donald Trump resista impávido até o final das apurações. Se quisermos usar um linguajar tipicamente brasileiro, caberia dizer que até um poste é melhor na presidência dos Estados Unidos do que Trump. Não falta quem se regozije com a vitória de Joe Biden, recomendado por Barack Obama depois de ter sido vice-presidente durante seu mandato. Trata-se de uma figura simpática e elegante, um homem risonho a ostentar um natural, genuíno bom humor. Nem por isso encarna a expectativa de alguma mudança significativa.

Ocorre, às vezes, que figuras aparentemente menores assumam um papel importante, até mesmo decisivo. É o caso, por exemplo, de Harry Truman, que acabou assumindo um papel determinante após a substituição, na qualidade de vice-presidente, de Franklin Delano Roosevelt para carregar a pecha devastadora de ter autorizado as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, destinadas a ficar na história da humanidade como um crime de proporções universais.

A biografia de Biden não o incrimina pessoalmente, pelo contrário, mas não há dúvidas de que Washington continuará pelo caminho useiro, sobretudo em relação à América Latina. Nada aponta em Biden a disposição e a capacidade de alterar a rota imperial, inspirada desde antigas eras pela Doutrina Monroe. Trump representou à perfeição, e de forma nunca dantes navegada, os males causados no mundo pelo império do Ocidente, desde o imediato pós-Segunda Guerra Mundial e mesmo antes.

Diz papa Francisco que a pandemia não é castigo divino, e sim a revolta da própria natureza agredida pelo ser humano de várias maneiras. Nem por isso, o Altíssimo está escanteado. Mas a desgraça que não nos poupa na minha visão tem a fisionomia de Donald Trump. Quando ele me aparece, caem quaisquer dúvidas que possam ter permanecido, como se suas expressões e seus comportamentos fossem simbólicos de tudo quanto padecemos.

Há muitas formas de ofender a natureza que não se limitam a queimar florestas. As doutrinas econômicas que vigoram faz bastante tempo são, como sabemos, responsáveis pelo empobrecimento progressivo de bilhões de seres humanos, enquanto uns poucos enriquecem desmesuradamente. Acrescentem-se as guerras a infelicitar inúmeras áreas do planeta, qual fossem capítulos de um enredo único ditado pelas conveniências dos donos do poder, semelhantes aos mercadores que Cristo enxotou do Templo.

A presença de um império do Oriente, soviético, precipitou a Guerra Fria para atiçar a prepotência e a hipocrisia do outro império, de sorte a sugerir a seguinte conclusão: causou males por reflexo para aquela já definida como civilização ocidental e cristã, enquanto a política de Washington provocou danos no mundo todo e desencadeou guerras malogradas, embora sangrentas e ao cabo pateticamente inúteis. Tio Sam quis ditar o destino do Oriente Médio para provocar tão somente um conflito que ali não se apaga. E pretendeu transformar a América Latina, Brasil na frente, no seu próprio quintal, e em largos momentos foi bem-sucedido na empreitada, sem dispensar invasões militares e incentivar os golpes locais.

Abu Ghraib e Guantánamo são apenas dois capítulos de um longo enredo de ‘tortura científica’

Contaram nestas operações, a desmentir toda e qualquer retórica em torno da defesa da democracia, com a instituição controladora, a CIA, sempre disposta a se esmerar no emprego das técnicas mais ferozes, pretensamente científicas de tortura, de sorte a deixar pálidos de inveja os algozes medievais. Nesta sequência de crimes contra a humanidade, Abu Ghraib e Guantánamo são apenas dois dos intermináveis episódios salientes. No fundo, Tio Sam cobriu-se de vergonha do alto de uma pirâmide de empáfia estabelecida sobre o poder econômico. 

Nunca vingou um momento de misericórdia com os vencidos temporariamente. Dizia o general William Westmoreland, durante a Guerra do Vietnã, herança de um fracasso francês e finalmente perdida, “vamos bombardeá-los até devolvê-los à Idade da Pedra. Toda esta desfaçatez, esta violência, a caminharem de braços dados com a insensatez, concentram-se na catadura de Donald Trump sem que isto indique a absolvição de quantos o precederam na presidência, até mesmo Barack Obama, todos prontos a aceitar o emprego de instrumentos voltados a garantir a hegemonia dos EUA e do seu império.

Há fortes razões de admiração pelos Estados Unidos, por seus institutos de pesquisa, por seus hospitais-modelo, por sua notabilíssima literatura, por sua imprensa, por seu cinema amiúde desassombrado em críticas e denúncias, por suas universidades, pelo jazztão influente na música contemporânea, por seus cantores e cantoras de vozes inconfundíveis, por seus e suas atletas invencíveis em diversas modalidades esportivas. Existe, porém, e é pena, o reverso da medalha. Ainda recentemente, os Estados Unidos estiveram envolvidos em um lamentável capítulo brasileiro, iniciado pela Lava Jato, conduzida por dois dos seus agentes nativos, Sérgio Moro e Deltan Dallagnol.

É do conhecimento até do mundo mineral: ambos buscavam em Washington as melhores orientações para condenar Lula sem provas e desencadear uma sequência de golpes que redundaram na eleição de Jair Bolsonaro, o ex-capitão a morrer de amor por Donald Trump. Veremos agora o que muda nas relações entre Washington e Brasília. 

O mapa-múndi, felizmente, mostra regiões do planeta em que as lições de Tio Sam não surtiram efeito. Há também no Velho e sempre Novo Mundo, Europa, quem mantenha uma conexão com o vetusto humanismo gerador da Renascença. A despeito da desgraça globalizada, é nestes exemplos que haverá de se basear a nossa esperança.

Mino Carta
MINO CARTA – Diretor de Redação de CartaCapital

Publicado originalmente no portal Carta Capital. Acesse: https://www.cartacapital.com.br/

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Meretriz – por Mimila K Rocha

Nas ruas me apresento sem pudor…

Nada me detém, nada me consome, nada me enoja,

e eu fico na expectativa do próximo.

Não reparo a beleza, não vislumbro emoção nem mesmo me importo com inteligência…

O importante é o que ele vai deixar.

A vida não me concedeu o direito à livre escolha,

Tão pouco à paixão…

Troco aquilo que está sob mim, no meu controle: meu corpo.

Amor, ah! Sim! Amo a reciprocidade…

Recebo a medida da minha necessidade.

Aqueles que me condenam, se consideram autossuficientes ou são pequenos demais diante a imensidão do mundo.

Para uns submissão é poder, para outros ausência de dignidade…

Para mim é mera necessidade.

Pecado? Quem disse que lutar pela vida é um ato pecaminoso?

No meu amanhã a liberdade é prima irmã das condições materiais…

Quem – homens e mulheres – nunca deu… em troca de uma expectativa?

Viver é administrar probabilidades…

Eu sobrevivo.

Mimila K Rocha

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Geopolítica – texto de Fernando Haddad

Vejam que o argumento é parecido com o que invocam os Estados Unidos na disputa com a China acerca do 5G. Sob o manto da segurança nacional, há uma rixa econômica empedernida entre grandes potências, antes em torno da navegação marítima, hoje, da virtual.”

Por Fernando Haddad

O que esperar da muito provável vitória de Joe Biden? Há vantagens na derrota de Donald Trump. Devemos esperar mudanças em relação ao meio ambiente, nas dimensões climática e sanitária e em relação aos direitos humanos quanto ao racismo e à xenofobia. Biden parece também ter mais apreço pela democracia, pelo menos no seu próprio país.

O que dizer de mudanças no sistema de poder?

Nesse ponto, tudo é mais estável. A relação entre estados se pauta pela defesa de interesses em torno do fortalecimento do poder bélico e econômico, em geral associados.

Isso depende de fontes de energia (combustíveis e alimentos), do domínio da ciência (sistema de inovação) e da logística (transporte e comunicação). Essas atividades são desenvolvidas no ponto de encontro entre poder e dinheiro, onde o Estado e o capital se reforçam mutuamente.

Quando Adam Smith defendeu as leis inglesas de navegação —que estabeleceram um monopólio conflitante com a liberdade de comércio—, ele invocou um argumento extra econômico, sugerindo que convinha aos ingleses trocar opulência por mais segurança. Omitiu, contudo, as vantagens econômicas que isso trazia para a Inglaterra tanto na disputa com a Holanda —no que toca a indústria naval, o transporte marítimo e a pesca— quanto no intercâmbio mercantil com as suas colônias.

Vejam que o argumento é parecido com o que invocam os Estados Unidos na disputa com a China acerca do 5G. Sob o manto da segurança nacional, há uma rixa econômica empedernida entre grandes potências, antes em torno da navegação marítima, hoje, da virtual.

Em relação à geopolítica, portanto, pouca coisa se altera com Biden. Os Estados Unidos continuarão de olho no petróleo da Venezuela e da Arábia Saudita, dizendo defender a democracia naquele país enquanto apoiam a monarquia absolutista neste outro, sem nenhum constrangimento. Verão com alegria prosperar a dolarização das economias latino-americanas, agora com o apoio do Brasil, prestes a autorizar depósito bancário em moeda estrangeira.

A China, por sua vez, faz seus movimentos. Diante do comportamento errático do governo brasileiro, em que presidente e vice se contradizem diariamente, a China diversifica suas fontes de proteína, comprando soja da Tanzânia e da Argentina. E defende a liberdade econômica no plano internacional, enquanto controla o acesso ao seu mercado interno, praticando, na esteira de Japão e Coreia, uma espécie de desenvolvimentismo 3.0, depois de deixar para trás o despotismo soviético.

O amadorismo de Jair Bolsonaro nos torna uma presa fácil num mundo de predadores profissionais.

Fernando Haddad – Professor universitário, ex-ministro da Educação (governos Lula e Dilma) e ex-prefeito de São Paulo.

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

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A Hora dos Ferreiros – Pedro Tierra

Quando o sol ferir
com punhais de fogo
e forja
a exata hora dos ferreiros,
varrei o pó da oficina
e a mansidão dos terreiros,
libertai a alma dos bronzes
e dos meninos
desatada em som
e nessa aguda solidão
que em ondas se apazigua
– ponta de espinho antigo –
na carne
do coração.

Convocai enxadas,
foices, forcados, facões,
grades, cutelos, machados,
a pesada procissão dos ferros
afeitos ao rigor da terra
e da procura
e, por fim, as mãos,
resignadas,
multiplicadas no cereal maduro.

Mãos talhadas em silêncio
e ternura,
que plantam a cada dia
sementes de liberdade
e colhem ao fim da tarde
celeiros de escravidão.

Esgotou-se o tempo de semear
e inventou-se a hora do martelo.
Retorcei na bigorna outros anelos
e a força incandescente
deste mar de ferros levantados.

Esgotou-se o tempo de consentir
e pôs-se a andar
a multidão dos saqueados
contra os cercados do medo.

Homens de terra e relâmpago!
Convertei em fuzis vossos arados,
armai com farpas e pontas
a paz de vossas espigas!

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CAIPIRA PICANDO FUMO, ALMEIDA JUNIOR

Caipira Picando Fumo” é uma das obras marcantes do pintor brasileiro Almeida Júnior, um dos responsáveis por introduzir o homem brasileiro na pintura.

Em razão disso, sua obra está repleta de tipos que nos são bastante comuns.

O caipira é a única figura humana a fazer parte do quadro.

Ele é um homem de meia idade, forte, de rosto marcado pela dureza da vida, que usa uma camisa branca de mangas compridas que vão até o punho, com uma abertura em forma de V no peito, e uma calça amarronzada, gasta, com a barra dobrada quase no meio da perna.

O homem encontra-se calmamente sentando sobre toras, em frente ao paiol feito de taipa, picando seu pedaço de fumo com uma enorme faca, prestando atenção no que está fazendo.

O caipira já preparou a palha de milho, que se encontra atrás de sua orelha esquerda, para receber o fumo picado.

No chão, em volta dele, é possível ver um monte de palhas espalhadas.

Almeida Junior destaca com grande realismo as mãos ásperas e os pés toscos do caipira, com as unhas sujas de barro, assim como a calça, assinalando a vida dura que leva no trato com a terra.

Atrás dele vê-se uma porta entreaberta, sombreada, e, à frente, uma árvore reflete sua sombra no chão.

Parece ser este um momento de grande prazer para o homem da terra.

O sol também aparece indiretamente como coadjuvante na composição que mostra que o homem convive com a sua luz, trazendo luminosidade para a sua simples camisa branca.

Esta obra ficou conhecida pela contribuição regionalista da pintura brasileira e por incentivar um rompimento (ao menos na temática) dos argumentos europeus reconhecidos pelo pintor ituano.

A pintura do “Caipira Picando Fumo” nos dá possibilidade de percebermos a relação homem- terra.

A obra chama a atenção não só para o estudo dos costumes, mas, sobretudo para a questão natural da existência do caboclo nas terras do interior paulista.

Ficha técnica
Ano: 1893
Dimensões: 202 x 141 cm
Técnica: óleo sobre tela
Localização: Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil

Publicado originalmente no portal https://www.historiadasartes.com

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Alunos das escolas públicas: não desistam da universidade

“Dirigentes de instituições de ensino superior: preparem-se, no ano que vem, para atender a alunos que entrarão na faculdade com as chagas deste ano de pandemia. Vários terão menos conhecimento, todos terão mais sofrimento. Ninguém, ninguém mesmo (nem os ricos), chegará ileso ao pós-pandemia. Preparem-se. Acolham.”

O professor da USP e ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro na cerimônia de entrega do “Prêmio Empreendedor Social”, no Teatro Porto Seguro, em São Paulo – Mathilde Missioneiro – 5.nov.19/Folhapress

Direito à metade das vagas no ensino superior federal continua valendo

Por Renato Janine Ribeiro

Vejo muitas pessoas, especialistas ou não em educação, preocupadas. Temem que a falta de aulas presenciais impeça o acesso dos alunos de baixa renda —que na grande maioria estudam em escolas públicas— ao curso superior caso se saiam mal no próximo Enem. Mas quero esclarecer que esses estudantes continuam tendo direito às cotas, porque o ingresso nas universidades e institutos federais usa, sim, os resultados do Enem, mas se dá pelo Sisu, ou Sistema de Seleção Unificada.

Desde 2012, a lei federal 12.711, chamada de Lei de Cotas, reserva metade das vagas de cada curso superior federal a quem fez o ensino médio, inteiro, em escolas públicas. São cotas ditas “sociais”.

Muita gente não sabe disso e afirma que, em vez de cotas étnicas, deveríamos ter cotas para os mais pobres. Pois é, elas já existem: os mais pobres geralmente cursam escolas públicas.

As cotas étnicas são um subconjunto dessa metade. Ou seja, afrodescendentes, indígenas e seus descendentes só se beneficiam de cotas se tiverem feito todo o curso médio em escolas públicas. E têm direito a um porcentual dessas vagas na proporção de sua população no estado em que está o curso desejado.

Mas que fique claro: o Enem não tem cotas. Ele apenas dá as notas. Com base nelas, o aluno interessado se inscreve no Sisu para escolher o curso em que deseja estudar.

As cotas estão no Sisu, não no Enem. Assim, mesmo que os alunos de escolas públicas tenham aproveitamento inferior ao esperado, por não terem podido acompanhar o ensino remoto emergencial (na falta de computador ou smartphone, de pacote de dados, de banda larga onde moram), continuam com direito à metade das vagas no ensino superior federal.

Daí decorrem três coisas. Primeira, acalmem-se (um pouco). Vocês continuam com direito moral e legal às políticas de inclusão social no ensino superior para tornar nosso país mais justo e mais diverso. A revista Piauí publicou em outubro uma reportagem tocante (“O ano da luta”) sobre jovens pobres que, sem aulas presenciais, têm dificuldades em estudar. Mas não desanimem, estudem. Ninguém desista de seu futuro! Ele está assegurado pelo compromisso que o Brasil assumiu, em lei, de lhes dar oportunidades.

Segunda, dirigentes de instituições de ensino superior: preparem-se, no ano que vem, para atender a alunos que entrarão na faculdade com as chagas deste ano de pandemia. Vários terão menos conhecimento, todos terão mais sofrimento. Ninguém, ninguém mesmo (nem os ricos), chegará ileso ao pós-pandemia. Preparem-se. Acolham.

Terceira, acalmem-se, mas mobilizem-se. O atual governo deixa claro, por palavras e atos, que não tem preocupação com os mais pobres. Pode ser que baixe uma medida provisória, na véspera das matrículas, subvertendo o Sisu e desviando para os mais ricos as vagas criadas na enorme expansão do ensino superior federal após 2003. Se isso acontecer, devemos estar prontos para lutar, inclusive pressionando quem de direito (o Supremo, a presidência do Congresso) para impedir a destruição dos sonhos de quem merece a oportunidade de uma vida melhor.

Renato Janine Ribeiro Professor titular de ética e filosofia política da USP, ex-ministro da Educação (governo Dilma, 2015) e autor de ‘A Pátria Educadora em Colapso’ (ed. Três Estrelas)

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br/

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